quarta-feira, 27 de julho de 2011

Experiência e filosofia natural na Idade Média

"Qualquer coisa que é haurida da evidência dos sentidos é superior àquilo que é oposto à observação; uma conclusão que é inconsistente com a evidência dos sentidos não deve ser sustentada; e um princípio que não concorda com o conhecimento experimental dos sentidos não é um princípio, mas o oposto disso. (...) O raciocínio deriva e garante uma conclusão, mas não a torna certa e nem remove a dúvida de tal forma que a mente possa descansar sobre a intuição da verdade, a menos que a descubra por via da experiência."

ALBERTO MAGNO, Comentário à Física de Aristóteles


O estudo dos fenômenos naturais, a Filosofia Natural, teve seus acanhados inícios na Idade Média antes ainda das traduções das obras físicas de Aristóteles no século XII e XIII. Adelard de Bath, como mostramos em um post anterior, já havia definido uma clara distinção entre o projeto teórico de estudo do mundo natural e as exigências da teologia no século XII.

Presos a um conhecimento parcial das obras peripatéticas, praticamente restrito ao corpo lógico dessa tradição, os filósofos naturais medievais encararam seu campo de estudo a partir de um ponto de vista eminentemente lógico-formal. Com as traduções das outras obras deAristóteles, chega a tradição de um pensamento firmemente fincado no mundo empírico.

Em sua Física, o filósofo grego declara que o filósofo natural lida com um mundo formado de seres móveis, ou seja, seres que atualizam potencialidades que estão inscritas em suas naturezas. Todas as operações desses seres derivam-se dessas potencialidades definidas por suas naturezas, e conhecê-las é conhecer realmente suas causas.

As naturezas - ou Formas, Eidos -são conhecidas por um processo que, necessariamente, inicia-se pelos sentidos. Os sentidos nos fornecem seres singulares e pela sua observação, a imaginação gera fantasmas e, através destes, a abstração separa o essencial daquilo que é material e alcança a natureza, que é geral e se encontra instanciada inteiramente em cada um dos seres concretos que os sentidos nos fornecem.

O que nos é mais acessível - os diversos exemplares concretos que nos vêm pelos sentidos - não é o primeiro na ordem do ser. Em outros termos, a causa das coisas é sua natureza, compartilhada por todos os exemplares concretos, que só é alcançada por um processo mediado pelos sentidos, mas que não pára neles.

A natureza será traduzida numa definição formal que, em conjunto com outras premissas, servirá como premissa numa demonstração que será verdadeiro conhecimento. Assim, o ideal do conhecimento aristotélico é empírico e indutivo em suas premissas hauridas diretamente pela experiência comum dos sentidos e demonstrativo por sua estruturação lógica.

Ora, esse conhecimento preenche plenamente o ideal de epistemé ou scientia, ou seja, conhecimento certo e infalível. Uma vez que as premissas são indubtávelmente verdadeiras, nenhum erro poderá ser deduzido delas. Em outros termos, o que sustenta o conhecimento é a verdade das premissas, hauridas pela indução e abstração a partir de exemplares concretos dados aos sentidos.

Tudo o que a coisa é - sua essência -, tudo o que a coisa pode fazer ou sofrer - suas operações e potencialidades - segue-se de sua natureza, sua causa real. Dessa forma, não é difícil entender que os filósofos naturais medievais, enquanto verdadeiros aristotélicos, enfatizavam o uso da experiência empírica comum, mas não se dedicassem a testar em experimentos suas teorias.

Ora, se algum filósofo natural que saber se uma teoria é verdadeira, basta perguntar-se sobre suas premissas. Se elas são hauridas diretamente da experiência ou puderem ser logicamente deduzidas de princípios ou premissas sabidamente verdadeiras, então sua verdade está demonstrada.

O método (da ciência moderna) de derivar logicamente de teorias algumas consequências ou predições e de testá-las num ambiente controlado - e por definição, "não-natural" - não poderia atrair um aristotélico medieval. E isso por motivos estritamente lógicos e metodológicos. Em primeiro lugar, são as premissas que sustentam o argumento ou a teoria e não o contrário. Tentar provar a teoria por suas consequências ou predições é esquecer-se que de premissas falsas podem ser derivadas conclusões verdadeiras. Por conseguinte, nada pode ser provado sobre a verdade da teoria.

Em segundo lugar, por esse método, qualquer conjunto de dados pode ser harmonizado com um conjunto indefinido de teorias. Consequentemente, jamais poder-se-ia provar definitivamente uma teoria, uma vez que é impossível afirmar que não há uma alternativa igualmente adequada aos fatos.

O filósofo natural medieval não queria um conhecimento meramente provável ou probabilístico, mas um conhecimento certo que se derivasse diretamente da natureza das coisas. Longe de ser um desprezo da experiência, sua postura era antes uma confiança insuperável na verdade da mesma e na racionalidade do mundo.

O mundo é um cosmos, um ente dotado de seres que se relacionam ordenadamente uns com os outros segundo suas naturezas intrínsecas e imutáveis. É a natureza - Forma ou Eidos - que garante a inteligibilidade e a ordem do mundo. Se este se apresenta ao homem de forma ordenada, é porque as coisas têm naturezas intrínsecas e suas operações e movimentos - suas atualizações de potencialidades - são determinadas por aquelas. A experiência nos dá testemunho dessa ordem racional. O mundo é inteligível e pode ser estudado racionalmente. Por isso, o conhecimento é certo e demonstrável.

Esse pressuposto básico será duramente criticado já no final do século XIII e desse questionamento surgirá uma nova forma de filosofia natural, restrita ao âmbito do mero provável e ancorada em experimentos dados somente na imaginação.

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4 comentários:

Pedro Sampaio disse...

Rogério, dá uma lida nessa passagem de Sto. Tomás, no Comentário à Metafísica de Aristóteles, fim do Livro II:

"Já que diversas pessoas segundo diversos modos pesquisam a verdade, é importante que o homem se instrua através de qual modo deve proceder nas ciências em particular para que compreenda aquilo que dizem. O modo que é ótimo [para uma ciência] não deve ser [utilizado] em todas. Por exemplo, a razão certa, como na matemática, não deve ser requerida em todas as ciências. Deverá ser requerida apenas nas ciências das coisas que não possuem matéria. Isto porque aquelas coisas que apresentam matéria são sujeitas ao movimento e à variação e por isso não é possível nelas encontrar uma certeza total. Já as coisas que são imateriais segundo si mesmas são certíssimas, porque são imóveis, mas estas substâncias separadas não são certas para nós por causa do defeito de nosso intelecto, conforme explicado. Como os entes matemáticos são abstraídos da matéria, e todavia não excedem o nosso intelecto, por isso deles se pode exigir uma razão certíssima. E porque toda a natureza diz respeito à matéria, por isso este modo de certíssima razão não pertence à filosofia natural. "

A certeza cabe à metafísica e à matemática, e não às ciências naturais. E mais: a tarefa de definir a natureza de um ente não é do físico, mas do metafísico. Esse é um erro muito comum em quem estuda Aristóteles, talvez porque o próprio Estagirita não tenha explicado o campo da Metafísica. Platão, nesse ponto, é muito mais claro.

Rogério S. disse...

Olá Pedro!

A passagem que vc cita é semelhante à uma de Proclus que postei há algum tempo. De fato, certeza absoluta, somente nas matemáticas e isso era admitido pelo próprio Aristóteles. A incerteza nas ciências naturais provinha da instabilidade da matéria e da resistência à forma que a mesma matéria podia exercer. Por esse motivo, os indivíduos poderiam não realizar plenamente a forma.

Conhecendo-se a natureza, conhece-se o comportamento geral, sem que com isso se possa dizer que cada indivíduo necessariamente vai realizar em plenitude essa natureza, devido à instabilidade da matéria. Mas longe de invalidar a certeza, isso a confirma na medida em que pressupõe a integridade da forma nos indivíduos e atribui a limitação das operações às condições materiais, inclusive externas.

Tem uma discussão interessante de Tomás na Suma onde ele distingue os objetivos do físico e do astrônomo:I,32, 1-2.

De qquer forma, vou olhar com mais atenção a passagem que vc me enviou. Obrigado pela lembrança!

Pedro Sampaio disse...

Só que as ciências naturais tratam de operações, que são incertas. As capacidades podem ser deduzidas das naturezas, mas jamais se poderia tomar operações como necessárias, e assim fica difícil construir uma ciência propriamente dita. Exemplo: pela análise da natureza da vaca, se pode concluir que as vacas são capazes da dar leite, mas não que tal vaca dará leite em tal situação. A aplicação das teorias das ciências naturais a casos particulares é comprometida pela instabilidade da matéria. Por isso os velhos pitagóricos, e pelo que parece, também os hindus, só admitiam a astronomia como ciência, na medida em que os astros estão livres da geração e corrupção. O deslocamento de um planeta e previsível, mas nenhum deslocamento no mundo sublunar pode ser fixado numa teoria. A ciência moderna continua errando as previsões, mas joga a culpa nos instrumentos de medida. Enquanto isso, um bando de bocós saúda essa sucessão de erros como um triunfo do cristianismo e sua valorização da "ordem perfeita do mundo" sobre o paganismo. Haja saco! Por que essas almas beatas não lêem os escolásticos?

Rogério S. disse...

Olá Pedro!

È verdade que conhecer o geral não implica saber exatamente como um caso particular vai se dar. O próprio Aristóteles dizia na Física que a ciência tratava daquilo que acontece sempre ou na maioria dos casos.

Circunstâncias acidentais podem impedir que certas operações ou potencialidades se atualizem num caso concreto. E de alguns fenômenos não se pode exigir uma regularidade perfeita.

Mas acho que isso não invalida o caráter de ciência que Aristóteles dá à Física. Isso porque o conhecimento científico versa sobre o geral. Em termos gerais, conhecer a natureza da vacae saber que ela dá leite é suficiente, mesmo que em alguns casos perticulares isso não se dê.

Diante de uma vaca que não dá leite há algumas possibilidades a considerar: primeiro, esta vaca X não dá leite porque nasceu com alguma deficiência. Nesse caso é um problema de ordem material que não aflige sua natureza, mas somente uma de suas operações.

A Forma da vaca está lá na vaca X, com todas as suas potencialidades e operações próprias, mas uma dessas potencialidades não pode se atualizar por causa de um problema material. Poderia ser também um problema externo, como uma seca no lugar onde a vaca X está.

Uma segunda possibilidade, desposada por muitos como manobra nominalista, seria dizer que se a vaca X não dá leite, e dar leite é parte essencial da definição de ser "vaca", então a vaca X não é vaca e sim outra coisa.

Os problemas dessa "solução" são óbvios. Uma vaca é fruto da reprodução entre dois seres da mesma espécie. Dizer que seu rebento não é exemplar da espécie dos progenitores é dizer que um ser de outra espécie nasceu deles. Com isso vai-se a ordem no mundo.

Parece então que a natureza científica da Física não pode estar centrado no caráter acidental que das exceções em casos particulares.

Isso tudo já se modifica na ciência moderna ou contemporânea, pois nela as predições têm primazia na verificação das teorias. E vc tem razão quando fala que os cientistas culpam os instrumentos de pesquisa.

O problema que eles não percebem é que, em termos lógicos, não importa o quanto os aparelhos sejam confiáveis ou mesmo que sejam perfeitos. O problema não está aí e sim na idéia de que é possível derivar a verdade da teoria da verdade das conclusões.

Quanto à astronomia, tem um aspecto curioso dessa questão. É que desde a Grécia antiga se tinha a idéia de que a astronomia servia somente para "salvar os fenômenos", ou seja, descrever matematicamente os fenômenos celestes visíveis se com isso determinar a natureza ou verdade dos movimentos dos astros.

Por exemplo, se havia ou não epiciclos os astrônosmos não sabiam. O que eles sabiam é que a postulação dos mesmos nos cálculos matemáticos das órbitas dos planetas levava a resultados inteiramente concordantes com o comportamento observável desses corpos celestes.

Em outros termos, a previsão acurada tinha como preço o desconhecimento da verdade acerca dos astros. Segundo diversos historiadores essa idéia perdura por toda a antiguidade greco-latina e Idade Média e só termina explicitamente em Galileu, na sua polêmica contra os aristotélicos.

Abração!