sábado, 22 de março de 2025

A descida do herói ao mundo subterrâneo na Eneida - parte 3

 

"Deuses que sob vosso imperium estão as almas, sombras mudas,
o Caos e o Flegetonte, amplas regiões de noturno silêncio,
permitais dizer o que ouvi, e revele vosso numen
as coisas ocultas da terra imersa no breu."

VIRGÍLIO, Eneida, Livro VI (tradução minha)

Os ritos funerários prescritos foram cumpridos, e, de posse do ramo dourado, Eneias será guiado pela sibila no lúgubre reino das sombras. O guiamento pela mulher é outro tema recorrente na simbologia heroica. Teseu é guiado no labirinto do minotauro pelo fio de Ariadne, Jasão é conduzido por Medéia à árvore do velocino de ouro guardado pelo dragão. A mulher é símbolo das possibilidades, daquilo que está sendo gerado no útero da realidade. Do casamento sagrado, o hierogamos, entre o Céu e a Terra, Uranos (Οὐρανός) e Gaia (Γαῖα)nascem os poderosos Titãs, e da caixa de Pandora escapam os males que afligem os homens. 

A catábase, como todo símbolo, possui sentidos positivos e negativos. O descenso ao Orco, ao Érebo (escuridão,Ἔρεβος), significa a perda da identidade no breu da indistinção primordial que transforma os desafortunados em tristes sombras desmemoriadas. Se o herói, trazendo consigo o facho solar, consegue atravessar as paragens infernais, a dissolução dará lugar à regeneração operada pelas potências acumuladas no fundo da realidade. A sua ascensão (anábase) de volta ao mundo dos viventes será a do iniciado que recebeu novo status ontológico e acesso a conhecimentos antes ignorados.

O postulante à iniciação nos mistérios gregos de Eleusis era acompanhado ao telesterion (o lugar da iniciação) por seu mistagogos (μυσταγωγός), que, sendo ele mesmo um iniciado (μύστης), já havia passado pela epopteia (ἐποπτεία), a contemplação final do mistério (μυστήριον). A sibila, sacerdotisa de Apolo e da Hecate, reúne o solar e o noturno, transita entre a forma e o amorfo, entre a luz e as trevas, e serve de mistagogos a Eneias no seu desafio iniciático. 

A catábase inicia-se com um sacrifício no Averno. Numa grande caverna, protegida por um pântano e por uma densa floresta, cujos vapores impediam a sobrevivência dos pássaros, a sibila derrama sobre a testa de quatro novilhos negros o vinho sagrado, corta um chumaço do pelo dos animais, e, invocando a Hecate, imola-os e lança as oferendas às chamas. Eneias sacrifica uma ovelha negra às Eumênides e à Terra, uma vaca estéril à Proserpina e bois, em altares noturnos, ao rei estígio.

Os símbolos remetem à morte. A caverna tem um sentido tradicionalmente cósmico, porém, representa aqui um mundo sem vida, cercado pela inospitalidade do pântano e pelo caos selvagem e desordenado da floresta fechada que a tudo encobre com sua sombra. Os vapores que do Averno se desprendem matam as aves, símbolos das realidades superiores. Nenhuma ascensão aos estados celestiais é possível. Seu sentido é descensional, impera ali a gravitas de Saturno/Kronos, cujo reino titânico, monstruoso e terrível antecede à ordem estabelecida por Zeus/Jupiter.

Adequadas aos Di Inferi, os deuses "de baixo", as vítimas sacrificiais têm o pelo negro, representando a natureza indistinta, amorfa, sombria e oposta à luz solar de Apolo que dá a vida e torna manifestas as coisas. A Hecate, diva da magia e dos encantamentos, é invocada pela sibila, tal como fez Medéia a fim de conduzir o argonauta Jasão ao velocino de ouro. Associada aos céus por seu aspecto lunar e ao submundo por seu aspecto ctônico, a Hecate é deusa dos limites, das encruzilhadas (Trivia)da mediação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, e dos amuletos apotropaicos.

As Eumênides (Erínias ou Fúrias), terríveis divindades titânicas ancestrais, vingadoras dos crimes de sangue contra a parentela, e que atormentaram o matricida Orestes, são também apaziguadas pelo sacrifício de Eneias. São filhas de Nix (Noite), outro símbolo do indistinto e do amorfo. A Terra (Gaia), irmã da Noite e filha do Caos, confirma o caráter descensional do Averno, dado que os corpos descem na direção do solo e encontram ali seu repouso. É na Terra que as sementes são enterradas, "morrem" e depois "renascem" como vegetais. O ciclo de morte e renascimento é eminentemente iniciático.

Uma vaca estéril é sacrificada à Proserpina (Perséfone), a rainha do Orco, e consorte de Plutão (Hades ou Plutus), o rei estígio, o Dis Pater, soberano do mundo dos mortos, a quem Eneias imola touros em altares noturnos. A infertilidade da vaca reflete os aspectos negativos do reino subterrâneo: dissolução, morte e o esquecimento. Contudo, em seu aspecto positivo, simbolizado pelos touros, animais fecundadores, o domínio de Plutão é também o lugar do tesouro, da riqueza (πλούτος, plutos). Afinal, é sob a terra que se escondem os metais preciosos e as sementes que um dia serão alimentos.

Os Di Inferi receberam as suas homenagens, o proemio foi realizado, e então a sibila expulsa do recinto os profanos, os companheiros de Eneias que não serão iniciados. A aurora se aproxima, os cães ladram, Eneias saca sua espada e segue a vate que avança pela caverna. Passam pelas moradas vazias do Dite, e logo no início do Orco, encontram o Remorso (Luctus), o Medo (Metus), as Enfermidades (Morbi), a Velhice (Senectus), a Fome (Fame), a Pobreza (Egestas), os irmãos Morte (Letum) e Torpor (Sopor), o Trabalho (Labor), os Gozos proibidos da mente (mala mentis Gaudia) e a Guerra (Bellum). 

Mais à frente, estão as Fúrias e a Discórdia, e o olmeiro dos Sonhos vãos pendurados nos seus inúmeros galhos. A primeira leva de habitantes do Orco são os males pelos quais comumente os homens descem ao lúgubre reino subterrâneo.  O mal é a privação ou a diminuição de um bem. O Infernum é o reino da dissolução, da falta, da privação, da incompletude, do Não-Ser.

O Remorso é a consciência dolorosa de uma falta cometida, o Medo é fruto da ausência da coragem e diminui ou oblitera o poder de ação, a Enfermidade é a privação da saúde, a Velhice é a decadência corporal, a Fome é a insuficiência na alimentação, a Pobreza é a falta de meios, a Morte e o Torpor são ambos perdas (da vida e da consciência, respectivamente), o Trabalho é uma necessidade, Gozo proibido é imoderação, e a Guerra é a destruição mútua que resulta da desarmonia entre os homens.

As Fúrias vingam os crimes de sangue contra a parentela, violações das leis mais sagradas. A Discórdia (Discordia) é a desarmonia irreconciliável das mentes que deveriam estar unidas (Concordia). Os Sonhos vãos, pendurados nas folhas do grande e envelhecido olmeiro, simbolizam as potencialidades que não foram efetivadas no mundo, e que, por isso, permanecem para sempre "penduradas" na árvore central, o Axis Mundi, que liga e sustenta as várias dimensões da realidade. 

Após os símbolos da privação, Eneias e a sibila se deparam com os monstros Cila, Briareus, Quimera, Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias e Gerião. O monstro simboliza a resistência da matéria à forma, a rebeldia do caos frente à ordenação, a vitória do excesso sobre a medida, a ordenação incompleta do caos. A desmedida do monstro o impede de ser enquadrado em qualquer espécie ou tipo dentro do Cosmo. Seu corpo abriga partes de outros entes unidas num todo antinatural. 

Negativamente, os monstros no Orco representam a confusão e a desordem do reino subterrâneo da dissolução e do informal. Porém, sob um ângulo positivo, representam a concentração de forças opostas no fundo indistinto da realidade, a riqueza inesgotável e o transbordamento irrefreável do poder criador divino que não respeita medidas. Não à toa, o termo teras (τέρᾰς), equivalente grego do termo latino monstrum, significa também sinal divino, maravilha, portento, presságio. 

Assustado, Eneias golpeia com sua espada as sombras (umbras) que o cercam sem atingir nada. O Orco é o domínio do insubstancial, morada dos Di Manes (falecidos), aqueles que desceram ao nível informal da realidade. Impera ali a imagem (imago), a figura (forma), o tênue (tenuis). Numa outra chave simbólica, sendo um vivente que caminha no mundo dos defuntos, Eneias realiza a reintegração paradoxal dos contrários (vida/morte).

Chegaram a sibila e o troiano ao lodoso rio Aqueronte, no qual navega a negra barca de Caronte que transporta à outra margem as almas dos mortos. O rio é um símbolo tradicional do limite e da fronteira entre os mundos. Atravessar para o lado oposto do rio significa entrar em outra realidade e adquirir uma nova constituição ontológica. Inúmeros Manes aguardam na margem o barqueiro que a muitos nega a passagem por não terem recebido os ritos funerários prescritos.

Os insepultos são os profanos que não completaram os ritos, aqueles que não sofreram a morte iniciática, e que, portanto, não podem ser admitidos na epopteia. Eneias divisa no meio dessa triste multidão a figura de Palinuro, piloto de sua esquadra que morrera afogado, e com ele entabula conversação. O morto pede que seu corpo seja sepultado pelo herói em seu caminho de volta ou que este permita-lhe subir também na barca para o outro lado do Aqueronte. A sibila, na função de mistagoga, recrimina Palinuro pela insensatez de querer ingressar no telesterion sem ser digno.

O medonho Caronte percebe os dois viajantes e declara que aquela é a região dos mortos, e que nenhum vivente pode subir na sua embarcação. A sibila anuncia que se trata do piedoso Eneias em busca de seu pai Anquises, e mostra ao barqueiro o ramo dourado, o símbolo (σύμβολον), a senha que deve ser apresentada ao guardião do Hades, tal qual as lâminas douradas dos mistérios órficos. Somente aquele que porta o facho solar, o princípio ativo e ordenador das coisas, pode sobreviver no domínio das forças dissolventes da sombra, do sono e da noite.

Espantado, e não tendo nada a objetar, Caronte retira as almas que trazia na barcaça e transporta em segurança o troiano e a vate até à outra margem do lodoso Aqueronte. A partir daqui, o caminho dos ancestrais (Anquises) conduzirá Eneias aos Campos Elísios. 

(continuará na parte 4)
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segunda-feira, 10 de março de 2025

Dionísio Areopagita e a teologia negativa em "Os Nomes Divinos" (Livros VI e VII) - o conhecimento divino

"Assim, Deus não se conhece isoladamente, e, de maneira distinta, conhece e abarca todas as criaturas em comum. De fato, a Causa Universal, conhecendo-se a si mesma, não pode deixar de conhecer as coisas que dela procedem e das quais ela é a Causa. Com tal ciência, Deus conhece todos os seres, não por meio do mero entendimento das coisas, mas graças ao conhecimento de si mesmo."

DIONÍSIO AREOPAGITA, Os Nomes Divinos, Livro VII

No curto livro VI, Dionísio discorre sobre o nome divino Vida. Seguindo o padrão visto até aqui com os demais nomes, dizemos que Deus é Vida porque retornamos a Ele esse poder fundamental que testemunhamos nos seres vivos, todos manifestamente incapazes por eles mesmos de produzi-lo ou de conservá-lo. Até os anjos, os mais excelsos entes vivos (imortais, indestrutíveis e em perpétua atividade), recebem sua relativa imortalidade daquele que é real e propriamente o Imortal. Os anjos vivem para sempre, mas existem somente pela agência divina.

Todos os viventes, sejam anjos, demônios, humanos, animais ou plantas não possuem a vida a não ser como um dom do Princípio Supra-Vital. A vida participada pelos seres vivos é um pálido reflexo limitado dessa Vida superabundante e infinita. Aos homens Deus promete a restauração da unidade de corpo e alma dissolvida na morte, a ressurreição, o que para os antigos pareceu algo inatural. O que é encarado como impossível do ponto de vista da ordem natural vigente, contudo, não o é para o Princípio acima da Natureza, a quem nenhuma forma de vida é inatural ou sobrenatural.

No livro seguinte, os nomes analisados são Sabedoria, Mente, Razão, Verdade e Fé. Deus é ilimitado em Sabedoria, transcende toda a Razão e toda a Inteligência de tal modo que qualquer pensamento humano é um tipo de erro quando comparado à permanência imóvel de Seus pensamentos. Isso era o que o Apóstolo queria expressar ao dizer que "a tolice de Deus é mais sábia do que os homens" (1 Cor 1, 25). A absoluta transcendência da Verdade inefável, medida por nossos fracos conceitos presos às coisas sensíveis, assume a aparência de absurdidade e de estranheza.

O intelecto humano (νοῦς) é capaz de apreender as verdades inteligíveis. Porém, a comunhão com realidades que transcendem esse âmbito ultrapassa a sua natureza intelectual. O sentido humano dos termos deve ser substituído por um sentido transcendente quando tratamos das coisas divinas. É tendo essa "tola sabedoria" em mente que podemos dizer que Deus é a fonte de toda Inteligência e de toda a Razão.

Os anjos, sendo imateriais, não obtém seu conhecimento de Deus a partir dos sentidos e do raciocínio discursivo, e, por isso, não estão submetidos às limitações próprias desses meios. Conhecem as realidades divinas de forma espiritual e intuitiva, de modo indiviso e imaterial, o que os torna semelhantes à própria Sabedoria Divina. Os homens, por seu turno, precisam dos sentidos para recolher os dados da realidade sensível, e os organizam discursivamente em raciocínios laboriosamente desenvolvidos.

As duas formas de conhecimento, é mister recordar, possuem suas limitações intrínsecas. Dionísio contrasta o conhecimento angélico com o humano para, ao fim e ao cabo, ressaltar a absoluta diferença de ambos com relação ao conhecimento divino. O homem está limitado àquilo que seus meios cognoscitivos podem lhe fornecer. Os sentidos só informam sobre seus objetos próprios e comuns. A visão percebe as cores e as formas, a audição percebe os sons, o tato sente as superfícies e as formas, o paladar sente os gostos e o olfato sente os odores.

Tais dados fornecidos pelos sentidos são unificados pelo sentido interno, guardados pela memória, e separados, combinados e recombinados pela imaginação (φαντασία, fantasia) de acordo com as necessidadesEntão, pela razão discursiva (διάνοια, dianóia), os juízos sobre a realidade (afirmações ou negações sobre algo) são encadeados em raciocínios (que se desenvolvem no tempo) e que chega a conclusões derivadas somente daquilo que está presente nos juízos. O conhecimento natural de Deus que o homem possui é limitado por essas faculdades.

Os anjos são intelectos incorporais, não recolhem dados da realidade externa pelos sentidos. Eles captam as verdades imaterialmente, não a partir da multiplicidade que caracteriza a realidade sensível na qual habitam os seres corporais. O homem, contudo, também é um intelecto (νοῦς, nous), e, tanto quanto as suas limitações o permitem, consegue intuir verdades divinas. Os seus sentidos são um eco ou reflexo da Sabedoria adaptada às condições que caracterizam a condição humana. 

O reflexo nunca possui tudo o que o refletido possui. Um homem diante de um espelho tem só a sua imagem refletida. Somente os traços mais externos de seu corpo são reproduzidos. Sua voz, seus órgãos internos, sua consciência, sua vida, sua tridimensionalidade, entre outras coisas, não são reproduzidas na imagem. Analogamente, nossas formas de conhecimento são reflexos, imagens diminuídas da Sabedoria Divina. Até a inteligência dos demônios, enquanto inteligência, é um reflexo do conhecimento de Deus.

Todo o conhecimento dos seres limitados é precedido, temporalmente ou não, pela ignorância. Os seres humanos precisam entrar em contato com as coisas para conhecê-las. Os anjos, embora não sejam submetidos às mesmas limitações temporais e corporais que os homens, não possuem o conhecimento das coisas como algo próprio, e precisam recebê-lo da Mente Divina. Nenhuma dessas limitações se encontram em Deus, e seu conhecimento não é o de algo sobre o qual Ele ignorava.

O conhecimento divino é ontológico. Deus possui eminentemente todos os seres antes (não no sentido temporal) que eles tomem qualquer realidade. Ele os conhece enquanto Causa e Princípio eterno de todas as coisas. A Mente Divina não se enriquece pela aquisição de um saber do qual estava carente. Ela possui, de um modo causal, na coincidentia oppositorum de sua natureza insondável e infinita, tudo o que pode e o que não pode existir, tudo o que existiu, existe e existirá, e tudo aquilo que poderia existir, mas não existiu, não existe e nem existirá.

O Uno conhece toda multiplicidade dos seres de modo uno contemplando a sua própria Unicidade. O conhecimento é uma redução do múltiplo ao uno. Quando o homem entende o que é o cavalo, ele reduz este cavalo e aquele cavalo à unidade da natureza comum que torna cavalo cada um desses exemplares que se apresentam na realidade sensível. Os cavalos só existem porque há uma espécie que os unifica, contém, antecipa e abarca. 

O saber de Deus é absolutamente uno, pois antecipa causalmente tudo o que pode existir. Semelhante à luz que contém a possibilidade da escuridão, e só a "conhece" por sua própria luz. O conhecimento que Deus possui de si mesmo implica o conhecimento de todas as coisas que têm nele sua origem e sua manutenção contínua na existência. 

O filósofo neoplatônico, teólogo, mago e padre renascentista italiano Marsilio Ficino, nos seus comentários aos Nomes Divinos de Dionísio, explica essa passagem:

"Portanto, assim como os anjos percebem os sensíveis pelo intelecto, e não por meio dos sentidos, assim também Deus compreende propriamente os inteligíveis e os sensíveis juntos, nem por eles mesmos, nem pelo intelecto, mas por uma luz mais resplandecente que a inteligência. Nem possui Ele um conhecimento gêmeo como nós, um de si mesmo, e outro, dos outros. Tampouco, à nossa maneira, Ele conhece a si mesmo por referência a outrem. Em vez disso, conhecendo-se, Ele compreende tudo de forma simples, pelo conhecimento que, repito, precede até as razões ideais das coisas que são concebidas, discernidas e distribuídas por tal saber."

Não temos condições de conhecer a natureza de Deus tal como ela é em si, dado que Ele transcende infinitamente os sentidos e o intelecto finitos. Todavia, por meio da ordenação das coisas que são como imagens e semelhanças dos exemplares divinos, podemos ascender, dentro de nossa medida, pela via da negação até à Causa Universal. A ordem testemunha a existência do ordenador, e o homem deve subir a cadeia das coisas para alcançar o Criador, partindo dos efeitos à causa.

A ordem dos seres é a Escada de Jacó, por onde os anjos sobem e descem, que franqueia o acesso ao Céu. A ascensão, a anábase (Ἀνάβασις), exige que seja seguida a via negativa ou via remotionis, isto é, a negação de tudo o que é limitado. A teologia negativa ou apofática consiste em afirmar a perfeição para que não se afirme a imperfeição, e negar a perfeição para que não se afirme a imperfeição. As perfeições dos seres devem ser atribuídas a Deus como sua fonte última, porém, a fim de que Ele não seja concebido segundo as limitações intrínsecas aos entes, essas mesmas perfeições devem ser negadas naquilo que elas têm de finito.

Desse modo, afirma Dionísio, Deus é conhecido nas coisas e fora delas. As positividades dos entes manifestam Deus, e as suas limitações manifestam que eles não são Deus. Há conhecimento igualmente pelo desconhecimento. A via negativa, um dos traços distintivos da tradição neoplatônica, não alcança a natureza divina insondável, apenas retira os obstáculos da finitude que, por assim dizer, a "encobrem" como nuvens que impedem a visão do Sol. A douta ignorância (Docta Ignorantia), segundo a definição dada séculos depois por Nicolau de Cusa, é um saber ignorante porque entende que o desconhecimento da natureza divina se deve à sua absoluta transcendência.

Dionísio diz que Deus é tudo em todas as coisas e nada em nenhuma delas. É tudo porque os entes não existem senão pelo poder divino, e nada porque Ele as transcende infinitamente. Conhecido por todas as coisas e por todos os homens, e não é conhecido por todas as coisas e por todos os homens. Não existe contradição nessas declarações. Sob certo ângulo, Deus é conhecido por meio das suas criaturas que manifestam suas perfeições. Sob outro ângulo, nenhuma das criaturas, e nem o seu conjunto, pode revelar plenamente a natureza divina.

O caminho ascensional que parte da ordem das criaturas até à Causa Universal possui limites intrínsecos. Deus é conhecido nessa via segundo o vínculo causal com as criaturas. O mais divino conhecimento de Deus, que ultrapassa a relação causal, se dá quando a alma, deixando todas as coisas para trás, inclusive a si mesma, une-se à luz celestial supraluminosa, e nela é iluminada pela inescrutável profundeza da Sabedoria. 

Trata-se da unio mystica, a união mística, na qual a alma abandona tudo, até a si mesma, e se une ao Absoluto numa experiência que é indizível, inexplicável e indescritível. A doutrina de Dionísio apresenta aqui outro aspecto distintivo da tradição neoplatônica: o cume da contemplação é uma união espiritual com o Uno. Nas Enéadas, o filósofo neoplatônico Plotino, antecessor de Dionísio, expõe semelhante ensinamento:

"Tal é o fim real da alma: entrar em contato e ver essa luz por ela mesma, e não por outro. Ver aquilo mesmo pelo qual ela vê. (...) Não vemos o Sol pela luz de outra coisa. Como isso pode se dar? Faça abstração de tudo."  (Enéadas, V, 3, 17)

Marsilio Ficino comenta que a investigação filosófica, partindo da ordem do universo, não consegue ir além de Deus enquanto Criador das coisas. A alma é mais próxima de Deus quando, feitas todas as negações da via negativa, e afastada de seus poderes investigativos, ela "transporta-se para a luz divina inteiramente por amor, e, iluminada e unida em formas maravilhosas, rejubila maximamente em Deus".

Não obstante, deve-se haurir conhecimento de Deus por meio da ordem das coisas, dado que Ele é o autor da harmonia que se testemunha no Cosmo, ligando as coisas superiores às inferiores por cadeias indissolúveis numa hierarquia de acordo perfeito. O nome Razão (λόγος) é justamente atribuído a Deus não só por Ele ser a fonte última da razão que governa e penetra as coisas, mas também porque estão contidas na sua unicidade (μονοειδῶς) simplíssima as causas de todos os entes, transcendendo a todos por sua absoluta independência.

A Razão é a pura e infalível Verdade ao redor da qual a orbita. Os fiéis têm na verdade um solo firme e imutável, cujo conhecimento elimina o câmbio próprio da ignorância. E aquele que assim está estabelecido na Verdade sabe que está ao abrigo da errância, embora muitos, vendo-o de fora, possam considerá-lo como alguém fora de seu estado normal.
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Sobre o conhecimento divino: