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sexta-feira, 18 de abril de 2025

A descida do herói ao mundo subterrâneo na Eneida - parte final

"A noite cai, Eneias. Chorando passamos as horas.
Aqui é o lugar onde o caminho bifurca:
À direita, sob as muralhas do grande Dite, a via para o Elísio,
À esquerda, de punição dos réprobos, a via para o ímpio Tártaro."

VIRGÍLIO, Eneida, livro VI
 
Eneias e a sibila descem na margem oposta do rio Estige para onde foram conduzidos pela barca de Caronte e deparam-se com Cérbero, o cão de três cabeças que impede as almas de retornarem ao mundo dos vivos. A vate lança uma torta de mel com dormideira para entorpecer o monstruoso guardião do Orco, semelhante à Medéia, sacerdotisa da Hecate, que fez dormir a serpente que protegia o carvalho no qual pendia o velocino de ouro.

As três cabeças de Cérbero, que nascem de um só corpo, podem ser interpretadas como os três constituintes do tempo: o passado, o presente e o futuro que nascem de uma única fonte atemporal. Fazer as três cabeças dormir, significa desfazer as diferenças na direção da unidade. A anábase é a ascensão que parte do mundo das diferenças à unidade do Princípio que a tudo abarca e unifica na qualidade de fundamento do que há, do que foi e do que pode haver.

Porém, a catábase é uma descida ao insubstancial mundo das sombras e da escuridão (Érebo) que a tudo iguala no caldo primordial do possível. Eneias desce ao polo de indistinção da realidade onde se encontram as possibilidades preteridas, as que já se realizaram e que foram temporalmente dissolvidas, e as que ainda podem florescer em algum momento. Ali o herói encontra as crianças que morreram prematuramente, símbolos das realidades falhadas, as sementes que não chegaram ao seu termo natural.

À frente dos dois viajantes aparecem os culpados pela deliberada interrupção da própria vida. Simbolizam a incompletude daquilo que se encerra antes de seu fim próprio. Os criminosos vem logo após, condenados pelo rei Minos, o juiz universal das almas. Nos tristes e lamentáveis Campos Lugentes habitam figuras que representam o ciúme, o assassinato do esposo e da parentela, a bestialidade, o atentado contra a vida, etc. O crime representa o erro (ἁμαρτία), o fracasso em alcançar a excelência (ἀρετή), a desmedida (ὕβρις), tudo o que se encontra aquém ou além da proporção que caracteriza a justiça (δικαιοσύνη).

Eneias depara-se com Dido, e, entre soluços, diz à soberana cartaginesa que a sua partida de Cartago não fora ditada por desejo ou por interesse pessoal, mas pelos deveres da pietas, e lamenta o infortúnio de de seu sacrifício auto infligido. Todavia, o troiano contempla a raivosa sombra da rainha afastar-se na direção de Siqueuseu antigo esposo. O que está feito, está feito. 
 
Dido é a possibilidade que foi preterida no ciclo anterior, e que, portanto, permanece irrealizada no Fundo metafísico, e não pode ser reconciliada com o novo ciclo que está por vir. Ela se junta a Siqueu, a possibilidade "morta", que se realizou e cumpriu seu papel no mundo. O troiano deve seguir em frente na via da piedade que realiza os desígnios divinos.

Muitos heróis mortos apresentam-se à visão de Eneias. Entre eles encontra-se Deífobo, horrivelmente mutilado na Guerra de Troia, sem as mãos e as orelhas, rosto talhado por ferimentos e nariz desfigurado. Aquilo que efetivou-se na realidade guarda as marcas simbólicas da temporalidade. Não possui os meios de ação representados pelas mãos, não recebe o influxo externo das coisas tal qual o surdo que é incapaz de ouvir, tem o rosto marcado pelas vicissitudes do mundo e não inspira o ar que sustenta a vida.

Deífobo relata a ignominiosa traição de sua esposa Helena que abriu aos dânaos as portas de sua casa entregando-o à morte certa. Os mortos, possibilidades já extintas, e que jamais repetir-se-ão, pertencem ao tênue reino da memória. Conhecem o passado, contam suas histórias, e o homem que a elas se prende não cumpre o seu destino. A sibila adverte Eneias para que abandone a conversação com Deífobo, dado que a Aurora adianta-se e o tempo urge.

O caminho chega a uma bifurcação. À esquerda, o Tártaro, cuja descomunal fortaleza é cercada pelas chamas do rio Flegetonte, onde os réprobos são castigados sob o olhar incessante e terrível de Tisífone, uma das Fúrias. Os criminosos são forçados por Radamante a confessar seus atos e recebem as penas correspondentes aos seus delitos. 
 
Presos no abismo de escuridão sem medida do Tártaro estão os Titãs, as divindades ancestrais destronadas por Zeus e pelos olímpicos na titanomaquia relatada por Hesíoso no poema da Teogonia. Os Titãs representam os estratos ancestrais da realidade, a potência infinita ainda intocada pela circunscrição da ordem, e que, por isso mesmo, apresenta os aspectos da desmedida, do descontrole e da indefinição.
 
Após sua derrota, os Titãs são substituídos por Zeus e pelos deuses olímpicos, aqueles que moram no monte Olimpo, símbolo do que é elevado, formal e celeste. São as possibilidades plasmadas pela forma, pelo limite, o que permite que exerçam doravante o papel formador-cosmológico. Zeus instaura sua justiça (Δίκη, diké), isto é, a medida, a proporção que torna possível que cada coisa seja o que ela é pela delimitação de sua natureza intrínseca.

Não deve Eneias tomar a vertente esquerda, o caminho infernal do crime e da indistinção. Chegou o momento da escolha, do juízo sobre o herói. Aquele que busca a iniciação desce pela catábase ao mundo subterrâneo, morre simbolicamente, habita entre as sombras dos mortos, conhece o Fundo aterrador e caótico da realidade. O risco é ser destruído pela Hidra, a besta de cinquenta bocas escancaradas que aguarda para devorá-lo à sinistra, na via da esquerda (vāmācāra).
 
O piedoso Eneias, o herói (vira) que possui o ramo de ouro, o facho celeste, que traz o Sol consigo, e que é guiado pela mistagoga, a sibila sacerdotisa de Apollo e da Hecate (a que transita entre os opostos), deve escolher a via da direita, o caminho dos ancestrais que conduz a seu venerável pai Anquises.  
 
À direita estão o palácio de Plutão e os Campos Elísios. Aqui o simbolismo se inverte. O que era o reino do amorfo, da escuridão e do caótico agora apresenta-se como o lugar dos tesouros, das infindas possibilidades de atualização da realidade. O Fundo não mais representa a negativa dissolução das formas, mas, ao contrário, simboliza o positivo poder criador, a transbordante e infinita eficácia que reside no âmago do Ser.
 
Hades, o senhor do mundo subterrâneo, era conhecido entre os gregos também pelo nome de Ploutos (Πλοῦτος, o Plutão romano), nome que remete à riqueza. Sob a terra estão as sementes que, depois de serem plantadas, "morrem" e "renascem" como cereais que serão colhidos. A terra naturalmente se presta ao simbolismo do aspecto feminino da fertilidade.
 
O Orco, o reino subterrâneo, domínio dos Di Inferi, é governado pelo casal real Plutão (Hades) e Prosérpina (Perséfone), que simbolizam respectivamente o poder paterno de fecundação e o poder materno da fertilidade que residem no Fundo da realidade. Plutão é o Dis Pater, o que concede riquezas, enquanto Prosérpina é a Mater (ou a Jovem) que gesta as riquezas em seu seio.
 
A sibila insta Eneias a confirmar a sua escolha da via da direita que conduz ao Elísio. O troiano asperge sobre seu corpo água recém colhida, rito tradicional de purificação exigido aos que entram no templum, o lugar sagrado (sacer). Em seguida, o herói deposita o ramo de ouro no portal do palácio da rainha Prosérpina. O símbolo solar masculino, o poder eficaz e ordenador,  é oferecido à deusa, o poder feminino de fertilidade, e a união de ambos, o hierogamos, permite que as benfazejas possibilidades do novo ciclo sejam engendradas como seus frutos.

No Elísio, onde o éter é mais puro e a luz mais brilhante, Orfeu canta hinos a Apolo com sua lira e vivem felizes os veneráveis ancestrais dos troianos Teucro, Dárdano e Assácaro, assim como os sacerdotes virtuosos, os heróis que tombaram pela pátria, os poetas e cantores piedosos, os inventores de artes, os que grandes obras realizaram e pelas quais são lembrados. Todos trazem em suas testas as faixas brancas do sacerdócio.

Os bem-aventurados dirigem Eneias até onde está Anquises, que contemplava as almas da linhagem futura de seus descendentes. O herói regozija e tenta por três vezes abraçar a insubstancial sombra (umbra) do pai que escapa do amplexo filial como um vapor. Num aprazível bosque, multidões de almas aglomeram-se diante do rio Letes a fim de beberem de suas águas para, esquecidas da vida pregressa, retornarem ao domínio dos vivos.

As águas simbolizam as possibilidades, o estado larvar daquilo que possui aptidão para existir neste mundo. A almas que bebem do Letes dissolvem no caldo primordial suas existências anteriores para assumirem novas vidas. Corruptio unum generatio alterius. As realidades do ciclo que se encerra são destituídas de suas funções precedentes e assumem novos papéis no ciclo nascente. Porém, nem tudo se perde, pois nunca há descontinuidade no Ser. As biografias, que resultam da lida com as circunstâncias particulares e concretas, são vestes passageiras deixadas para trás sem que as almas (o núcleo permanente) sejam aniquiladas na mudança.

Eneias indaga por qual razão as almas desejam retornar aos trabalhos e à azáfama da vida terrestre. Anquises responde que, desde o início, os céus, a terra, a lua, o sol e todos os astros são alentados interiormente pelo espírito (spiritus). A mente (mens) a tudo penetra, e agita a massa, dando azo ao gênero (genus) humano e à diversidade dos animais. Ígneo é o vigor e celeste é a origem das sementes, contanto que não estejam presas a corpos nocivos e membros moribundos, o que origina suas penas, temores, desejos e gozos, como que encerradas em escura prisão (carcere).

O Cosmo é animado por um princípio ascensional, ativo, vivo e ordenador. É um sopro (spiritus) e uma mente que a tudo dá origem e sustentação. As sementes, símbolos das possibilidades, são ígneas e celestes, isto é, possuem idêntica origem ascensional. Mas a efetivação das possibilidades é descensional, é a queda numa realidade opaca que frustra a visão da luz como as paredes de um cárcere encerram um prisioneiro. 

O descenso é a singularização, a submissão às condições desta existência, hic et nunc, aqui e agora. As dores, os desejos, os temores e os gozos constituem, em suma, a biografia adquirida pelas almas no curso de sua peregrinatio neste mundo. Os seres encarnados são mistos do ascensional e do descensional, do ígneo e do terreno, do leve e do grave. O retorno à fonte divina no post mortem exige uma purificação das condições limitadoras da singularidade.

Anquises ensina ao filho que as almas que passam pela purgação (purgatio) de suas faltas retomam seu senso etéreo e sua simples aura ígnea e são admitidas no Elísio. As outras, ao fim de mil anos, são convocadas por um deus às margens do rio Letes para beberem de suas águas e retornarem ao plano dos viventes. Há realidades que já cumpriram seu papel no ciclo que finda e não voltarão a este sítio, enquanto outras descerão novamente para desempenhar funções análogas no ciclo novo.

Desfilam em fileiras os descendentes de Eneias que um a um o ancião identifica. Primeiro vem Silvio, filho do herói troiano com Lavinia e rei de Alba Longa, cidade a ser em breve fundada na Itália pelo pai. Seguem-no os demais reis Procas, Cápis, Numitor e Silvio Eneias. Depois dos quais vem Rômulo, o fundador de Roma, seguido por Júlio César, da linhagem de Iulo, o outro nome de Ascânio. 

No ápice do novo ciclo auspicioso aparece a figura de Otávio, o Augusto, responsável pela consolidação do Imperium, a quem o próprio Virgílio dedica a Eneida. Prometida está uma era de ouro saturnina, com a expansão do poder romano até os limites do mundo. Saturno (Cronos, para os gregos), pai de Jupiter, simboliza, negativamente, o rosto sombrio e destruidor do tempo que consome seus filhos, a seriedade, a gravidade (gravitas) que faz as coisas tenderem ao solo, o temperamento melancólico e meditativo, a infinitude vista sob o prisma da indefinida sequência dos dias.

Por outro lado, Saturno simboliza um retorno à era que antecede o reinado de Jupiter. Nela as potencialidades abundam, convivem umas com as outras sem distinção, o que explica o caráter orgiástico da festa romana da Saturnalia, no curso da qual as posições sociais eram abolidas. Toda ordem se dissolve para depois se coagular. Solve et coagula. A dissolução aqui não é a corrupção, mas sim o retorno regenerativo à fonte primordial. Em razão disso, as possibilidades são ilimitadas, pois as cadeias hierárquicas que constroem o Cosmo ainda não foram impostas. 

O novo ciclo é, por natureza, expansivo, fresco e promissor. Contudo, o mundo resulta da preferência e da preterição das possibilidades. A coagulação exige a imposição de limites, e Anquises exorta os romanos a aprimorar a arte do governo (imperium) dos povos: impor as leis e os costumes, poupar os sujeitados e dobrar os rebeldes. A ordem é a submissão das partes para a realização do Todo. Eneias, na segunda metade do épico, terá a função do ordenador que enfrenta e submete as forças recalcitrantes impondo-lhes os limites devidos

Na catábase, o herói munido do facho celeste desceu às profundezas escuras da indistinção do fundo da realidade e enxergou naquela coincidência radical não a triste dissolução das formas, mas a auspiciosa regeneração das possibilidades na luminosa fonte primária de todas as coisas. Seu dever doravante é moldar a realidade segundo o plano celeste contemplado no Elísio

Anquises orienta o filho a subir ao mundo dos viventes (anábase) usando a porta córnea do Sono pela qual os sonhos verazes são enviados aos mortais. A outra porta, de marfim, veicula os sonhos falsos que enganam os homens. Eneias sai da indistinção, passa pelas realidades sutis e retorna à realidade corporal. O herói embarca em sua nau com seus companheiros. Inicia-se a navegação do novo ciclo.

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sábado, 22 de março de 2025

A descida do herói ao mundo subterrâneo na Eneida - parte 3

 

"Deuses que sob vosso imperium estão as almas, sombras mudas,
o Caos e o Flegetonte, amplas regiões de noturno silêncio,
permitais dizer o que ouvi, e revele vosso numen
as coisas ocultas da terra imersa no breu."

VIRGÍLIO, Eneida, Livro VI (tradução minha)

Os ritos funerários prescritos foram cumpridos, e, de posse do ramo dourado, Eneias será guiado pela sibila no lúgubre reino das sombras. O guiamento pela mulher é outro tema recorrente na simbologia heroica. Teseu é guiado no labirinto do minotauro pelo fio de Ariadne, Jasão é conduzido por Medéia à árvore do velocino de ouro guardado pelo dragão. A mulher é símbolo das possibilidades, daquilo que está sendo gerado no útero da realidade. Do casamento sagrado, o hierogamos, entre o Céu e a Terra, Uranos (Οὐρανός) e Gaia (Γαῖα)nascem os poderosos Titãs, e da caixa de Pandora escapam os males que afligem os homens. 

A catábase, como todo símbolo, possui sentidos positivos e negativos. O descenso ao Orco, ao Érebo (escuridão,Ἔρεβος), significa a perda da identidade no breu da indistinção primordial que transforma os desafortunados em tristes sombras desmemoriadas. Se o herói, trazendo consigo o facho solar, consegue atravessar as paragens infernais, a dissolução dará lugar à regeneração operada pelas potências acumuladas no fundo da realidade. A sua ascensão (anábase) de volta ao mundo dos viventes será a do iniciado que recebeu novo status ontológico e acesso a conhecimentos antes ignorados.

O postulante à iniciação nos mistérios gregos de Eleusis era acompanhado ao telesterion (o lugar da iniciação) por seu mistagogos (μυσταγωγός), que, sendo ele mesmo um iniciado (μύστης), já havia passado pela epopteia (ἐποπτεία), a contemplação final do mistério (μυστήριον). A sibila, sacerdotisa de Apolo e da Hecate, reúne o solar e o noturno, transita entre a forma e o amorfo, entre a luz e as trevas, e serve de mistagogos a Eneias no seu desafio iniciático. 

A catábase inicia-se com um sacrifício no Averno. Numa grande caverna, protegida por um pântano e por uma densa floresta, cujos vapores impediam a sobrevivência dos pássaros, a sibila derrama sobre a testa de quatro novilhos negros o vinho sagrado, corta um chumaço do pelo dos animais, e, invocando a Hecate, imola-os e lança as oferendas às chamas. Eneias sacrifica uma ovelha negra às Eumênides e à Terra, uma vaca estéril à Proserpina e bois, em altares noturnos, ao rei estígio.

Os símbolos remetem à morte. A caverna tem um sentido tradicionalmente cósmico, porém, representa aqui um mundo sem vida, cercado pela inospitalidade do pântano e pelo caos selvagem e desordenado da floresta fechada que a tudo encobre com sua sombra. Os vapores que do Averno se desprendem matam as aves, símbolos das realidades superiores. Nenhuma ascensão aos estados celestiais é possível. Seu sentido é descensional, impera ali a gravitas de Saturno/Kronos, cujo reino titânico, monstruoso e terrível antecede à ordem estabelecida por Zeus/Jupiter.

Adequadas aos Di Inferi, os deuses "de baixo", as vítimas sacrificiais têm o pelo negro, representando a natureza indistinta, amorfa, sombria e oposta à luz solar de Apolo que dá a vida e torna manifestas as coisas. A Hecate, diva da magia e dos encantamentos, é invocada pela sibila, tal como fez Medéia a fim de conduzir o argonauta Jasão ao velocino de ouro. Associada aos céus por seu aspecto lunar e ao submundo por seu aspecto ctônico, a Hecate é deusa dos limites, das encruzilhadas (Trivia)da mediação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, e dos amuletos apotropaicos.

As Eumênides (Erínias ou Fúrias), terríveis divindades titânicas ancestrais, vingadoras dos crimes de sangue contra a parentela, e que atormentaram o matricida Orestes, são também apaziguadas pelo sacrifício de Eneias. São filhas de Nix (Noite), outro símbolo do indistinto e do amorfo. A Terra (Gaia), irmã da Noite e filha do Caos, confirma o caráter descensional do Averno, dado que os corpos descem na direção do solo e encontram ali seu repouso. É na Terra que as sementes são enterradas, "morrem" e depois "renascem" como vegetais. O ciclo de morte e renascimento é eminentemente iniciático.

Uma vaca estéril é sacrificada à Proserpina (Perséfone), a rainha do Orco, e consorte de Plutão (Hades ou Plutus), o rei estígio, o Dis Pater, soberano do mundo dos mortos, a quem Eneias imola touros em altares noturnos. A infertilidade da vaca reflete os aspectos negativos do reino subterrâneo: dissolução, morte e o esquecimento. Contudo, em seu aspecto positivo, simbolizado pelos touros, animais fecundadores, o domínio de Plutão é também o lugar do tesouro, da riqueza (πλούτος, plutos). Afinal, é sob a terra que se escondem os metais preciosos e as sementes que um dia serão alimentos.

Os Di Inferi receberam as suas homenagens, o proemio foi realizado, e então a sibila expulsa do recinto os profanos, os companheiros de Eneias que não serão iniciados. A aurora se aproxima, os cães ladram, Eneias saca sua espada e segue a vate que avança pela caverna. Passam pelas moradas vazias do Dite, e logo no início do Orco, encontram o Remorso (Luctus), o Medo (Metus), as Enfermidades (Morbi), a Velhice (Senectus), a Fome (Fame), a Pobreza (Egestas), os irmãos Morte (Letum) e Torpor (Sopor), o Trabalho (Labor), os Gozos proibidos da mente (mala mentis Gaudia) e a Guerra (Bellum). 

Mais à frente, estão as Fúrias e a Discórdia, e o olmeiro dos Sonhos vãos pendurados nos seus inúmeros galhos. A primeira leva de habitantes do Orco são os males pelos quais comumente os homens descem ao lúgubre reino subterrâneo.  O mal é a privação ou a diminuição de um bem. O Infernum é o reino da dissolução, da falta, da privação, da incompletude, do Não-Ser.

O Remorso é a consciência dolorosa de uma falta cometida, o Medo é fruto da ausência da coragem e diminui ou oblitera o poder de ação, a Enfermidade é a privação da saúde, a Velhice é a decadência corporal, a Fome é a insuficiência na alimentação, a Pobreza é a falta de meios, a Morte e o Torpor são ambos perdas (da vida e da consciência, respectivamente), o Trabalho é uma necessidade, Gozo proibido é imoderação, e a Guerra é a destruição mútua que resulta da desarmonia entre os homens.

As Fúrias vingam os crimes de sangue contra a parentela, violações das leis mais sagradas. A Discórdia (Discordia) é a desarmonia irreconciliável das mentes que deveriam estar unidas (Concordia). Os Sonhos vãos, pendurados nas folhas do grande e envelhecido olmeiro, simbolizam as potencialidades que não foram efetivadas no mundo, e que, por isso, permanecem para sempre "penduradas" na árvore central, o Axis Mundi, que liga e sustenta as várias dimensões da realidade. 

Após os símbolos da privação, Eneias e a sibila se deparam com os monstros Cila, Briareus, Quimera, Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias e Gerião. O monstro simboliza a resistência da matéria à forma, a rebeldia do caos frente à ordenação, a vitória do excesso sobre a medida, a ordenação incompleta do caos. A desmedida do monstro o impede de ser enquadrado em qualquer espécie ou tipo dentro do Cosmo. Seu corpo abriga partes de outros entes unidas num todo antinatural. 

Negativamente, os monstros no Orco representam a confusão e a desordem do reino subterrâneo da dissolução e do informal. Porém, sob um ângulo positivo, representam a concentração de forças opostas no fundo indistinto da realidade, a riqueza inesgotável e o transbordamento irrefreável do poder criador divino que não respeita medidas. Não à toa, o termo teras (τέρᾰς), equivalente grego do termo latino monstrum, significa também sinal divino, maravilha, portento, presságio. 

Assustado, Eneias golpeia com sua espada as sombras (umbras) que o cercam sem atingir nada. O Orco é o domínio do insubstancial, morada dos Di Manes (falecidos), aqueles que desceram ao nível informal da realidade. Impera ali a imagem (imago), a figura (forma), o tênue (tenuis). Numa outra chave simbólica, sendo um vivente que caminha no mundo dos defuntos, Eneias realiza a reintegração paradoxal dos contrários (vida/morte).

Chegaram a sibila e o troiano ao lodoso rio Aqueronte, no qual navega a negra barca de Caronte que transporta à outra margem as almas dos mortos. O rio é um símbolo tradicional do limite e da fronteira entre os mundos. Atravessar para o lado oposto do rio significa entrar em outra realidade e adquirir uma nova constituição ontológica. Inúmeros Manes aguardam na margem o barqueiro que a muitos nega a passagem por não terem recebido os ritos funerários prescritos.

Os insepultos são os profanos que não completaram os ritos, aqueles que não sofreram a morte iniciática, e que, portanto, não podem ser admitidos na epopteia. Eneias divisa no meio dessa triste multidão a figura de Palinuro, piloto de sua esquadra que morrera afogado, e com ele entabula conversação. O morto pede que seu corpo seja sepultado pelo herói em seu caminho de volta ou que este permita-lhe subir também na barca para o outro lado do Aqueronte. A sibila, na função de mistagoga, recrimina Palinuro pela insensatez de querer ingressar no telesterion sem ser digno.

O medonho Caronte percebe os dois viajantes e declara que aquela é a região dos mortos, e que nenhum vivente pode subir na sua embarcação. A sibila anuncia que se trata do piedoso Eneias em busca de seu pai Anquises, e mostra ao barqueiro o ramo dourado, o símbolo (σύμβολον), a senha que deve ser apresentada ao guardião do Hades, tal qual as lâminas douradas dos mistérios órficos. Somente aquele que porta o facho solar, o princípio ativo e ordenador das coisas, pode sobreviver no domínio das forças dissolventes da sombra, do sono e da noite.

Espantado, e não tendo nada a objetar, Caronte retira as almas que trazia na barcaça e transporta em segurança o troiano e a vate até à outra margem do lodoso Aqueronte. A partir daqui, o caminho dos ancestrais (Anquises) conduzirá Eneias aos Campos Elísios. 

(continuará na parte 4)
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

A descida do herói ao mundo subterrâneo na Eneida - parte 2

"Com tais rugidos, do fundo da cova a Sibilia cumana
conta mistérios terríveis em termos escuros, de envolta
com verdadeiros sucessos. Destarte a deidade dirige
seus arrebatos e o peito ofegante com rédeas lhe açoita."

VIRGÍLIO, Eneida, Livro VI, 100 (tradução de Carlos Alberto Nunes)

O centro do livro VI da Eneida é a catábase (κατάβασις), o tradicional tema simbólico da descida do herói ao mundo subterrâneo dos mortos. O piedoso Eneias, seguindo os conselhos da sombra (umbra) de seu pai Anquises, dirige-se pressuroso à Cuma tão logo desembarca na Itália, sobe o monte onde Apolo tem seu templo, e vai até à enorme caverna onde vive a sibila que o conduzirá pelo Orco. 

Virgílio chama Apolo de "vate de Delos" que inspira a sibila a profetizar o futuro. A figura do vate desempenha na religião romana funções análogas ao "mantis" (μάντις, vidente, profeta) da religião grega. Nascido na ilha de Delos, Apolo era o deus helênico da poesia, da música, da cura, das purificações (kαθαρμοί) e da inspiração proféticaApolo é vate porque o vidente inspirado por ele tem o "deus dentro" (ἔνθεος), está tomado pelo "entusiasmo" (ἐνθουσιασμός), e pode então proclamar a vontade dos deuses e predizer os acontecimentos vindouros.*

O oráculo (μαντεῖον) apolíneo de Delfos era um dos centros religiosos mais importantes da Grécia antiga, e sua fundação se dá quando Apolo mata a serpente Python (Πύθων) que dominava o sítio dedicado à sua mãe Gaia. O mito remete ao simbolismo da luta cosmogônica do deus (ou herói) solar contra a serpente (dragão, besta), isto é, a ação do princípio ordenador sobre as potências caóticas e amorfas. Apolo mata a besta e toma para si o oráculo, ato que destitui divindades arcaicas e titânicas (Python Gaia) de seus postos ancestrais e funda a nova ordem dos olímpicos (vide a Teogonia de Hesíodo).

Eneias sobe ao templo do Apolo solar antes de descer à escuridão do reino subterrâneo. Tal qual o deus matador da serpente, Eneias é também um ordenador (fundador de cidade) que enfrentará as monstruosidades do Orco para iniciar uma nova era (Roma). Para tanto, o herói precisou deixar para trás as forças recalcitrantes que não terão lugar no ciclo que se avizinha, e agora é mister a purgatio completa, a morte iniciática sob a égide do deus das purificações (kαθαρμοί) que elimina todo o miasma (pollutio, polução, impureza) e faculta ao homem a participação digna nos ritos sagrados.

Considerada sob o ângulo do simbolismo das iniciações, a catábase significa "uma reintegração dos contrários, uma regressão ao indistinto primordial. Em suma, trata-se da restauração simbólica do 'caos', da unidade não diferenciada  que precedeu à Criação, e esse retorno ao indistinto se traduz pela suprema regeneração, por um crescimento prodigioso de potência".** O descenso ao mundo subterrâneo equivale à morte e à regeneração rituais. O homem dissolve-se no caldo primordial caótico e renasce imbuído de um novo status ontológico.

No nível macrocósmico, o novo ciclo é precedido pela retração e pela reabsorção das formas antigas, pela dissolução completa do Cosmos até então vigente. Em seguida, regeneradas as forças produtivas pelo "retorno ao Caos précosmogônico, com a imersão no reservatório ilimitado de poder que existia antes da Criação do mundo", o ciclo seguinte começa a sua auspiciosa manifestação. No nível microcósmico, o iniciado morre para a sua existência anterior e posteriormente retorna num patamar ontológico superior que faculta seu acesso a conhecimentos e a poderes que antes lhe eram vetados.

Eneias chega ao templo de Apolo, cujas portas foram belamente adornadas por Dédalo quando este pousou em Cuma fugindo com seu filho Ícaro da Creta do rei Minos. As imagens entalhadas nas portas davam conta da façanha de Teseu que matou o Minotauro com a ajuda de Ariadne. O símbolo celeste/solar de Apolo é reforçado pela referência a Dédalo, o homem que foge do labirinto ascendendo aos céus. O tema de Teseu representa os trabalhos do herói que enfrenta a besta/monstro no labirinto guiado pela mulher, o que antecipa o próprio Eneias conduzido pela sibila nos Infernos.

Deífobe, a sibila, aparece e conclama o troiano a deixar de lado as imagens gravadas nas portas do templo e a realizar os ritos sacrificiais prescritos imolando sete touros e sete ovelhas. A vate é sacerdotisa da Trivia e de Febo. A Trivia é a Hecate, deusa terrível que faz parte dos Di Inferi, os "deuses de baixo", e que era cultuada nas encruzilhadas (trivia). O fato de ser também consagrada à Apolo torna a sibila de Cuma um símbolo da união dos opostosRepresenta a figura do guia perfeito que transita nos caminhos que vão do polo celeste e solar ao polo infernal e escuro. Só ela pode conduzir o troiano na sua catábase.

Deífobe é filha de Glauco, deus marítimo que possuía dons proféticos. A relação paternal com o mar justifica simbolicamente o poder da sibila de predizer o futuro. As águas representam tradicionalmente as potencialidades indistintas que o fundo da realidade contém, e deuses marítimos como Proteu são capazes de assumir inúmeras formas. Em ambos os casos, manifesta-se a ligação com o possível, com aquilo que ainda não aconteceu.

Não obstante, o aspecto aquático é passivo e justifica somente a susceptibilidade da sibila à dimensão amorfa das possibilidades. É necessário que venha de cima o mandato celeste que antecipa o que de fato acontecerá dentro do campo indefinido dos possíveis. O aspecto solar e ativo do dom profético faz sua aparição quando a vate anuncia: "deus ecce deus!" ("Eis o deus! Eis o deus").

Na caverna de cem portas e cem caminhos subterrâneos (um labirinto) onde vive, a sibila muda de fisionomia, parece maior do que é, cabelos desgrenhados, sua voz torna-se ofegante, diferente e profunda. O numen, o "poder" ou "vontade" de Apolo, anuncia a sua presença. O sangue gela e o tremor toma conta dos homens diante do Mysterium Tremendum. Eneias dirige-se ao deus, reconhece sua proteção na fatídica guerra de Troia, suplica que os divos permitam que se estabeleçam ali na Itália finalmente os penates, divindades troianas trazidas com tanto zelo pelo piedoso herói na sua fuga da sagrada Ílion.

Promete ainda construir templos dedicados à Trivia, a Apolo e à própria sibila, para guardar as suas profecias. Virgílio apresenta nesse episódio a origem da importante tradição romana dos oráculos sibilinos. Conta-se que a sibila, cortejada por Apolo, pede ao deus o dom de viver tanto quanto o punhado de grãos de areia que recolhera do chão. Contudo, esquece-se de pedir também a permanência de sua juventude, e acaba condenada a envelhecer indefinidamente.

Mais à frente no tempo, a sibila oferece a Tarquinius, o rei de Roma, seis livros contendo suas profecias. Como achasse caro demais o preço pedido, o soberano recusa a oferta e a vate queima três livros. Volta a oferecer os restantes pelo mesmo preço, e o rei se recusa a pagar. Mais três livros são queimados e os três sobrantes finalmente são comprados por Tarquinius, que os depositou no templo de Jupiter no Capitólio. Durante a república, a coleção de versos era consultada sempre em situações de crise e interpretada pelos augures.

Tendo feito suas promessas, Eneias recebe a resposta de Apolo. As cem portas se abrem para reverberar a voz da sibila que esbraveja, contrai os lábios, espuma e, tomada pelo entusiasmo, finalmente liberta de seu peito as palavras do numen. Haverá guerras, o rio Tibre será tomado de sangue, um outro Aquiles terá de ser enfrentado, uma mulher estrangeira será causa de muitos sofrimentos, mas não tema e nem desista o herói, pois ao fim o socorro de uma cidade de dânaos conduzirá tudo a bom termo.

Com a mão posta sobre o altar sagrado, Eneias solicita à sibila que o guie pelo domínio subterrâneo até o sítio onde se encontra a sombra de seu pai Anquises. Descer ao Dite, o reino dos Di Manes (os mortos), é tarefa sem dificuldades, responde a vate, pois seus portões estão sempre abertos. O desafio é conseguir retornar ao claro mundo dos vivos, como o fizeram Orfeu, Castor e Hércules. 

Entregar-se à dissolução nas águas inferiores não demanda esforço. Perder a própria unidade não requer trabalhos. "Pois o comum desce ao Orco em silêncio", dizia Friedrich Schiller. A proeza do herói é justamente empreender por vontade a catábase, o descenso aos Infernos, e, após enfrentar a escuridão do Érebo, ascender de volta ao mundo dos viventes, anábase, dignificado tal qual o iniciado que contemplou o segredo (ἐποπτεία) dos mistérios.

A sibila responde que Eneias atravessará em segurança aquelas tenebrosas paragens se trouxer consigo o ramo de ouro que nasce no bosque do Averno. Todavia, antes da descida infernal, o troiano deve realizar os ritos fúnebres apropriados para um companheiro insepulto cuja morte contamina a todos com a pollutio (miasma, entre os gregos). Duas pombas gêmeas, nas quais Eneias reconhece a ação de sua divina mãe, Venus, aparecem e guiam-no até à árvore de onde nasce o ramo áureo. 

A árvore simboliza o axis mundi, o "eixo do mundo", que liga as coisas terrestres às celestes, atravessando todos os mundos intermediários. A pomba é símbolo das realidades espirituais que atuam como mensageiros (ἄγγελος, anjo) do plano divino, mas também podem representar os elevados pensamentos que devem ocupar a mente daqueles que querem se aproximar da árvore da vida. O herói toma para si o ramo dourado, e logo depois um outro nasce no lugar do que foi arrancado. O poder criador e regenerador da árvore da vida é infinito.  

A simbologia do ramo áureo é claramente solar (ouro). Quem desce à indistinção do mundo subterrâneo deve trazer consigo o Sol, o poder ativo, determinador e ordenador da realidade, tal qual um facho no meio da noite. O ramo dourado é um símbolo (σύμβολον) também no sentido antigo de permissão, tokenpasse ou senha. Há paralelos disso na tradição religiosa grega. No orfismo, por exemplo, lâminas douradas com instruções para a catábase eram colocadas sobre as mãos, peito ou boca dos mortos. 

As lâminas recomendavam aos falecidos que não bebessem das águas do rio Lethe (Λήθη, "esquecimento"), mas que, ao contrário, se apresentassem aos guardiões do Hades a fim de que lhes fosse franqueado o acesso ao lago de Mnemosine (Μνημοσύνη, "memória"). Os iniciados nos mistérios de Orfeu declaravam aos guardiões que eram filhos "da Terra e do Céu estrelado", que pertenciam à estirpe celeste, e que estavam secos de sede. As instruções eram, então, uma senha que facultava ao iniciado a manutenção da memória e da identidade pessoal no reino das sombras esquecidas de sua vida terrestre. 

Retornando a seus homens, Eneias toma ciência de que Miseno, escudeiro do bravo e nobre Heitor, morrera afogado e permanecia insepulto. Uma alta pira funerária de quatro lados é erguida, coberta de negra folhagem e encimada pelas armas do defunto. Seu corpo é lavado, perfumado, conduzido à pira e queimado. Um mausoléu no sopé de um monte abriga as cinzas de Miseno depositadas numa urna de bronze.

De posse do ramo dourado e purificado da pollutio pela realização dos ritos fúnebres devidos, o piedoso Eneias está pronto para empreender a viagem infernal em busca do pai Anquises. 

(Continua na parte 3) 
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** Mephistophélès et l'androgine, de Mircea Eliade, p.164 (tradução minha)
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

A descida do herói ao mundo subterrâneo na Eneida - parte 1

"A fina flor dos guerreiros troianos, os homens mais fortes conduze à Itália. Com gente mui dura e de trato difícil terás de haver-te no Lácio. Porém, antes desce às moradas do torvo Dirte."

ANQUISES, Eneida, Livro V, 730 (trad. Carlos Alberto Nunes)

A descida do herói ao mundo subterrâneo, a catábase (κατάβασις), é um tema mitológico tradicional. O exemplo mais conhecido talvez seja o de Odisseus (Ulisses) descendo ao Hades para consultar o vidente cego Tirésias na Odisséia. Também o piedoso Eneias desce ao Orco na Eneida a fim de encontrar seu venerável pai Anquises. 

Após o trágico episódio da imolação da rainha Dido ocasionado por sua partida de Cartago, Eneias chega à Sicília, onde é recebido pelo rei Acestes (Livro V). Ali seu pai Anquises havia sido enterrado há um ano, e o herói troiano realiza os ritos fúnebres devidos, e comemora o progenitor com jogos. Os heróis defuntos são tradicionalmente homenageados nos ritos fúnebres com certames, como se testemunha nos funerais de Pátroclo na Ilíada.*

Os jogos são expressões do agon (ἀγών, no grego), isto é, o esforço, o combate, e, sobretudo, a proeza, apanágio das castas guerreiras. Competições navais, corridas a cavalo, desafios de arquearia e lutas de pugilismo entre os companheiros de Eneias são seguidos pela distribuição dos prêmios valiosos aos vencedores. Os guerreiros manifestam seu valor nas proezas bélicas e nos certames atléticos.

Findos os jogos, Eneias vai ao sepulcro de Anquises e verte ali duas crateras cada de vinho, de leite e de sangue, e deposita flores. Os ritos dedicados aos Di Manes, os defuntos, no aniversário de sua morte eram parte da religio romana da época de Virgílio. Uma serpente enorme com sete anéis sai do túmulo, dá sete voltas nos altares, prova as oferendas e retorna ao lugar de origem. Eneias não sabe se a aparição é o gênio do lugar ou se é uma mensageira de Anquises. Imola em seguida cinco ovelhas, cinco porcos e cinco touros negros.

genius (daimon grego) era o poder de ação de uma pessoa, de um objeto ou de um lugar constituído no seu nascimento ou na sua criação, e era geralmente representado por uma serpente ou por um homem togado carregando uma cornucópia. A dúvida de Eneias era se se tratava da aparição do genius do lugar onde estava o sepulcro ou se de uma mensageira de seu pai. A ligação da serpente com os mortos vem dos gregos que acreditavam que os falecidos podiam se manifestar na forma de cobras.

O combate do herói (ou do deus) com a serpente (ou dragão) rebelde à imposição da forma e da ordem é um tema cosmológico tradicional. O ritus é sempre um ato ordenador (Ṛta, em sânscrito, é ordem), e Eneias é o herói que executa o rito devido. O morto é apaziguado, as forças rebeldes são domadas, e a serpente que sai do túmulo não ataca nenhum dos presentes, age ordenadamente e retorna ao seu lugar. É um símbolo do poder cosmogônico do sacrifício, compreensão que remonta aos Vedas.

Os sete anéis e as sete voltas em torno dos altares têm outros significados simbólicos. O sete era considerado um número sagrado entre os pitagóricos, "aquele que traz a conclusão", o que completa os ciclos e dá a forma final aos entes, aquele que reúne e fecha numa unidade indissolúvel os elementos que compõem as coisas. Será graças à consulta a Anquises que a peregrinatio marítima de Eneias encontrará seu termo com o desembarque na costa da Itália. A primeira parte da própria Eneida tem seu fim no episódio da catábase.**

Há sete anos a frota troiana vaga pelos mares. O sentido simbólico geral é de desfecho, de encerramento de um ciclo. Chegou o momento certo (καιρός) para a partida de Eneias da Sicília. Para tanto, ele terá de deixar para trás os elementos recalcitrantes e inadequados à nova realidade que está por vir. Enviada por Juno, a mensageira dos divos, Íris, instiga as matronas insatisfeitas a incendiarem os navios troianos. As velhas representam forças arcaicas pertencentes ao ciclo anterior que não têm lugar nos vasos que conduzirão ao novo ciclo. 

Uma vez mais, o herói deve decidir entre fixar morada no lugar onde se encontra ou seguir as promessas divinas. Quatro naus incendiadas estão perdidas. Jupiter, invocado pelas orações de Eneias, intervém lançando sobre a terra uma tempestade desmesurada (tempestas sine more) que apaga o fogo das naves restantes. O deus supremo, Iuppiter omnipotens, inunda o mundo com um dilúvio, mas assegura a passagem do herói numa embarcação.

"Nate dea, quo fata trahunt retrahuntque, sequamur; 
quidquid erit, superanda omnis fortuna ferendo est"

"Nascido da deusa, sigamos o Fado quer conduza para lá ou para cá; o que quer que aconteça, é preciso superar a Fortuna suportando tudo" diz Nautes, o ancião versado na arte dos augúrios, aconselhando Eneias a deixar as velhas e os inválidos na Sicília, onde seria fundada uma cidade nomeada Acesta em homenagem ao rei Acestes. Sob o manto negro da noite, a fim de dirimir todas as suas dúvidas, a sombra (umbra) de Anquises vem exortar o filho a seguir o conselho de Nautes. Eneias deve deixar os recalcitrantes para trás, partir para o Averno, descer ao Orco acompanhado da sibila de Cuma, e ali encontrá-lo para saber o que o aguarda na Itália.

Eneias realiza os ritos sagrados de fundação da cidade. Com uma charrua, risca seus limites. Virgílio antecipa em Eneias a tradição segundo a qual Rômulo, séculos depois do troiano, cavou com uma charrua os limites de Roma. O primeiro ato de Rômulo foi cavar o mundus, o poço circular que ligava o reino dos vivos ao dos mortos, e no qual eram depositados as primícias das colheitas. O mundus era fechado por uma pedra, só sendo aberto nos dias em que era franqueado o acesso dos Di Manes ao domínio dos viventes. 

O sulco circular feito pelo arado estabelecia o pomerium, o limite sagrado da cidade. Eneias ergue um templo dedicado à sua mãe Venus num monte alto (Axis Mundi) e destina ao túmulo de seu pai um bosque um sacerdote. A nova Troia será governada por Acestes que terá como seus súditos as velhas, os inválidos e a gente não desejosa de glória. Acestes representa o rei do ciclo que finda, reina sobre as realidades que foram esgotadas, e que, portanto, não serão passadas ao novo ciclo.

A frota troiana não parte da Sicília sem que antes Eneias, com a cabeça coroada por folhas de oliva (ritus graecus), realize os devidos sacrifícios aos numes marítimos, Erix e Netuno (Neptunus). O mar é símbolo do amorfo, do caldo das potencialidades, e possui, a depender do ângulo, tanto o sentido positivo das possibilidades auspiciosas, regeneradoras e benéficas quanto o sentido negativo do caos dissolvente e da desordem. O herói precisa novamente apaziguar as forças rebeldes da realidade. O rito sacrificial cumpre esse propósito ordenador.

Venus, a mãe de Eneias, suplica a Netuno que permita ao filho chegar em segurança ao seu destino. O senhor dos mares garante a realização do desejo da diva, mas adverte que um dos troianos perderá a vida em pagamento dessa dívida. Palinuro, o timoneiro e guia da frota, é visitado à noite por Somnus (Hypnus grego), deus do sono, que, assumindo a aparência de um amigo, tenta convencê-lo a deixar o leme e adormecer. Ele não cede, diz que a calmaria não o engana, e que vai permanecer no comando da nave para garantir a segurança de Eneias e de seus companheiros.

Somnus lança sobre Palinuro água do Lethes, o rio do esquecimento situado no Orco (Hades). Ato contínuo, o homem desfalece e cai nas águas, deixando a nau sem guia. Percebendo a ausência do amigo, o próprio Eneias assume o comando, e lamenta a sua trágica morte, condenado a ficar insepulto e sem nome. O afogamento de Palinuro foi o preço pago pela proteção dada por Netuno à frota. Os divos dão e tiram segundo seus desígnios, e os destinos humanos seguem um curso que é decidido nas instâncias superiores da realidade. 

Não obstante, Palinuro simboliza o homem que almeja guiar o navio ao próximo ciclo sem que seja o eleito pelas forças divinas. Ele desconfia da calmaria alcançada pela eficácia do rito, quer tomar para si a responsabilidade de assegurar o bom termo da viagem de Eneias. Não são os homens que garantem a passagem ao novo ciclo. O desafortunado Palinuro desce às águas dissolventes, nas quais fica insepulto e perde seu nome, isto é, sua identidade neste plano da realidade, de modo análogo às almas descidas ao Hades que perdem sua memória ao beberem da água do rio Lethes.

Célere, Eneias dirige sua frota à Cuma, no continente italiano, onde se encontra o Averno, a entrada do Orco. Ali o herói fará a sua catábase guiado nos Infernos pela sibila, sacerdotisa de Apolo, deus da profecia e das purificações.

(continua na próxima postagem)
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** Sob outro ângulo, os sete anéis talvez simbolizem os sete corpos celestes visíveis (Sol, Lua, Vênus, Júpiter, Marte, Mercúrio e Saturno), e as sete voltas em torno dos altares representem o Cosmos que tem seu centro no divinoAs revoluções celestes que marcam o tempo, a cronologia, cujo senhor é o sétimo planeta, Saturnus (Cronos, para os gregos). 
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Eneias, Dido, tragédia e o chamado do herói


"É o que vos peço; com o sangue vos lanço este apelo supremo. 
Tírios! Vosso ódio infinito em seu filho e nos seus descendentes
extravasai! É o que esperam de vós as minhas cinzas ardentes. 
Nenhuma aliança jamais aproxime os dois povos imigos".

DIDO, Eneida, Livro II, 5 (trad. Carlos Alberto Nunes)

No livro IV do épico Eneida, o poeta romano Virgílio narra como a paixão por Eneias domina a rainha cartaginesa Dido, deixando-a desatinada quando posteriormente o herói troiano parte para a Itália. O belíssimo e trágico episódio revela e justifica mitologicamente a inimizade ancestral que causará as futuras três guerras entre Roma e Cartago. 

Após o longo relato de Eneias acerca da queda de Troia e de sua fuga, apresentado nos Livros II e III, Virgílio descreve os crescentes efeitos funestos da paixão sobre a rainha. Ana, sua irmã, ouve as confidências da insone Dido que, ferida pela chaga do amor, não consegue afastar de sua mente as palavras, o valor e a linhagem do herói. Tão forte e corajoso guerreiro, que parece ser de origem divina, abalara sua fixa resolução de não mais casar com ninguém desde que fora assassinado seu legítimo esposo, Siqueu.

Dido afirma à irmã que prefere ser tragada para os abismos ou ser atingida por um raio de Jupiter do que violar o pudor e dar a outro aquilo que na sua mocidade fora dado a Siqueu nas sagradas núpcias. A declaração, encarada em retrospecto, prenuncia a tragédia de sua morte. Ana, por seu turno, tem o condão de enfraquecer o intento da soberana com suas palavras sobre a triste solidão da perpétua viuvez infértil e a indiferença dos Di Manes (os mortos) aos votos dos vivos.

Tantos dignos pretendentes foram rejeitados anteriormente pela rainha em sua obstinação! Ademais, Ana acrescenta, se Dido considerasse a fragilidade de seu reino, ameaçado pela animosidade dos povos guerreiros que o cercam, veria claramente a vantagem bélica da união com Eneias. O discurso da irmã, exemplo do mau conselho que encontra o terreno propício para gerar seus frutos, inflama o amor que arde no coração de Dido, introduz esperança na sua mente vacilante e dissolve o seu pudor.

Ana sugere que a soberana propicie os deuses com sacrifícios e que se esmere em atenção e hospitalidade para com Eneias, criando pretextos para tê-lo por perto tanto quanto for possível. Ela percorre os templos, realiza sacrifícios em honra de Apolo, de Baco, de Ceres e, em particular, de Juno, a diva esposa/irmã de Jupiter e protetora dos laços matrimoniais. Ansiosa, consulta os augúrios nas entranhas dos animais imolados.

O sacrificium (sacrifício) era o ritus (ritoṚta, no sânscrito, "ordem") central da religião romana antiga. Consistia na ação (facere) de tornar algo sagrado (sacer), caráter daquilo que pertencia aos deuses. Havia ritos sacrificiais cruentos e incruentos, públicos e privados. O tipo de animal a ser sacrificado variava de acordo com o deus a ser homenageado, seu lugar no panteão (animais brancos para os deuses superiores, negros para os Di Inferi) e seu sexo (em geral, machos para os deuses e fêmeas para as deusas). 

O ritus romanus (havia também um ritus graecus) iniciava com a praefatio, na qual o celebrante derramava incenso e vinho num braseiro aceso. Em seguida acontecia a immolatio, em que o dorso da vítima (probare) era salpicado com farinha salgada e sobre sua testa vinho era derramado. "A formosíssima Dido tomando na destra uma copa, verte-a de pronto entre os cornos de branca novilha sem manchas". O animal, cuja propriedade fora passada dos mortais aos deuses, era finalmente abatido com um golpe ou tinha sua garganta cortada por uma faca. 

O destino do sacer é ser morto em oferecimento aos divos. A vítima deveria dar seu consentimento ao sacrifício abaixando a fronte, o que era obtido no ritus romanus pelo uso de um arreio preso ao animal e no ritus graecus pela aspersão de água sobre a sua cabeça. Qualquer sinal de medo ou de pânico da vítima era considerado um mau presságio. O animal morto tinha seus órgãos internos (coração, fígado, pulmões, peritônio e vesícula) examinados pelo haruspex, o vate que lia os augúrios nas entranhas (exta) das vítimas, a fim de saber se eram normais, o que indicava que o sacrifício havia sido aceito pelos deuses. Caso não fossem normais, o sacrifício deveria ser repetido com outras vítimas até que a aceitação divina fosse obtida.

"As reses abertas e as palpitantes entranhas, ansiosa, de espaço examina". Dido busca augúrios nas entranhas dos animais sacrificados. Virgílio, porém, assevera que pouco valem o saber dos vates, os templos e os votos para a mente turbada pela paixão. Inflamada, vaga sem rumo pela cidade, tal uma cerva ferida por uma flecha que corre pelas florestas carregando por toda parte a seta encravada no corpo. Apresenta a cidade a Eneias, diante do amado interrompe subitamente o discurso, geme por sua ausência e não consegue tirar sua imagem da mente.

Juno propõe a Vênus, mãe de Eneias, uma aliança na qual Dido e o herói reinariam sobre Cartago e sobre os troianos exilados. Para tanto, a deusa criaria uma tempestade durante uma caçada, obrigando Dido e Eneias a buscarem abrigo numa caverna onde se uniriam pelos laços sagrados do himeneu. Vênus percebe a astúcia de Juno, cujo objetivo era impedir a todo custo que Eneias aportasse na Itália, mas aceita a proposta. O estratagema se realiza como planejado pelas divas, e Dido entrega-se a Eneias numa caverna. Esse é o dia fatídico e princípio de todas as desventuras da rainha.

Fama, a deusa do renome e do rumor, espalha a notícia da união por toda Cartago e para além de seus territórios. O rei Jarbas, um dos pretendentes rejeitados pela soberana, aos ouvidos de quem chegaram os informes de Fama, suplica a intervenção de Jupiter. O pai dos divos envia Mercúrio (o Hermes grego) a Eneias para lembrá-lo de seu destino como fundador de Roma. 

Mercúrio se dirige a Eneias censurando o seu pendor mulherengo que o faz esquecer das promessas que lhe foram feitas. Se a sua própria glória e a de seus ancestrais não o anima a abandonar Cartago, que pense então na de seu descendente, Ascânio, destinado a ser rei na Itália. O próprio pai dos deuses, Jupiter, o insta a deixar a África imediatamente. Entregue a mensagem, Mercúrio desfaz-se da forma humana assumida e desaparece no ar. 

Estarrecido, com os pelos do corpo arrepiados e incapaz de pronunciar qualquer palavra, Eneias é presa daquilo que o filósofo e teólogo alemão Rudolf Otto denominou como "sentimento do numinoso" em sua obra magna Das Heilige (O Sagrado). O numen, na religião romana tradicional, significava o aceno, a força ou a vontade dos deuses. Otto utiliza o termo de um modo mais abrangente, entendendo-o como o sentimento característico do sagrado, o Mysterium Tremendum, a um só tempo fascinante e aterrorizante, qualitativamente irredutível a qualquer outro sentimento, e que permanece no fundo das religiões mesmo quando elas são racionalizadas por meio das doutrinas, dos conceitos e da moral.

"At vero Aeneas aspectu obmutuit amens,
arrectaeque horrore comae et vox faucibus haesit.
ardet abire fuga dulcisque relinquere terras,
attonitus tanto monitu imperioque deorum."

O numen paralisa Eneias, deixa-o arrepiado e mudo. É o aspecto do horror divino, do insólito, do estranho, daquilo que Otto chama de Ganz Andere, o "totalmente outro". A visão de Mercúrio desfazendo-se no ar gera espanto, estranheza, estupor. Por outro lado, o numen é também fascinans, fascinante, atraente e comanda obediência. Admirado, atônito (attonitus), Eneias é tomado pelo ímpeto de fugir daquelas doces paragens graças ao aviso (monitus) e ao comando (imperium) dos deuses.

Virgílio realiza um paralelo com Odisseu (Ulisses) retido na ilha da ninfa Calipso, episódio da Odisseia de Homero. Simbolicamente, a tentação do herói é deleitar-se realizando os seus próprios desejos, esquecendo dos seus deveres e dos seus objetivos primários. A peregrinatio, a viagem do herói, repleta de perigos e de trabalhos, é símbolo do retorno à casa, da volta ao centro do mundo. O retorno de Odisseu à Ítaca representa a restauração do lugar próprio das coisas na ordem da realidade. O rei retoma o que é seu por direito e elimina a desordem e a dissipação das forças dissolventes simbolizadas pelos pretendentes de Penélope.

Eneias é destinado a realizar o tradicional ato sagrado de fundação de uma cidade. Roma é o centro do mundo para o qual ele deve se dirigir. As possibilidades de outros caminhos, simbolizadas pela mulher (Calipso e Dido), podem reter o herói, isolá-lo (na ilha ou em Cartago), e impedi-lo de realizar seu lugar no esquema das coisas. Ele deve escolher entre as alternativas oferecidas por Tétis a Aquiles: a vida segura e tranquila seguida do esquecimento ou a vida cheia de trabalhos e de perigos que é coroada pela glória e reconhecida pela eternidade.

A intervenção divina, simbolizada por Mercúrio, o mesmo Hermes que comunica a Calipso a decisão régia de Zeus (Jupiter) para que deixasse Odisseu partir de sua ilha, recorda o herói de seu papel na ordem mais ampla da realidade. A piedade (pietas) de Eneias o obriga a obedecer aos numes e a garantir a grandeza de seus descendentes (Ascânio e os romanos). A partida de Eneias é determinada não pelo desejo pessoal, mas pela obediência aos decretos divinos e ao Fado que a todos submete.

A Fama alada revela à Dido os preparativos de partida das naus troianas. Como se tomada pela mania (Μανία) que acomete as bacantes nos cultos dionisíacos, a rainha percorre desatinada as cidade até alcançar Eneias, e ao encontrá-lo, submete-o às mais ríspidas reprimendas. Ao que o herói só pode responder que parte por ordem divina recebida, não por vontade ou por ingratidão pelos inúmeros préstimos recebidos. No entanto, nunca esquecerá a soberana onde estiver.

Dido não crê na justificativa de Eneias, o amaldiçoa desejando-lhe a morte, e diz que o perseguirá tal qual uma sombra, ouvindo seus clamores finais até no mundo inferior dos Di Manes (os mortos). O troiano aplacaria a dor da mulher amada e atenderia às suas súplicas para que permanecesse em Cartago não fosse a ordem expressa dos divos. Ao perceber que o pio Eneias tem a mente inflexível, Dido sente que o Fado estava contra ela e deseja a morrer.

Pior, os augúrios são funestos. No momento em que vertia incenso no fogo durante um sacrifício, Dido vê o leite enegrecer-se e o vinho tornar-se sangue. Virgílio exclama que é horrendo descrever a cena (horrendum dictu). Os sinais são de inversão do sagrado. A degradação dos elementos sacros é obsceno (obscenum), corresponde à polução (pollutio), contaminação ritual que interdita a participação nos ritos. Dido ouve a voz lamentosa de seu finado esposo no templo a ele dedicado, uma coruja geme nas torres altas, enquanto a rainha vaga sozinha na noite assolada pela lembrança de Eneias.

A paixão pelo herói, o arrependimento de haver quebrado os votos com o marido defunto (cuja voz parece cobrá-la do fundo do Orco), a decepção com os deuses e o ódio pela humilhação da rejeição misturam-se na alma da cartaginesa. Virgílio a compara com Orestes, o matricida atormentado e perseguido pelas Érínias (Fúrias, para os romanos), terríveis deusas ancestrais que vingavam os crimes de sangue enlouquecendo o culpado. Tudo conduz Dido ao funus (funéreo). 

No palácio, aparentando calma, Dido chama a irmã Ana e lhe confidencia que conhece uma sacerdotisa das Hespérides que havia lhe ensinado um hino (carmen) para curar o amor. As Hespérides, filhas de Nix (a noite), eram uma tríade de ninfas responsáveis por guardar um jardim de de maças de ouro localizado no monte Atlas, às margens do Okeanos (Oceano), o rio que circunda o mundo. Representam o Poente, o ocaso do Sol, e, nesse sentido, podem simbolizar aquilo que encontra o seu fim (nos dois sentidos do termo). 

O jardim onde vivem as Hespérides é protegido por um dragão, tema simbólico tradicional do protetor do tesouro. Cumpre recordar que o significado de Paraíso no persa é jardim, e que é comum que a localização do Paraíso esteja nos limites do mundo. Adão e Eva são expulsos do Éden e entram no mundo do trabalho, da dor e do sofrimento. Seu retorno é impedido pelo guardião, o querubim com a espada flamejante. 

Considerado no seu aspecto positivo, o fim simboliza o coroamento, a realização, a completude de algo que estava in fieri, em processo, e, portanto, ainda incompleto. tesouro é a recompensa que espera o herói ao fim da peregrinatio. No seu aspecto negativo, o fim é decaimento, privação, destruição, morte. Exterior ao mundus (ordem, ornamento) está a dissolução das formas. A ambiguidade ronda o alegado feitiço da sacerdotisa das Hespérides. O rito será de cura, de restauração da saúde da rainha, ou será de destruição, resultando em sua morte?

Dido prepara o rito da evocatio, rito no qual alguém ou algo era oferecido ao Dis Pater (Plutão), o senhor do Orco (Hades), o mundo subterrâneo dos Di Manes, as sombras daqueles que morreram. No pátio do palácio, ao ar livre, a pira é erguida com achas de pinho e azinheira, enfeitada com guirlandas e ramos fúnebres, e no seu cume são postados para serem queimados o leito, as roupas, a espada e a efígie de Eneias. 

A velha sacerdotisa, desgrenhada, evoca com seu hino três vezes as cem divindades do Érebo (escuridão ou Hades). Coletivamente denominados Di Inferi, são os deuses que habitam o mundo subterrâneo, como PlutãoProsérpinaScotusMorsHécateMortaNenia Dea, e também os Di Manes, entre os quais se encontram os Lemures ou Larvae, os mortos malignos ou sem descanso. A Hécate Trivia (deusa grega da feitiçaria) e Diana, ambas de três faces, e o Caos primordial são igualmente evocados. 

O caráter privado da cerimônia, em contraste com os ritos públicos sancionados na religião romana, realça a impressão funesta de feitiçaria. Dido lamenta longamente o seu infortúnio durante toda a noite, e pela manhã avista a esquadra de Eneias partindo. Evoca Juno, a Hécate e as Fúrias para que a desgraça e a morte alcancem o troiano. Amaldiçoa a raça romana que seria fundada por Eneias com a eterna inimizade dos cartagineses. Seus descendentes, no momento oportuno, vingariam a rainha ofendida.

"Hoje, amanhã, no momento mais certo em que o acaso os ajunte,
e força houver, briguem praias com praias e as ondas entre elas,
armas de guerra por tudo, até os últimos netos com forças!"

Dido, sobre a pira, lança-se sobre a espada de Eneias. O horror se espalha entre as mulheres. Ana tenta socorrer a irmã que se esvai em sangue. Sente-se ludibriada, pois era Dido a verdadeira vítima daquele sacrifício cruento. Três vezes a rainha tenta erguer-se sobre os cotovelos e cai estendida sobre o leito. Juno, compadecida, envia Íris para pôr termo àquele sofrimento. A mensageira divina inclina-se sobre a cabeça de Dido, corta seu cabelo (símbolo da oferenda), liberta-a do corpo para conduzi-la a Plutão."In ventos vita recessit". A vida dilui-se no ar. 

O episódio envolvendo Dido e Eneias é uma tragédia dentro do épico que permite a Virgílio justificar retrospectivamente a inimizade entre Roma e Cartago que resultará na completa destruição da última ao fim das guerras púnicas. A pietas do herói o isenta de culpa. A teologia do poeta romano reafirma aqui a noção de que os acontecimentos neste mundo seguem o numen dos deuses. 
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Para ouvir: trecho da ária Dido's Lament, da ópera Dido and Aeneas, composta por Henry Purcell (1659/1695), interpretada pela magnífica soprano americana Jessye Norman: 

domingo, 20 de outubro de 2024

Eneias, piedade e religião romana na "Eneida" (Livro II)


“Tudo o que agora acontece se passa de acordo com os planos das divindades."

CREÚSA, Eneida, Livro II, 775 (Tradução de Carlos Alberto Nunes)

No decurso do segundo livro da Eneida, épico composto pelo poeta romano Públio Virgílio Maro (70/19 A.C.), são apresentados vários aspectos importantes da religião romana tradicional. O poema narra as agruras e as peripécias de Eneias, o herói fundador de Roma, desde a queda de Troia ante as hostes dos aqueus até a sua chegada na Itália após longa e custosa viagem marítima. 

Na Ilíada, Homero relata a cólera de Aquiles em meio à campanha dos gregos contra os troianos, e vai até os funerais de Pátroclo, enquanto Virgílio, no primeiro canto da Eneida, anuncia que irá cantar "as armas e o varão" que, já em alto mar após a destruição da sagrada Ílion, tantas dores sofreu na viagem que o conduziu ao Lácio, onde daria nascimento à raça latina. 

Enéias é notável pela pietas (piedade)*, a virtude (virtus) romana da reverência e do respeito para com as leis, os ancestrais e, principalmente, os deuses da cidade. A religião tradicional de Roma, a religio, constituía-se numa série de deveres recíprocos que uniam os homens e os incontáveis deuses em uma comunidade. Tratava-se sobretudo de "etiqueta" ou de "ortopraxis" cívica que não implicava obrigatoriamente qualquer vínculo sentimental entre o ser humano e as divindades.

O historiador John Scheid, no seu "Introduction to Roman Religion" elenca as características principais da religião romana: ausência de revelação (no sentido abraâmico), dogmas ou ortodoxia doutrinal;  tradicionalismo centrado na observação minuciosa dos ritos e dos deveres determinados de acordo com o nascimento e a posição social do indivíduo (família, cidadania, cargo, etc.); forte senso de bem-estar comunitário que, se não excluía a experiência individual, privilegiava o pertencimento à comunidade e, em particular, aos grupos dentro da comunidade; ausência de um ensinamento moral especificamente religioso ou espiritual e de autoridades supremas (como o papado).

Enéias não é culpado de impietas, a negação intencional ou por negligência das honras devidas aos deuses, então o poeta invoca a Musa a fim de recordá-lo da razão de tão grandes tormentos sofridos pelo herói: a ira de Juno (Iūnō, a Hera grega), esposa-irmã de Júpiter (Iūpiter, o Zeus grego), ofendida pela escolha de Páris Alexandre (que preferiu Vênus no célebre certame de beleza entre as divas), pelo rapto do belo jovem troiano Ganimedes (tomado por Júpiter como amante), e, principalmente, pela futura destruição de Cartago, sua cidade predileta.

Caso Eneias chegasse vivo à Itália, ali fundaria a raça romana, "belicosa e arrogante", que no devido tempo destruiria Cartago, segundo o que foi tecido pelas Parcas fiandeiras. Virgílio alude aqui às três guerras púnicas (265-146 A.C.), um dos maiores e mais sangrentos conflitos da Antiguidade, que resultou na queda e na completa devastação da cidade líbia pelas legiões da então república romana. A Eneida, portanto, tem o seu motor nos esforços de Juno para impedir a realização do decreto das Parcas**, as três deusas ancestrais (Nona, Decima, Morta) responsáveis por fiar, medir e cortar as tramas das vidas dos mortais e dos deuses. 
 
O destino de Eneias espelha o desafio de uma deusa, Juno, aos decretos das Parcas, forças mais arcaicas no interior do mundo divino. A predileção ou a aversão por determinados mortais, povos e cidades, causa de inúmeras rivalidades entre os deuses, era tema tradicional da mitologia grega, como testemunha a poesia épica na Ilíada e na Odisséia. O conflito entre a geração dos Olímpicos e os Titãs foi tema da poesia teológica de Hesíodo, a Teogonia, e das tragédias de Ésquilo Prometeu Acorrentado e a trilogia Orestíada.

"Aceitar o fracasso no início da empresa, sem conseguir afastar dessa Itália o caudilho troiano?". Com tais pensamentos, Juno, a soberana dos divos, convoca Éolo, deus dos ventos, e este lança tormenta sobre a frota de Enéias que, por fim, desembarca na Líbia, onde, guiado e protegido por sua mãe Vênus (Venus, a Afrodite grega), é recebido por Dido, a rainha de Cartago. No belo livro II, o herói troiano narra à soberana o famoso episódio do cavalo de Tróia, o horror do saque e da destruição da cidade e a sua posterior fuga da terra natal. 

"Timeo danaos et dona ferentes". A despeito das advertências do vidente Laocoonte, que teme os dânaos (gregos) mesmo quando dão presentes, os troianos trazem para dentro dos muros de sua cidade o imenso cavalo de madeira que, sem o saberem, porta dentro de si escondidos os seus inimigos. À noite, os aqueus saem do equino, incendeiam a cidade e iniciam horrendo massacre. Eneias reúne um grupo de bravos guerreiros troianos e se lança à pugna sangrenta.

Consternado, o herói testemunha a desdita de Cassandra, filha dileta de Príamo, rei de Troia, amarrada e arrastada por Ajax para fora do templo onde se abrigava. A mesma que, amaldiçoada por Apolo com o dom da profecia sem que jamais a ninguém pudesse convencer, pouco antes advertira os troianos do que aconteceria se o cavalo entrasse na sagrada cidade. 

No furor da destruição, destaca-se Pirro, ou Neoptólemo, o ímpio filho de Aquiles, responsável pelo triste fim do nobre rei Príamo. Pela boca de Eneias, Virgílio narra a coragem patética do vetusto soberano que, vendo seu reino e seu lar conspurcados, veste sua antiquada armadura e empunha sua espada sem gume a fim de enfrentar os indomáveis aqueus. A rainha e esposa, Hécuba, vendo o marido partir para a morte certa, o traz para junto de si, onde também estavam as suas filhas, abrigadas todas em torno de um altar ladeado por antigo loureiro.

O referido altar era dedicado aos Lares, divindades domésticas protetoras das casas e dos palácios, e, portanto, tratava-se de um recinto sagrado. Na religio romana, o sacer (sagrado) correspondia àquilo que juridicamente pertence aos deuses. O profanus (profano), por contraste, correspondia ao que não era propriedade dos divos. Segundo John Scheid, o sagrado não era alguma espécie de "força mágica" que residiria nos objetos, mas sim uma simples qualidade jurídica:

"Como toda propriedade pública ou privada, a propriedade dos deuses era inviolável, mais ainda porque seus proprietários eram terrivelmente superiores aos homens e a sua vingança era inexorável. O verdadeiro sentido de sacrilégio era a violação da propriedade divina." (Scheid, p.24)

O termo sanctus (santo) era aplicado a qualquer coisas cuja violação constituísse um sacrilegium (sacrilégio). Leis, tratados, tribunos, tumbas, embaixadores, pessoas comuns e até os deuses poderiam ser considerados santos. Descumprir um tratado que foi oficializado por um sacrificium (sacrifício) ou matar um embaixador eram exemplos de violação do santo. O sacrilégio, especificamente o ato de roubar ou de causar prejuízo ao sagrado, era parte da impietas (impiedade).

A impiedade consistia em negar aos deuses as honras devidas, intencionalmente (prudens dolo malo) ou não (imprudens). Neste último, quando a ofensa se dá por negligência, por erro ou por qualquer outra modalidade em que não esteja presente a malícia deliberada, o mal pode ser expiado via sacrifício ou via reparação material dos danos. O caso oposto, quando a ofensa é deliberada, o mal é inexpiável. A comunidade se desvencilha para sempre do ofensor entregando-o à justiça dos deuses (sacratio) e fazendo sacrifícios apaziguadores.

Desde a religião grega, havia veneranda tradição de acordo com a qual ninguém que estivesse sob a proteção ou nas dependências (τέμενος) de um templo, de um santuário ou de um altar poderia ser retirado, atacado ou morto, sob pena de sacrilégio. Tomado de fúria, Neoptólemo persegue e mata Polites na frente de seu pai Príamo. O rei protesta contra esse ato desnecessário de pura crueldade, e invoca a lembrança de Aquiles que fora honrado ao concordar com o pedido de Príamo de que devolvesse o corpo de seu filho Heitor (canto XXIV da Ilíada).

Neoptólemo, insensível, responde ao velho que vá ele próprio ao Hades contar a Aquiles as proezas de seu filho degenerado. Assim dizendo, arrasta o idoso trêmulo cujos pés resvalam no sangue de Polites, e agarrando-o pelos cabelos, enterra sua espada até o fim da lâmina no peito frágil do rei. O sacrílego Neoptólemo traz sobre si mesmo, ipso facto, a sacratio (sagração), ritual romano que punia certos crimes entregando o ofensor aos Dii Inferisoberanos do Orcus (Hades): Dis Pater (Plutão) e Proserpina (Perséfone). Nessa autoconsagração, o criminoso tornava-se sacer (sagrado), propriedade dos divos do subterrâneo, num sentido negativo de horror. 

                                      (Neoptólemo mata Polites na frente do rei Príamo)

O pio Eneias recorda-se então de seu velho pai Anquises, de sua esposa Creúsa e de seu filho Ascânio, e temendo que tivessem idêntico destino que Príamo, imediatamente corre para a sua casa com a finalidade de proteger seus entes queridos. No caminho, encontra Helena, abrigada num altar, sozinha, rejeitada por todos. Seria certo permitir que retornasse a Micenas, para o leito de Menelau, onde viveria cercada de servas enquanto tantos troianos perdiam a vida ou eram escravizados? Refletindo que lá estava a causa primeira das desgraças que se abateram sobre Tróia, a fúria o possui, e o herói avança na direção da grega com intenções homicidas. 

Vênus, tão brilhante que faz da noite dia, aparece ao filho Eneias, toma-lhe a destra, e reprova a cólera que o domina. Não é Helena ou Páris a causa de tanto infortúnio, diz a mãe, e sim a inclemência dos deuses (divum inclementia). Retirando a cortina que cobre os olhos do herói, a diva revela a realidade que os mortais não conseguem enxergar. Ele vê Netuno (Poseidon) abalando as fundações da cidade, Juno instigando os aqueus nos portões ocidentais, Minerva (Atena) do alto da torre ameaçando os teucros com a Górgona terrível, e mesmo Jove (Júpiter) anima os dânaos e convoca os outros deuses para a batalha. 

A teofania demove Eneias de seu intento. Vênus desaparece na noite, não sem antes ordenar que deixe de lado a luta e vá proteger os entes queridos. Ao contrário do celerado Neoptólemo, a pietas do troiano o impede de cometer o sacrilégio de matar Helena, alguém sob a proteção do altar sagrado. Ademais, a sua cólera é apaziguada pelas palavras da deusa e mãe. Note-se, en passant, que foi a funesta cólera (μῆνις) de Aquiles, pai de Neoptólemo, a causa "de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos e esclarecidos", segundo afirma Homero no primeiro verso da Ilíada. (trad. Carlos Alberto Nunes)
 
Tendo alcançado sua casa, Eneias encontra seu pai, sua esposa e seu filho pequeno vivos e bem. Todavia, o velho Anquises recusa-se a fugir e a deixar para trás a sua terra amada. Um augúrio acontece: uma chama sobe a testa do pequeno Ascânio sem o queimar. Impressionado, Anquises roga aos divos que confirmem o sinal. Imediatamente um trovão ilumina o céu no seu lado esquerdo, seguido por uma estrela que se dirige ao sacro monte Ida. O prodígio o convence da ordem divina de abandonar a cidade.
 
Na religio romana, o augúrio era um sinal dos deuses, requerido ou inesperado, cujo sentido benéfico ou funesto deveria ser interpretado pelo áugure. A observação e a interpretação desses sinais era uma das práticas oraculares mais importantes para os romanos. A inauguratio (inauguração), por exemplo, era a caerimoniae (cerimônia) pela qual os áugures interpretavam os augúrios e determinavam se um terreno estava livre para ser utilizado sem violar qualquer propriedade divina. Outra prática oracular era o auspicium (auspício), a interpretação do voo dos pássaros no céu realizada pelos áuspices.***

Eneias atravessa a cidade em chamas na direção do monte Ida carregando o pai Anquises sobre os seus ombros, o filho Anquises conduzido pela mão, a esposa Creúsa seguindo-o logo atrás. O pio herói solicita que o progenitor traga consigo os Penates (divindades domésticas como os Lares), pois ele estava coberto do sangue da batalha e só poderia tocá-los após limpar-se nas águas do rio. Eneias, tendo matado a tantos, encontrava-se maculado pela polluo (polução), o que o impedia de tocar nas imagens dos Penates enquanto não estivesse casto (puro).

Analogamente, na religião grega, o miasma (μίασμα) era uma polução que maculava a pessoa quando esta tinha contato físico com cadáveres, com sangue (inclusive menstrual), ou quando era culpada de matar alguém. Embora não tivesse explicitamente uma conotação moral, o miasma interditava a participação nos ritos sagrados da polis (sacrifícios, festas, etc.). A hagnea (ἁγνεία), a pureza cultual, era readquirida somente pela realização dos katharmoi (kαθαρμοι), rituais de purificação que incluíam banhos em rios sagrados. Para os gregos, Apolo era, par excellence, o deus das purificações.

No meio do caminho, Eneias percebe que perdera Creúsa de vista. Deixa Anquises e Ascânio no templo de Cibele no monte Ida e retorna transtornado para buscar a esposa. O cenário doloroso do saque de Troia pelos aqueus o deprime. Brada muitas vezes pela consorte, e desespera-se pela ausência de resposta. Eis que um infeliz simulacro, a sombra de Creúsa aparece-lhe, de muito maior imagem (imago). 

A esposa estava morta? A expressão "infeliz simulacro" (infelix simulacrum) parece indicar que já não se trata da Creúsa que acompanhava o marido na fuga. E o termo "sombra" (umbra), traduziria a percepção grega tradicional de que são as ψυχές, as sombras dos vivos, que descem ao Hades? Sua maior estatura, no entanto, sugere divinização ("apoteose", ἀποθέωσις). Por exemplo, no mito narrado no Hino a Demeter, atribuído a Homero, a deusa, vagando pela terra até então incógnita, revela a sua divindade à rainha Metaneira mudando a sua forma e aumentando a sua estatura. 

Seja como for, Eneias ouve a repreensão de Creúsa emudecido e assustado. Por que ele se entrega a tantas dores? "Non haec sine numine divum eveniunt". Essas coisas não acontecem sem o numen (a vontade ou o poder) dos deuses. Eneias, ela profetiza, ainda sofreria um longo exílio e teria muitos trabalhos antes de desembarcar na Hespéria (Ἑσπερια, como os gregos chamavam a Itália), onde corre o rio Tibre. Lá, um reino e uma rainha de alta estirpe o aguardam.

Quanto ao destino de Creúsa, Eneias não deve se preocupar. Sendo nora de Vênus, ela foi poupada por Cibele, a Grande Mãe (Magna Mater), da terrível humilhação de ser escrava das mulheres dos aqueus. O herói tenta por três vezes abraçar a esposa amada, mas a aparição escapa entre os seus dedos e desaparece. A intangibilidade dos mortos é um tema recorrente na literatura antiga. Vide a aparição do eidolon (εἴδωλον, imagem) de Pátroclo que Aquiles tenta abraçar no canto XXIII da Ilíada.

Obediente aos deuses e aos Di Manes (os entes queridos falecidos), o piedoso Eneias parte de Troia numa jornada que culminará no ato sagrado da fundação de Roma. 
...
* A εὐσέβεια, "eusebia" grega.
** As Parcae correspondem às três Moiras (Μοῖραι) entre os gregos: Lotho, Láchesis e Átropos.
*** Os termos "agouro" e "auspicioso" têm origem nessas práticas.