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domingo, 6 de agosto de 2017

"The Pre-Persons" de Philip K. Dick: o que nos faz humanos?

"O Congresso inaugurou um teste simples para determinar a idade aproximada na qual a alma entrou no corpo: a habilidade de formular matemática mais elevada, como álgebra. Até esse ponto, era só um corpo, instintos animais e corpo, reflexos animais e respostas a estímulos. Tal qual os cães de Pavlov quando perceberam um filete de água infiltrado sob a porta do laboratório de Leningrado. Eles 'sabiam', mas não eram humanos."

PHILIP K. DICK, The Pre-Persons, In. The Collected Stories of Philip K. Dick, Vol. 5 (pag.277)

No conto intitulado The Pre-Persons (1973), Philip K. Dick fala de uma sociedade americana futura na qual as crianças podem ser rejeitadas pelos pais e abortadas até os doze anos. São exatamente as pré-pessoas do título. Como não são ainda pessoas, elas podem ser descartadas a qualquer momento por seus progenitores. Uma vez rejeitadas, elas são recolhidas por caminhões estatais e mortas em câmaras por sufocamento.

A questão central do conto, como a maioria dos textos de Philip Dick, gira em torno do conceito da realidade. No caso em tela, o conceito do que é ser realmente humano. O que torna um ser humano humano é uma longa discussão que remonta aos primórdios da filosofia. O problema é ontológico e conceitual: o que torna algo um legítimo representante de uma determinada espécie ou classe?

Em outros termos, há um conjunto de características essenciais tais que X pode ser considerado um Y. Por exemplo, um homem pode ser gordo ou magro, alto ou baixo, negro ou branco, brasileiro ou egípcio, mas nenhuma dessas características o exclui da comunidade dos homens. As características acima elencadas são acidentais no sentido de que nenhuma delas define o ser humano. Contudo, só posso afirmar a humanidade de todos esses homens justamente porque intuo que há algum conjunto definidor de características que os torna todos homens. 

Na definição tradicional, o homem é um animal racional. Isto é, o homem é animal tanto quanto o golfinho ou o gato, mas tem em si mesmo algo que não pertence à pura animalidade: a racionalidade. E esta é, entre outras coisas, a capacidade de conceber conceitos abstratos, formular com eles juízos sobre a realidade e encadeá-los logicamento em argumentos. O que define o homem, ou seja, a sua definição, é justamente a sua generalidade (animal) e sua especificidade (racional). E aquilo que lhe é específico marca a sua espécie, no sentido lógico e ontológico.

Ora, é claro que nem todos os homens parecem ser racionais. Alguns, graças a deformações materiais de diversos gêneros, jamais chegam a atualizar essa capacidade racional. Podem ser considerados homens? E as crianças, como ainda não desenvolveram completamente essa capacidade, podem ser consideradas humanas?

Note-se que a questão do pertencimento à classe dos homens não é somente uma questão lógico-teórica. Pertencer à humanidade é também ter certos privilégios e certos deveres. Um homem não pode ser morto impunemente. Ou seja, ser humano é possuir uma certa dignidade ontológica que o distingue de todo e qualquer outro ente só pelo fato de pertencer a essa classe. Matar um ser humano tem um peso moral diverso de matar um outro ser vivo.

Mas se o ente não é um ser humano ainda, então ele pode ser tratado como são tratados os entes vivos não-humanos? No conto de Dick, o início da humanidade foi convencionada aos doze anos pelo governo e por uma Igreja dos Vigias. Segundo sua doutrina, referendada pelo Estado, a alma entra no corpo da criança somente aos doze anos. Resta, então, que, antes desse limite, as crianças pode ser simplesmente rejeitas, descartadas, levadas pelo governo e mortas, se não houver ninguém que as adote.

A sociedade americana do conto de Dick definiu a humanidade por um estágio cronológico de desenvolvimento (doze anos). A pergunta óbvia é se um estágio de desenvolvimento é condição necessária e suficiente para definir o que é ser humano. E se não for, nada impedirá que esse estágio limite seja modificado, adiantado ou postergado.

Esse é um dos medos que Walter, o protagonista do conto, traz dentro de si. Ele já passou da idade limite de doze anos. Não pode mais ser rejeitado e abortado. Todavia, Walter não se sente seguro, pois nada parece garantir que o limite não seja eventualmente modificado. Seu temor é que, mais cedo ou mais tarde, ele esteja incluído na faixa das pré-pessoas.

Inspecionando a si mesmo, Walter percebe que não era muito diferente dois anos antes, quando ainda era considerado uma pré-pessoa. Sente que era tão humano como o é agora. A arbitrariedade da escolha da idade limite da humanidade aparece-lhe de forma patente e o leva a questionar a sanidade dos cidadãos daquela sociedade que permite que seus filhos sejam mortos com base em tão frágil critério.

A fim de justificar a escolha dos doze anos como idade limite para o aborto, o governo instituiu um teste simples: a capacidade de compreender e de executar operações matemáticas mais complexas, como a álgebra. Em tese, só um ser humano pleno (com alma, como é dito no conto) seria capaz de realizar tais operações abstratas. Logo, todo aquele que ainda não alcançou a idade em que essa capacidade manifesta-se, não é um ser humano.

Há, pelo menos, dois sentidos diversos de “humano” e dois sentidos de “homem”implicados na escolha acima. Em um sentido, trata-se daquilo que caracteriza um indivíduo como humano, isto é, como pertencente à classe humana, como instância singular do gênero “humanidade”. Em outro sentido, “homem” adquire o sentido de indivíduo adulto plenamente maduro e funcional.

A afirmação “o bebê é humano” indica o pertencimento ao gênero humano. Já a afirmação “o bebê não é um homem” indica que não se trata de um indivíduo adulto, maduro e independente. Em outros termos, no primeiro sentido trata-se da natureza da coisa e no outro do seu grau ou estágio de desenvolvimento. A questão em torno da qual orbita The Pre-Persons é justamente a percepção de que o que vale realmente como definição do homem é sua natureza e não o seu grau de desenvolvimento. Mas, no discurso do governo e da sociedade do conto, conscientemente ou não, esses sentidos se confundem.

A natureza humana manifesta-se, entre outras coisas, na forma como as circunvoluções da matéria se organizam cada vez mais segundo uma lei que rege seu desenvolvimento desde seu estágio mais embrionário até à formação de um indivíduo adulto maduro.O que distingue Walter dos outros seres vivos é sua humanidade, e não o grau de desenvolvimento em que se encontra no momento. A questão sobre quando ele será capaz de realizar operações de álgebra não é suficiente para demarcar a humanidade e nem para decidir a questão da moralidade de sua eliminação física pelo Estado.

O desenvolvimento de um ente está subordinado à sua natureza e não o contrário. Se Walter desenvolve-se como um ser humano, é porque possui a natureza humana. Não é o processo de desenvolvimento que gera ou define a natureza, mas a natureza que rege e define o processo. Interromper a vida de garotos antes dos doze anos é interromper um processo de desenvolvimento regido por uma natureza já presente.

A arbitrariedade da idade limite é explicitada quando Ed Gantro, um homem de mais de trinta anos com formação universitária em matemática, tem seu filho recolhido pelos temidos caminhões estatais. Para salvar o filho e para escancarar o absurdo do critério utilizado pelo governo, ele declara que, por conta de um acidente, perdeu totalmente a capacidade de fazer qualquer cálculo para além da aritmética mais simples. Ele, portanto, perdeu a sua humanidade. É uma pré-pessoa e deve ser eliminado.

A imprensa é chamada e, apesar das tentativas de negação por parte dos agentes do governo, o fato escandaloso de que um adulto foi preso como uma pré-pessoa é divulgado. Não há alternativa senão libertar a ele e ao filho e fingir que nada daquilo aconteceu. Mas a exposição desejada por Ed Gantro já aconteceu e ali ele considera que ocorreu uma vitória contra o establishment estatal.

A convicção partilhada pelos personagens do conto contrários à eliminação física das pré-pessoas (e que transparece ser a convicção do próprio Philip Dick) é a de que, no fundo, o que está por trás dessa medida, exteriormente defendida como solução econômica para a superpopulação, é um ódio instintivo pelo indefeso e pelo desamparado. Bebês e crianças são indefesos, ergo podem ser eliminados sem culpa moral. O humano seria definido pela capacidade de defender-se.

Isto é, quando não é mais possível (ou, pelo menos, não tão fácil), fazer com o outro o que se deseja sem esperar resistência, a ele é concedido (a contragosto) o privilégio do pleno pertencimento à humanidade. É simplesmente a lei do mais forte escondida sob as respeitáveis vestes da religião, da lei e da ciência.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Philip K. Dick: "Null-O" ou a redução eliminativa da realidade

"Lemuel indicou o apartamento com um movimento de sua mão.'Todos esses aparentes objetos - cada um tem um nome. Livro, cadeira, sofá, tapete, lâmpada, cortinas, janela, porta, parede, e assim por diante. Mas essa divisão entre objetos é puramente artificial. Baseado em sistema de pensamento antiquado. Na realidade, não há objetos. O universo é, de fato, uma unidade. Temos sido ensinados a pensar em termos de objetos. Essa coisa, aquela coisa. Quando Null-O é percebido, essa divisão puramente verbal cessa. Sua utilidade foi há muito ultrapassada.'" (tradução minha)

PHILIP K. DICK, Null-O, p.138, in The Collected Stories of Philip K. Dick, vol. 3

Null-O é um conto de ficção científica publicado por Philip K. Dick em 1958 sobre seres humanos completamente desprovidos de empatia que crêem que a realidade é absolutamente destituída de qualidades que distinguiriam os objetos entre si. Isto é, nenhum objeto é real, mas somente resultado da aplicação de categorias de pensamento humanas e subjetivas que não possuem nenhuma correspondência com a verdade última.

Dado que o mundo não é constituído de objetos, tudo não é mais do que uma unidade indistinta e todas as diferenças que atribuímos às coisas não passam de flatus vocis, diferenciações meramente verbais. A doutrina Null-O é, poder-se-ia afirmar, uma espécie de nominalismo inverso. Enquanto os nominalistas medievais afirmavam que somente os indivíduos são reais, sendo todos universais termos vazios, os adeptos de Null-O consideram real somente uma unidade universal que nega todo e qualquer objeto singular.

Diante de tal verdade, os Null-O consideram insuficiente uma redução eliminativa da realidade somente teórica. Ou seja, não basta saber o que a realidade é uma unidade destituída de quaisquer diferenciações, é preciso transformá-la efetivamente no que ela é. Talvez o melhor termo seja revelá-la do modo como ela realmente é.

Todavia, a questão é saber como é possível reduzir todas as diferenciações e qualidades que apresentam-se empiricamente a nossos sentidos a uma unidade última e indiferenciada. O único meio é a destruição de todo e qualquer objeto. E é exatamente isso que os Null-O pretendem fazer com o uso de bombas cada vez mais poderosas.

Destituídos de empatia, eles não sentem nenhuma compaixão pelos seres humanos normais, seres desprezíveis comandados pelas emoções e apegados a um sistema de pensamento que cria a ilusão da diferenças entre as coisas e, portanto, as bases lógicas para qualquer valoração. Infiltrando-se aos poucos nos governos mundiais durante décadas e manipulando secretamente os recursos de seus países, os Null-O alcançaram o poder mundial e, por conseguinte, as condições necessárias para a realização de seu projeto.

No conto de Philip Dick, os Null-O conseguem destruir parte considerável da Terra e pretendem destruir a galáxia e, por fim, por mais improvável que pareça, o universo. Mas eles acabam derrotados por um grupo de humanos normais rebelados contra os planos reducionistas dos cientistas Null-O. 

Evidentemente, a trama reflete o temor de uma destruição em escala mundial por meio das bombas atômicas durante a Guerra Fria. Outros temas interessantes são veiculados, como a relação entre as partes e o todo, a empatia como característica humana fundamental e a natureza da realidade, este último sendo a obsessão de Dick por toda a sua vida.

O Null-O afirma que o mundo sensível, com suas diferenciações e qualidades, não corresponde à realidade, mas é somente o produto acidental da projeção de categorias subjetivas a uma unidade indiferenciada última. Na definição de um de seus adeptos, o universo não é mais do que "um vasto e indiferenciado domínio de pura energia". Em suma, a única realidade é aquilo do qual tudo é constituído e toda diferenciação é ilusória.

Tales de Mileto, na Ásia Menor do século VI A.C. já afirmava que tudo era água. E o caminho da ciência ali inaugurada passa pela tentativa de unificação dos fenômenos. Sem dúvida, a ciência busca a unidade na pluralidade, a regra geral que explica o comportamento dos entes singulares que a nós apresentam-se pelos sentidos. E uma das questões clássicas da filosofia sempre foi o problema do uno e do múltiplo. "A unidade provêm da multiplicidade ou a multiplicidade da unidade?", eis uma das perguntas fundamentais da investigação filosófica.

Afirmar a multiplicidade absoluta sem unidade é negar as óbvias semelhanças entre os entes e, portanto, seu caráter de unidade. E afirmar a unidade absoluta é o erro oposto, isto é, negar as diferenças óbvias entre as coisas que nos chegam pelos sentidos em nome de um monismo radical (uma só realidade) que torna tudo ilusório.

A doutrina de que tudo é água não necessariamente conduz à negação de toda diferença, assim como afirmar que uma cadeira, uma mesa e um armário são todos de madeira não é negar que cadeiras, mesas e armários são qualitativamente diferentes, isto é, cada um deles é um tipo de objeto com características e funções próprias irredutíveis a seu constituinte material. A cadeira não é explicada, enquanto cadeira, pela madeira da qual é feita. Embora a madeira seja parte necessária do que é esta cadeira.

Os Null-O são presas de um reducionismo eliminativo radical. A cadeira nada mais é do que a madeira. Sua posição teórica é uma escolha ontológica acerca do que é fundamental na realidade. Só há uma substância na realidade e ela é indiferenciada e sem qualidades. Qualquer coisa que pareça um ente diferenciado é uma ilusão.

Os atomistas gregos diziam que só há átomos e vazio, todo o resto perceptível pelos sentidos não sendo mais do que configurações passageiras desses átomos eternos. A questão que se apresentava a esses pensadores era saber como nossos sentidos captam objetos com qualidades e diferenciações se, no fundo, a realidade é formada por entes sem qualidades, dotados somente de forma geométrica. De modo análogo, como é possível que uma realidade indistinta dê origem a um mundo dotado de distinções e de diferenças?

A afirmação de que toda diferenciação é ilusória atinge também aos adeptos do Null-O, já que eles mesmos não são mais do que aquela unidade indiferenciada. O que vale para seus corpos, vale também para seus atos, suas escolhas, seus pensamentos e assim por diante. Mas essas sutilezas filosóficas não os impedirão de buscar o retorno à indistinção universal. Ao fazê-lo, conspiram contra si mesmos. O fim do universo é também o seu suicídio.

Sua doutrina demonstra um anseio pela unidade que manifesta-se como indiferença pela multiplicidade. Se os Null-O fossem capazes de sentimento, poder-se-ia dizer que sua doutrina manifesta ódio pelo múltiplo. E se o mundo é uma unidade subjacente que sustenta diferenciações internas, o Null-O prega a destruição do mundo.

Múltiplo como apresenta-se, o mundo não é bom, dizem os Null-O. É ilusório, fruto da alucinação coletiva de seres miseráveis e primitivos. Há que se livrar dessas ilusões e desses apegos meramente humanos. Ainda que para isso seja necessária a obliteração de tudo. Como muitas doutrinas do século XX, o Null-O é uma doutrina de realização da teoria por meio da violência e da destruição. A acosmia é melhor do que o cosmos.

E o que concede autoridade aos Null-O é que eles sabem. A seus próprios olhos, são uma elite intelectual. Portanto, não podem submeter-se aos primitivismos dos seres humanos comuns que apegam-se emocionalmente a coisas. Os Null-O são lógicos, científicos e racionais. O "conhecimento" é autoridade e licença para a realização desimpedida de seus objetivos.

O conto de Philip K. Dick parece afirmar o vínculo entre a percepção da realidade das diferenças e a afirmação de seu valor intrínseco. Desprovidos de emoções e de sentimentos, os Null-O só podem encarar a realidade como um todo indiferenciado no qual nenhum ente possui valor em si mesmo. Na verdade, eles são cegos para um aspecto essencial da realidade e tomam sua cegueira não como uma patologia, mas como evidência de sua superioridade intelectual.

O Null-O é como um cego que quisesse libertar das suas ilusões os cativos na caverna do mito platônico. Sua consciência está patologicamente fechada para um domínio inteiro da realidade e como essa mesma realidade não obedece aos ditames de sua percepção peculiar, ela deve ser reformada, reduzida e resumida àquilo com que o Null-O  consegue lidar. O resultado é a nulidade absoluta.

domingo, 31 de julho de 2016

Philip K. Dick e "Dark City": quem mexeu na minha realidade?

"Não há impossibilidade lógica na hipótese de que o mundo veio a existir há cinco minutos, exatamente como era então, com uma população que 'lembrava' todo um passado irreal. Não há conexão lógica necessária entre eventos em tempos diferentes. Consequentemente, nada que está acontecendo agora ou que acontecerá no futuro pode refutar a hipótese de que o mundo começou há cinco minutos atrás."

LORD BERTRAND RUSSELL, The Analisis of Mind, p. 159-160

"- (...) Ouça, Ruth. Vi o tecido da realidade se rasgar. Eu vi - por trás. Por baixo. Eu vi o que realmente havia lá. E não quero voltar."

PHILIP K. DICK, Adjustment Team

O filme Dark City (1998), embora não oficialmente baseado em nenhuma obra de Philip K. Dick, trata de um tema que se encontra desenvolvido no conto do escritor homônimo intitulado Adjustment Team: a possibilidade de que a realidade cotidiana seja uma superestrutura falsa construída por um ou mais entes inteligentes.

Na modernidade, a possibilidade da manipulação da realidade por entes inteligentes foi aventada por René Descartes no seu famoso cenário cético do malin génie. Não será que nossas faculdades são manipuladas por um gênio mau de tal modo que tenhamos certeza de coisas que, na verdade, são falsas? Formulada essa possibilidade, todo esforço estará concentrado em saber se aquilo do qual temos certeza e evidência corresponde à realidade e não, ao contrário, ilusão e falsidade.

No filme de 1998, um homem (Rufus Sewell) acorda em uma banheira sem saber quem é ou como chegou lá. Logo, contudo, ele descobre que é acusado de assassinatos cruéis e é perseguido por um detetive que investiga o caso (William Hurt). Descobre também que seu nome é John Murdoch e que é casado (com a belíssima Jennifer Connelly).

Murdoch é ajudado por um certo Dr. Daniel Schreber que, aos poucos, revela que a cidade onde vivem é, na verdade, uma criação de seres extraterrestres - os Estranhos - que parasitam cadáveres humanos e que criaram aquela ilusão como um grande experimento científico  a fim de compreender o que é a individualidade humana. Tais seres conseguem recriar periodicamente a cidade a seu bel-prazer por meio do poder de suas mentes, em uma espécie de sessão de concentração coletiva que eles denominam ajuste (tune).

Durante essas recriações periódicas, os habitantes humanos ficam desacordados e têm novas memórias implantadas em seus cérebros, a fim de que desenvolvam reações diferentes a cada novo ajuste. Desse modo, cada habitante teve tantas vidas diferentes quantas foram as recriações e adaptações realizadas pelos Estranhos. Por conseguinte, nenhum habitante possui qualquer identidade histórica real, uma vez que suas memórias são completamente falsas e constantemente trocadas por outras.

Ocorre que John Murdoch acordou no meio de uma dessas adaptações e testemunhou a mudança de inúmeros elementos da realidade circundante, inclusive a ação direta de ajuste dos Estranhos. Por assim dizer, inadvertidamente Murdoch rasgou o véu da realidade fantasmática a que esteve preso e viu a natureza das coisas.

No conto de Philip K. Dick, Ed Fletcher, um homem comum, sai de casa atrasado para o trabalho e testemunha a dissolução física de uma parte inteira da cidade, inclusive do prédio onde trabalhava. Viu tudo ao redor, o prédio e as pessoas em seu interior reduzindo-se a pó. No meio da dissolução, Fletcher vê a ação de um time de ajuste que realiza as mudanças e que, ao perceber a sua presença, passa a persegui-lo.

Depois dessa terrível revelação e logrando escapar de seus perseguidores, Fletcher, já em casa, conta à esposa Ruth o acontecido. Convencida de que o marido sofreu alguma espécie de surto, ela convence-o de que deve retornar a seu local de trabalho a fim de provar a si mesmo que tudo não passou de uma ilusão. Fletcher concorda e volta ao prédio que antes vira transformar-se em pó junto com todos os seus habitantes.

O choque é imenso quando Fletcher chega ao local onde estava o prédio onde trabalhava e percebe que ele permanecia lá, inteiro, sólido, como se nada tivesse acontecido. No seu interior, as mesmas pessoas que haviam se transformado em pó estão vivas e normais. Aparentemente, tudo estava no seu devido lugar.

Estaria louco? Doente? A resposta vem quando ele percebe que as coisas não estão exatamente como antes de seu "surto". Há mudanças pequenas, mas significativas. Seu chefe está mais jovem, a secretária veste uma saia diferente da usual, a disposição da sala do chefe não é a mesma. Tudo parece haver passado por algum ajuste.

Fletcher, apavorado, tenta fugir e é finalmente capturado e levado à presença do chefe do "time de ajuste". O chefe explica que o setor T137 - onde ficava o prédio onde trabalhava Fletcher - teria que passar por um grande ajuste e que ele deveria estar lá para também ser ajustado. Contudo, por um erro interno, o time de ajuste não conseguiu fazer com que Fletcher estivesse no prédio a tempo e, pior, com isso acabou permitindo que visse o processo de destruição e reconstrução do setor T137.

Agora não havia volta. Fletcher tinha que morrer. Desesperado, ele pede por sua vida e promete nada contar do acontecido a ninguém desde que lhe fosse permitido simplesmente retornar à sua vida normal. Depois de ponderar, o chefe da turma de ajuste permite que retorne à vida normal sob a condição de nada revelar sobre a realidade que testemunhara. Fletcher aceita a restrição e retorna ao seu mundo sem nada dizer à mulher sobre a descoberta que fizera.

Curiosamente, o retorno de Fletcher ao mundo é idêntico ao pedido de retorno de Douglas Quail às memórias falsas em We Can Remember It For You Wholesome. Assim como Quail, Fletcher descobre inadvertidamente a realidade e é ameaçado e sentenciado à morte pelas forças controladoras da ilusão. Ambos, Fletcher e Quail, preferem retornar à ilusão à morte.

Os contos parecem ser versões antiplatônicas do Mito da Caverna. Em Platão, os prisioneiros da caverna não sabem que estão presos e que contemplam uma realidade ilusória. Quando um prisioneiro é libertado, sente-se inadaptado à nova realidade e quer retornar à caverna. Eventualmente, ele acostuma-se e passa a entender e a apreciar a verdade que é apresentada em sua nova condição.

Quail e Fletcher fazem o oposto. Eles preferem retornar à caverna, às suas vidas comuns, desde que sejam poupados da morte. A morte aí é símbolo do sacrifício que é necessário fazer para entrar na realidade. Mister é morrer para a realidade anterior e ilusória, ou seja, desiludir-se. O preço, não obstante, é alto e a recusa da morte é a recusa ao desapego da velha natureza e da vida comum.

Em Dark City, a revelação da falsidade das memórias e do constante ajuste que a realidade sofre pelo poder mental dos Estranhos é acompanhada pela descoberta de que Murdoch também consegue ajustar. De alguma maneira, ele tem o poder de moldar a realidade de acordo com seus desejos. Ele saiu da caverna e é capaz de criar uma nova caverna.

O ponto não é mais a libertação da ilusão e sim qual ilusão é melhor. Ao final do filme, Murdoch vence seus adversários extraterrestres e modifica a cidade ilusória de acordo com sua vontade, como uma espécie de demiurgo intramundano. Ele não está fora do mundo como os Estranhos. Ele pertence ao mundo, mas é capaz de modificá-lo como se fosse seu criador.

Na verdade, Murdoch usurpa o lugar dos Estranhos, mais ou menos como Zeus usurpa o trono de Cronos e aprisiona os Titãs, inaugurando uma nova monarquia e o domínio dos olímpicos. Os antigos deuses e suas realidade são destronados e uma nova ordem instaurada.

Diferentemente do prisioneiro que é libertado da caverna pela agência externa daquele que conhece a realidade, Murdoch sai da caverna não para apresentar aos outros prisioneiros a realidade e sim para recriar a realidade de uma forma que considera melhor. Ele, como um Messias, inaugura "novos céus e nova terra". E estes refletem não mais do que os desejos de Murdoch.

Embora essa nova realidade seja boa, ela ainda é ilusória para os outros habitantes da cidade. Os Estranhos eram uma comunidade de seres com memórias e propósitos compartilhados por todos os seus membros, como uma grande mente única. Essa comunidade é derrotada e substituída pelo arbítrio de um único indivíduo iluminado, John Murdoch.

No caso do conto de Dick, a realidade cotidiana e compartilhada é modificada por agentes externos ao mundo e a descoberta dessa agência não cria no protagonista o desejo de sair dessa ilusão e sim embrenhar-se nela novamente desde que sua vida antiga retorne a ser o que era. Dark City dá um passo a mais na medida em que a descoberta da manipulação da realidade por potências estrangeiras a este mundo enseja não uma reinserção na velha ordem, mas o destronamento dos antigos artífices e o consequente reinado do arbítrio do ex-prisioneiro.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Philip K. Dick: memória e ilusão em "We Can Remember It for You Wholesale"

"Seria essa a resposta? Afinal, uma ilusão, não importa o quão convincente, permanecia não mais que uma ilusão. Ao menos objetivamente. Mas subjetivamente...totalmente o oposto."

PHILIP K. DICK, We Can Remember It for You Wholesale

A memória é uma das fontes que o homem possui para conhecer a si próprio e ao mundo externo. Contudo, ela não é exatamente um acesso ao passado. Não se volta ao que passou. O que já não é mais, não tem mais ser. As memórias não podem fazer retornar ao ser o que já não é. Elas são reproduções esquemáticas de fatos passados.

Tampouco podemos compará-las aos fatos passados como alguém que compara a cópia com o original. O fato passado é conhecido pela memória. Ou melhor, só sabemos da existência de fatos passados pela memória. Da mesma forma, só conhecemos nossas experiências passadas e nossa história pessoal pela memória.

Os conteúdos da memória, não obstante, são reproduções esquemáticas de experiências passadas. Enquanto tais, são menos vívidos do que as experiências presentes e são inalteráveis pela vontade ou pela ação presente. Posso a qualquer momento alterar o caminho que ora estou fazendo, mas não a lembrança do caminho que já fiz.

A memória é a consciência presente da reprodução esquemática do evento pretérito. O caráter esquemático, menos vivaz e impermeável à ação presente constituem a memória. É como o conteúdo mental memorativo se apresenta à consciência e não sua comparação com os fatos passados que constitui a memória.

Em certo sentido, é por causa de uma diferença qualitativa na apresentação do conteúdo mental que temos a noção de passado. Daí que, ou bem a memória é, em geral, um meio de conhecimento confiável ou bem sequer sabemos o que nos aconteceu, o que fizemos ou, até certa medida, o que fomos e que somos.

Seria fácil imaginar - e, de fato, muitos filósofos e escritores já imaginaram - que talvez nossa memória não seja confiável e que boa parte do que pensamos que experimentamos em algum momento do passado realmente não se deu. Seja pela ação de entidades malévolas metafísicas ou físicas, seja por disfunções físico-químicas ou psicológicas, nossas lembranças poderiam, em tese, não corresponder a coisa alguma real.

Obviamente nossa memória não é perfeita. Esquecemos muita coisa, confundimos situações e até mesmo "inventamos" lembranças. Mas esses são casos excepcionais. O ponto nevrálgico é saber se a memória é confiável em geral. Seria possível que uma parte considerável de nossa vida pregressa ou fatos determinantes de nossa história sejam somente fruto de nossa imaginação?

Temos os testemunhos dos outros para corroborar nossas memórias, como é sabido. Ainda assim, contudo, confiamos nas lembranças de um outro. Por que elas deveriam ser mais confiáveis que as minhas? E, na circunstância de entrarmos em desacordo com relação a um fato passado, quem tem razão? Não podemos retornar ao passado para averiguá-lo.

Talvez nenhum dos dois, se considerarmos seriamente a possibilidade de um acordo ilusório entre os homens. Como Bertrand Russell apontou, podemos estar em um universo nascido há cinco segundos com todos os homens tendo memórias de suas vidas pregressas implantadas em suas mentes. Uma espécie de harmonia pré-estabelecida de lembranças.

Não é necessário, porém, apelar a esses cenários céticos radicais para perceber a profundidade do problema. Basta que tenhamos em mente que a memória não é um fluxo e que esquecemos a maioria das coisas pelas quais passamos. O caso mais óbvio é a de nossa tenra infância, de cujos acontecimentos só tomamos conhecimento pelo testemunho alheio.

Não guardamos todas as experiências pelas quais passamos durante a vida. Tampouco guardamos tudo o que nos acontece cotidianamente. Há inúmeros vazios na recordação de uma simples caminhada. Sabemos que saímos de casa e passamos por uma série de pessoas e de lugares até chegar a nosso destino, mas não guardamos a memória de todos os seus momentos.

Ora, uma das questões seria como saber se houve, de fato, um hiato temporal entre o momento passado guardado na memória e o momento presente. Ou ainda, se aconteceu algo dentro desse hiato e que foi apagado. Pior, se podemos nos enganar sobre o que nos aconteceu no passado e se não podemos comparar nossas lembranças com os fatos passados, seria possível que nossa história de vida fosse fantasiosa ou implantada por alguma potência exterior.

É sobre algumas dessas questões filosóficas e epistemológicas que Philip K. Dick constrói o seu conto We Can Remember It for You Wholesale (1966), uma de suas obras mais famosas e interessantes. O conto inspirou duas adaptações cinematográficas - Total Recall (1990) e Total Recall (2012) - que, no entanto, tomaram do texto original somente sua premissa inicial.

Um homem casado e pacato, Douglas Quail, leva uma vida comum, sem graça e algo infeliz em um futuro indeterminado. Ocorre que Quail sonha e sente uma vontade imperiosa e constante de viajar à Marte, onde jamais esteve. Sua mulher encara esse desejo do marido como uma manifestação desagradável de sua natureza sonhadora e fantasiosa e cobra dele uma postura mais realista e responsável.

A esposa tem lá sua razão, pois Quail tem um emprego ordinário que não permite nenhuma esperança, por mais remota que seja, de realizar esse intento. Ele sabe disso e considera seriamente uma alternativa: um implante de memória falsa. Ele hesita um tanto, já que algo falso, por mais realista que seja, permanece sendo falso. Quando, por fim, decide-se, procura uma empresa chamada Rekal. 

A promessa da Rekal era não somente implantar lembranças falsas tão críveis quanto as verdadeiras, mas fornecer um conjunto de "evidências" corroboradoras da fantasia implantada. No caso de Quail, eles enviariam passaporte, sobras de crédito de viagem, entre outros objetos, para o seu apartamento a fim de ele pudesse assim certificar-se da realidade de sua viagem. Quail, então, aceita o pacote de serviços da Rekal.

Iniciam-se aí seus problemas. Durante o implante da memória falsa da viagem à Marte - incluindo a lembrança de ser um agente secreto em uma missão naquele planeta - os técnicos dão-se conta de que, de fato, Quail esteve em Marte em uma missão como agente secreto. Duas conclusões se impunham: sua memória fôra apagada e, de algum modo, seu desejo de ir à Marte era o resquício de sua lembrança da viagem real.

Os técnicos da Rekal o enviam de volta à sua casa sem interferir mais na sua mente e nas suas lembranças. Ele agora possui duas memórias, a de que queria ir à Marte e a da viagem à Marte. Suas lembranças aos poucos vão aclarando e ele recorda que trouxera do planeta vermelho algumas espécimes de larvas. Logo depois, ele verifica, para sua surpresa, que guardava em seu apartamento uma caixa contendo...larvas ressecadas de Marte.

A caixa poderia ser também um engodo, uma vez que seria exatamente esse tipo de confirmação que esperaria do serviço da Rekal. A realidade de sua viagem impõe-se quando dois policiais vão a seu encontro em seu apartamento. Eles explicam a Quail que a revelação pública do teor de sua missão seria embaraçosa para o governo e que sua memória fora apagada justamente para que essa informação jamais viesse a lume. Sua sentença era a morte.

Quail agilmente consegue escapar dos policiais e foge. Cedo se dá conta de que sua situação era inescapável. Propõe um trato: sua memória da viagem apagada e uma nova memória implantada. Uma que realizasse seu mais íntimo desejo e que, por isso, suplantaria qualquer resquício do desejo de ir à Marte que o conduzira a todo esse drama.

O governo aceita. A memória da viagem é apagada e a nova memória contendo o desejo mais íntimo de Quail está prestes a ser implantada quando, de novo, os técnicos da Rekal dão-se conta de que aquela lembrança falsa que seria implantada já estava lá. De fato, o desejo mais íntimo de Quale nada mais era do que um acontecimento real em sua vida pregressa que fora apagado pela agência de outros poderes.

Os temas da realidade e da ilusão são caros a Philip K. Dick, como é sabido. O tema das drogas também está presente, pois é quando Quail está sob efeito de uma droga - narkidrina - usada no processo de implantação da memória que ele recorda da sua viagem real à Marte. Isto é, o acesso à verdade não se dá pela mente consciente e dona de suas faculdades, mas pela ação liberadora das drogas.

Não somente as drogas revelam a verdade. Os sonhos e os desejos também o fazem. O desejo de Quail de viajar à Marte era uma tênue lembrança confusa, indistinta e sufocada daquilo que realmente se dera em sua vida. Mais uma vez, o acesso à verdade se dá não pela mente consciente e dona de suas faculdades. Desta vez,  verdade revela-se pelo desejo e pelo sonho.

Dick cria no conto uma ampla desconfiança na certeza da memória. "Se não pudéssemos confiar na memória, qual outro (ou outros) acesso (s) teríamos à verdade sobre nós mesmos?", parece perguntar. Fundamentalmente, a busca de Quail é sobre sua própria história, sobre quem realmente ele é. A resposta de Dick parece apontar que não é na consciência comum e cotidiana que se encontrará a resposta. Os grandes desejos, os sonhos e as drogas são os acessos privilegiados à realidade.

O que é mais estranho é que é justamente quando Quail decide enganar-se a si mesmo, realizando seu desejo recorrente através de um mero símile, que ele entra em contato com a realidade. O falso conduz paradoxalmente à verdade. O não-ser conduz ao ser. A consequência, porém, é a pena de morte decretada por forças que controlam a realidade e que só são apaziguadas quando o homem voluntariamente aceita outra de suas ilusões.

Em outros termos, estamos submetidos a um mundo ilusório que esconde nossa verdadeira história e vislumbramos essa realidade difusa e confusamente e só temos acesso a ela em condições fora daquelas que constituem a experiência cotidiana. O custo dessa libertação é a experiência da morte. A outra opção é o retorno à ilusão.

Se é assim, Quail é o homem que quer retornar à ilusão desde que seus desejos sejam realizados. Todavia, no ato mesmo de querer iludir-se, a realidade é-lhe revelada pela segunda vez. Paralelamente, os agentes que exigem de Quail um retorno ao ilusório, no momento em que criam o falso, revelam o verdadeiro.

Forças que ocultam ou revelam a realidade a seu bel prazer são um tema que assombra a mente dos filósofos desde Parmênides, passando pelo gênio mau de Descartes e chegando à filosofia contemporânea com seus cenários de cientistas malévolos que enganam cérebros em cubas. Se o filósofo solipsista crê que toda realidade externa não é mais do que uma projeção de sua mente, o filósofo paranoico desconfia de que tudo o que está em sua mente é ilusório.

Haveria uma realidade objetiva e independente da mente. Mas ela seria ocultada - em parte ou totalmente - por certas potências que a substituiriam por ficções. Essas forças, sejam elas quais forem, não seriam onipotentes, já que o homem possuiria vislumbres da realidade. Mais do que isso, no intento de ocultar a realidade, elas acabariam por revelá-la. Desse modo, a inclinação humana à verdade, por assim dizer, encontraria um caminho para realizar sua vocação a despeito de todos os obstáculos. Mesmo que o homem opte livremente pela ilusão.

A não ser que Quail jamais tenha realmente ido à Marte...
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terça-feira, 28 de julho de 2015

"Os Três Estigmas de Palmer Eldritch" e a busca pelo divino

" 'God,' Eldritch said, 'promises eternal life. I can deliver it' "

PHILIP K. DICK, The Three Stigmata of Palmer Eldritch

"Os Três Estigmas de Palmer Eldritch" (1965) de Philip K. Dick apresenta temas recorrentes da obra do escritor americano: ilusão, realidade, drogas, futuro distópico, a difícil relação amorosa entre homem e mulher, religião, comunhão humana, etc. A trama do livro é relativamente simples. Em um futuro indeterminado, a Terra tornou-se praticamente inabitável por causa do intenso calor. A ONU, com o fim de preservar a raça humana, seleciona compulsoriamente homens e mulheres para serem colonos agrícolas vitalícios em Marte. 

O tédio e o desânimo são o quinhão diário dos colonos em um ambiente hostil e inóspito. Para que a vida seja minimamente suportável, a ONU faz vista grossa para a venda ilegal de uma droga alucinógena chamada sugestivamente de Can-D. Trata-se de uma "droga de tradução" utilizada em grupo cujo efeito é criar uma ilusão conjunta e partilhada (a "tradução") onde os usuários experimentam uma espécie de fusão de suas personalidades.

A alucinação comum não é livre e tem como base o uso de cenários miniaturizados que imitam situações da Terra. Os usuários, por assim dizer, transportam-se para o ambiente em miniatura e assumem as identidades dos bonecos como se fossem reais. Aparentemente, diversos usuários podem, por assim dizer, "habitar" o mesmo boneco.

O tema da fusão ou comunhão de pessoas através de meios artificiais está presente também em uma obra posterior de Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968). Nela, através de um aparelho, os usuários identificavam-se com Mercer, um velho subindo um morro enquanto era alvejado por pedras. Em The Three Stigmata, a droga é o meio pelo qual essa comunicação profunda que ultrapassa os limites intrínsecos da individualidade humana é alcançada.

Como era de se esperar, a venda ilegal de Can-D é um grande negócio explorado secretamente por um empresário terráqueo (Leo Bulero). Ocorre que a situação sofre uma mudança dramática quando um viajante interestelar, Palmer Eldritch, traz consigo de sua longa viagem à Prox uma nova e mais potente droga, Chew-Z. 

O que diferenciaria Chew-Z de sua concorrente é que, aparentemente, o que ela produz não é uma ilusão e sim algo real. Em tese, ela facultaria a seu usuário a capacidade de criar uma realidade alternativa na qual tudo o que viesse a existir seria uma projeção da sua vontade. Semelhante à uma nova encarnação, cada um poderia tornar-se o que quisesse: homem, mulher, rico, pobre, novo, velho, animal, vegetal, inanimado, etc. 

A substância apresentada no livro de Philip K. Dick promete algo que vai além do desejo comum da geração que se alimentou de The Doors of Perception (1954) de Aldous Huxley: a droga poderia não somente dar acesso a dimensões da realidade ocultas aos sentidos normais, mas também moldar o mundo segundo a escolha de seu usuário. 

O controle da realidade é o centro da trama. Isso é Chew-Z (choose), a droga alienígena trazida à Terra por Palmer Eldritch: escolha livre de um mundo novo - não ilusório -, real, uma "reencarnação", obedecendo aos desejos do usuário. Dito de outro modo, a droga dá controle sobre a realidade, não se restringe a criar uma ilusão subjetiva. O limite intrínseco da droga comum pode ser ultrapassado. A criação solipsista de mundos deve dar lugar à manipulação do próprio tecido da realidade, tema que reaparecerá em Flow My Tears, The Policeman Said.

Todavia, Palmer Eldritch é o malin génie de Dick. Ocultamente, ele é capaz de controlar os universos de quem faz uso da droga. Ele ameaça a  todos com a possibilidade de um mundo alternativo, criado e controlado por ele. Como o demônio de Descartes, ele manipula os mundos criados e pode manter cativo seus usuários. Aqueles que tomam a droga de Eldritch nunca sabem ao certo se o que experimentam é real ou não, se o efeito da mesma já passou ou se ainda está ativa em seus sistemas.

Desse modo, Eldritch é onipotente, onisciente e onipresente nos universos artificiais que controla. No fundo, ele é uma paródia de Deus. Não por coincidência, o livro é permeado por uma linguagem de origem religiosa, o que antecipa as experiências místicas sui generis pelas quais o próprio Philip K. Dick iria passar. 

Sob esse prisma, seria justo interpretar Palmer Eldritch também como uma imagem do Anticristo ou de Satanás. Deus promete a imortalidade. Nós cumprimos a promessa, é o lema da empresa de Eldritch. Como Satã, ele caiu na Terra vindo dos céus. Como o tentador, promete aos homens: sereis como deuses. Como o Anticristo, realiza portentos para enganar e transmitir a cada homem a "marca da Besta".

A sua marca, por sinal, são os estigmas que impõe a todos os que tomam Chew-Z. Na história do cristianismo, diversos santos, após um encontro sobrenatural com Deus, receberam em seus corpos as marcas da crucificação de Cristo, as chagas dos pregos nas mãos e a chaga da lança. O caso mais famoso se deu com o santo medieval Francisco de Assis, no século XIII, após a visão de um serafim crucificado.

Eldritch tem o braço direito mecânico, dentes metálicos e olhos artificiais. Todos aqueles que usam Chew-Z , sua Eucaristia profana, o sacramento pelo qual torna-se presente em todos os usuários através da comunhão, trazem no corpo seus estigmas. Tal qual São Francisco, após sua experiência sobrenatural, eles carregam as marcas do Salvador.

A salvação é a promessa de um mundo melhor aos expulsos de seu planeta. O paralelo com a Queda é explícito. Os homens erraram, pecaram, destruíram seu planeta, a Terra, e foram expulsos para o exílio em Marte, como Adão e Eva expulsos do Paraíso. O salvador apresenta-se para oferecer-lhes um retorno ao mundo edênico. Mas o que ele oferta é, literalmente, un paradis artifficiel.

A mortalidade reveste-se de imortalidade, dizem as epístolas paulinas. Eldritch promete um novo corpo, imperecível e imortal aqui e agora. Até mesmo o tempo passa diferente para o usuário de Chew-Z. Dias e séculos em seus universos ilusórios significam segundos ou minutos no tempo do mundo real.

Eldritch é tudo em todos nesses universos. Ubiquidade, atributo especificamente divino e um tema que seria explorado em outro livro de Philip K. Dick, Ubik. Todos os usuários trazem as suas marcas e, de certo modo, são Eldritch. Ele é a essência por trás da aparência e a Chew-Z opera a transubstanciação química.

Ao fim, torna-se claro que Eldritch não é mais sequer humano, mas um receptáculo vazio de uma entidade que dele se utilizou para chegar à Terra. Como um possesso, seu corpo foi tomado por uma inteligência de uma outra ordem que o controla a seu bel prazer. E esta, longe de ser Deus, busca simplesmente sobreviver, reproduzir-se naqueles que infecta e, inclusive, mudar de carcaça humana.

O livro de Philip K. Dick, certamente um de seus mais ricos em temas e intuições, foi escrito em uma época em que o autor fazia uso constante de substâncias como o LSD e parece indicar uma busca do divino por meios químicos ou artificiais. Por outro lado, a figura de Eldritch, um deus ambíguo e demiúrgico, exibe tintas gnósticas, o que anteciparia temas que seriam depois desenvolvidos no final da carreira de Dick, sob impacto de suas heterodoxas experiências químico-religiosas, na inacabada trilogia iniciada em Valis.
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sábado, 30 de agosto de 2014

"Do Androids Dream of Electric Sheep?" de Philip K. Dick

O real e a imitação, o ser e a aparência, o verdadeiro e o falso dominam a trama de Do Androids Dream of Electric Sheep do escritor de ficção científica americano Philip K. Dick. Como em outros de seus livros, a atração e a busca por aquilo que é real é obstaculizada por inúmeras ambiguidades nascidas, desta feita, do progresso da capacidade humana de produção.

O natural e o artefato - outra modalidade da oposição entre o verdadeiro e o falso - aparecem como o centro de gravitação dos conflitos do livro. O homem produz obras externas a ele, que não raro são mais longevas que ele mesmo e que, por assim dizer, tomam uma "vida própria" ameaçando a vida de seu próprio criador.

Em 2019 a Terra é um planeta devastado por uma guerra atômica, a Guerra Mundial Terminus, que matou todos os animais e que obrigou boa parte da população - aquela que podia pagar - a emigrar para colônias em outros planetas. "Terminus" é o nome do deus romano dos limites e dos limiares. Ele marcava o fim e o início, a linha que distingue a entrada e a saída.

Fica evidente que a Guerra Mundial Terminus marcou o início de uma nova era, de um novo tempo no qual a Terra não é mais o habitat natural do homem. Ele é obrigado então a exilar-se, a fugir de sua própria casa, apartando-se de seu centro. Os eleitos ascenderam às estrelas, os proscritos foram deixados para testemunharem o "choro e o ranger de dentes" de um mundo condenado à decrepitude progressiva.

O mundo é coberto por uma camada radioativa crescente chamada de "A Poeira". É ela a responsável pela decomposição de toda a superfície da Terra e pelas mutações bizarras de muitos de seus habitantes. Entre estes figuram os "cabeça de galinha", aqueles que foram afetados pela Poeira a tal ponto que suas faculdades intelectivas embotaram-se até à idiotia. 

Foi o homem que lançou sobre si mesmo esse destino lúgubre pela invenção e uso de um de seus artefatos, a bomba atômica. Tal engenho humano destruiu o habitat próprio do homem, o seu nascedouro. Eis o primeiro exemplo de como o natural é vencido pelo artefato.

A fim de reparar sua hubris, os homens criam animais elétricos. Estes se tornam presentes em inúmeras casas daqueles que permaneceram na Terra. São artigo comum e barato. Enfim Descartes estaria certo: animais são máquinas regidas por inflexíveis leis mecânicas. 

Os homens, entretanto, não sonham com ovelhas elétricas. O mecânico pode até ser exteriormente idêntico ao animal legítimo, emular todos os seus comportamentos típicos e mesmo possuir programas a fim de simular doenças e até a morte. Mas é só um produto, mais um exemplar produzido industrialmente. Em uma palavra, mais uma cópia

Não somos todos cópias e não pertencemos todos à uma unidade formal que nos define, a espécie? Sob esse aspecto, não somos todos iguais na generalidade e diferentes na singularidade como qualquer carro produzido em série? Por qual razão os homens não sonham com ovelhas elétricas?

Ovelhas elétricas não são naturais. Há mais do que a relação entre universal e singular. O que funda a desvalorização da cópia produzida é justamente o fato de que ela é um artefato. Não é natural. É uma junção de partes anteriormente existentes e que são dispostas em uma ordem imposta de fora. O natural é um desenvolvimento a partir de si mesmo, no qual as partes e o todo são coetâneos, as partes se formando e assumindo funções tendo em vista a realização do todo.

O natural é mais real. O artefato imita o natural e não o inverso. Rick Dekkard, o protagonista, sonha com ovelhas verdadeiras. Elas custam caro, são vendidas em catálogos junto com outros animais. São sinal de status. Para ele é vergonhoso possuir uma ovelha falsa e por isso ele finge que a sua é verdadeira. Quando sua ovelha pára de funcionar, Dekkard determina-se a comprar uma ovelha real. 

Sua esposa não entende sua obsessão por uma ovelha verdadeira. Ela vive deprimida e escolhe o tipo de emoção que irá sentir utilizando um aparelho de modulação de emoções por ondas. Se quiser ficar feliz, escolhe no menu o número corresponde à alegria. Mais uma vez, o artefato domina o natural, toma o seu lugar. Nem mesmo as emoções e os sentimentos nascem espontaneamente. São produzidos por um engenho.

Dekkard é um caçador de "andys", andróides exteriormente idênticos aos humanos produzidos por megaindústrias como as organizações Rosen. O problema é que a perfeição dos engenhos humanos é tanta que o risco é de que eles se infiltrem entre os homens reais e acabem por dominá-los. O dever de Dekkard é impedir que isso aconteça. Cabe ele ser a linha de frente da distinção entre o natural e o artefato, aquele que decide o que é real e o que é falso, aquele que impede que a humanidade seja tragada por suas invenções.

Sua posição é a de todo homem: busca orientar-se precariamente entre a realidade e a aparência. Por isso ele é um sujeito comum, até mesmo apagado, sem graça e meio burocrático. Até como caçador de recompensas Dekkard não se destaca. É somente quando o melhor caçador é gravemente ferido por um andy que ele consegue ascender ao primeiro escalão de sua corporação. 

Ele não é exatamente "o homem certo para o trabalho certo". Ao contrário, ele é o que estava disponível, o segundo que finalmente se torna o primeiro somente pela ausência de alguém melhor. Nem mesmo ele seria a opção natural para o trabalho. Sua entrada no caso é também artificial.

Seis andys Nexus-6, os mais avançados no mercado, fugiram de Marte e pousaram na Terra. Depois de colocarem o melhor caçador de recompensas fora de ação, eles infiltraram-se na sociedade humana e desapareceram. A missão de Dekkard é "aposentá-los", isto é, matá-los. O que parece à primeira vista ser um mero eufemismo descortina-se em uma questão crucial: se eles são andróides, eles morrem? 

Um artefato não morre. Deixa de ser útil, perde sua validade, esgota-se, acaba sua bateria. Mas morrer, não morre. Quem morre são os que estão vivos. Os seres orgânicos e naturais. Sendo assim, matá-los, digo, aposentá-los não é uma questão ética. É como desligar um aparelho que já cumpriu sua função. Se os criamos, então os desligamos.

Se os andys são exteriormente idênticos aos humanos, se conseguem imitar os comportamentos humanos com perfeição, o problema evidente será saber como distinguí-los de humanos legítimos. Eles são somente res extensa, máquinas regidas por inflexíveis leis mecânicas. Mas nós não somos exatamente res cogitans, algo pensante, e sim algo empático. No livro de Philip Dick, o que nos distingue dos andróides é nossa capacidade de sentir empatia.

A empatia é o centro, por sua vez, do mercerismo. Não se sabe qual sua origem, mas esse culto é o que há de mais próximo de uma religião em todo o livro. Consiste basicamente em um aparelho de realidade virtual interativa na qual os "fiéis" testemunham a difícil caminhada ladeira acima de um homem idosos chamado Wilbur Mercer. Durante o processo, há uma união de todos aqueles conectados naquele momento e eles compartilham inclusive os ferimentos sofridos pelo idoso em sua subida.

Evidentemente, Mercer tem algo de Cristo. Sua mensagem é semelhante à mensagem de amor, embora se limite a um exercício momentâneo de empatia compartilhada. Mercer sofre, sua subida parece uma missão a cumprir e ela implica em sofrimento e sacrifício. Alguns afirmam mesmo que ele seja de origem não-humana, divina.

Estranhamente, é também um culto via artefato, uma liturgia - se assim podemos dizer - mediada por aparelhos, muito distante do contato direto com o transcendente através de uma real experiência místico-religiosa. A artificialidade é sua marca. Por medíocre e superficial que o mercerismo seja, reduzido como é a um congraçamento virtual baseado no sentimento, ele aparece como uma refirmação da natureza humana e da diferença essencial que separa os homens dos andys.

Os andys seriam capazes de fingir empatia, simular sua aparência externa. Não conseguem, contudo, fingir as micro-reações físico-corporais espontâneas e involuntárias que acompanham o sentimento de empatia em humanos. A distinção é feita na medição dessas reações em um teste de empatia chamado de escala Voigt-Kampf. Mais uma vez, é o natural que separa o verdadeiro do falso.

A medição, o quantitativo, o externo pretende identificar o que não é mensurável, o estado qualitativo, o interno, aquilo que é pessoal e intransferível, o que somente um ser animal individual vivo pode sentir. Eu não sinto a dor de um outro homem. Seu comportamento externo ma indica. Ele pode fingí-la, contudo, como um ator finge uma dor que não sente. 

O espontâneo e o involuntário não podem ser simulados. Eles são a sede da verdade, imunes ao falso. É neles que o fantasma na máquina se revela. A mão humana, entretanto, avança na imitação e ameaça essa fronteira que pode bem não ser intransponível. O teste Voigt-Kampf pode ser eficiente mesmo com os andys Nexus-6, os mais avançados robôs já criados. No futuro, pode tornar-se obsoleto. 

Há a possibilidade de que um humano seja tomado por um andy e que seja, em seguida, aposentado, digo, morto? Há homens bem pouco ou nada empáticos. Ainda assim permanecem homens. De todo modo, uma anomalia não anula a natureza. Impede-a de efetivar-se plenamente. Homens sem empatia são filhos de outros homens, portanto humanos. O problema é que Dekkard só tem um medidor de reações físico-corporais externas espontâneas para decidir quem é homem e quem não é.

O teste deve ser testado. Dekkard vai até as organizações Rosen para aplicar a medição Voigt-Kampf em diversos voluntários da empresa, entre os quais se encontraria pelo menos um Nexus-6. A sobrinha do sr. Rosen, Rachael Rosen, é sua primeira candidata.  Ele descobre que ela é, sem o saber, um andy. Memórias implantadas a fazem pensar que é humana.

Sabendo que o teste ainda é efetivo, Dekkard parte para a caçada. Um andy tenta matá-lo travestido como comissário soviético, um grupo de andys o captura e o conduz à uma central de polícia falsa e ele conhece um caçador de recompensas que acreditava ser um andróide. O falso como armadilha, o falso como proteção e o falso como erro.

Restam três Nexus-6 a serem aposentados e Rachael Rosen se oferece para ajudá-lo a caçá-los. Dekkard envolve-se cada vez mais a situação dos andys e começa mesmo a ter empatia por eles. Por fim, acaba tendo relações sexuais com Rachael. Esta, no entanto, maquiavelicamente, deita-se com o caçador de recompensas - como fez com seus antecessores - somente para fazê-lo envolver-se emocionalmente com ela a fim de que não fosse capaz de aposentar os outros andys, principalmente um que era idêntico à Rachael.

Dekkard encontra os últimos três andys no apartamento de um "cabeça de galinha" chamado Isidore em um prédio abandonado desde o fim da Grande Guerra Terminus. Isidore é infantilizado e pouco inteligente. Um filho perfeito dos novos tempos. Discriminado, vive solitário e encontra nos andys fugitivos um consolo para sua solidão. Mesmo que seus "amigos" não sejam capazes de amizade. Isidore é o homem tão degradado intelectual e emocionalmente que não vê problemas em buscar o afeto de quem claramente não é capaz de dá-lo.

Tal incapacidade fica evidente quando ele encontra uma aranha viva real e assiste uma das andys friamente cortar as patas do bicho simplesmente para saber com quantas pernas ele conseguiria andar. Nenhuma empatia é demonstrada. Eles são máquinas. E Isidore é ainda abalado pela notícia de que o mercerismo é uma fraude. Mercer na verdade é um ator fracassado em um cenário pintado.

Dekkard chega ao apartamento de Isidore e aposenta os três andys restantes. Ao contrário do que Rachael esperava, ele sequer hesita em aposentar sua cópia. Ele termina sua missão. E, ao chegar em casa, sua mulher conta-lhe que sua cabra - que ele havia comprado com o pagamento dos dois primeiros andys aposentados - estava morta, lançada do alto de seu prédio por Rachael.

Incapaz de empatia, como qualquer andy, Rachael sabe bem como sentem os humanos. Ela sabe como usar a humanidade contra os homens. Compreende conceitualmente o que é empatia, mas não a sente. Sua atitude seria a vingança de uma mulher apaixonada ou simplesmente mais uma imitação de uma reação legitimamente humana?

Na volta para casa Dekkard encontra um sapo vivo em uma área abandonada, deserta e sem vida. Mas para sua surpresa, o sapo também é mecânico. A fim de consolá-lo, sua mulher compra moscas artificiais para o sapo artificial. O artefato vence mais uma vez e se impõe ao homem.

Assim como ele se impõe ao próprio mundo na qualidade de "bagulho", a acumulação progressiva de artefatos humanos abandonados, inúteis, sem sentido que aos poucos toma a face da Terra. A deterioração progressiva do mundo pela ação da Poeira e do "bagulho" parece ser a última palavra da vitória do artefato sobre o natural, do falso sobre o verdadeiro. E parece não haver esperança.
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Leia também: http://oleniski.blogspot.com.br/2013/01/descartes-maquinas-animais-e-outras.html

domingo, 8 de dezembro de 2013

Philip K. Dick: ilusão e realidade em "O Homem do Castelo Alto"

"Sou um filósofo que faz ficção, não um romancista; minha capacidade de escrever histórias e romances é empregada como um meio para formular a minha percepção. O núcleo da minha escrita não é a arte, mas a verdade."

PHILIP K. DICK

"O Tao que pode ser descrito
 Não é o Tao eterno.
 O nome que pode ser dito
 Não é o nome eterno."

TAO TE CHING, I

É fato conhecido que o escritor americano de ficção científica Phillip K. Dick tem no questionamento da natureza da realidade o tema central de sua literatura. Em seus contos e romances os personagens são frequentemente postos diante de situações que os fazem questionar a realidade à sua volta e mesmo sua própria identidade como indivíduos.

No seu repertório de personagens figuram robôs que pensam ser humanos, robôs que exteriormente são indistinguíveis de humanos, homens cuja vida inteira foi criada artificialmente por meio de implantes de memória, mutantes dotados da capacidade de prever crimes antes que eles aconteçam e outras situações inusitadas que frequentemente colocam sob suspeita o senso da realidade objetiva.

Dick tinha formação filosófica e é evidente que a questão sobre o real se apresenta em sua obra sob a influência de autores dessa tradição. Perguntar-se sobre o que é o real, sobre o que há de fato sob o véu cambiante das aparências sensíveis é parte constituinte da filosofia desde seus primórdios.

O exemplo mais fácil e evidente é o da caverna de Platão, onde alguns infelizes vivem atados desde a infância diante de um muro de pedra onde podem assistir as sombras dos seres que passam na frente da caverna e, por jamais contemplarem o mundo exterior, consideram aquele mundo de sombras como a própria realidade. Platão considerava este mundo cambiante da experiência cotidiana uma cópia imperfeita que participava em certo grau da realidade imutável das Idéias. 

Na aurora da modernidade, a filosofia de René Descartes se insurge contra o realismo empirista de Aristóteles - para quem a experiência sensível é o dado evidente do qual deve partir todo o conhecimento científico - e, retomando temas do platonismo cristão de Agostinho e Anselmo, proclama a incerteza e dubitabilidade da experiência sensível e defende a busca por um conhecimento claro e distinto, totalmente apartado dos sentidos.

Segundo o método utilizado por Descartes nas suas famosas Meditações, as idéias claras e distintas serão aquelas cuja certeza resistirá a cenários céticos cada vez mais abrangentes. Assim, a primeira idéia clara e distinta - a certeza inabalável da existência do eu pensante - emerge dos escombros da negação metódica de toda evidência sensível e da postulação da hipótese hiperbólica de um gênio maligno que nos engana mesmo quando estamos certos da validade das relações matemático-geométricas.

A consequência é que aquilo que o meditante sabe com certeza indubitável é que é um ser pensante, puro pensamento, e, por conseguinte, tudo o mais, o mundo externo e seu próprio corpo, não têm mais nenhum caráter de evidência. Assim, ao contrário do que se afirmava na escolástica aristotélica, a primeira evidência não era mais o ser do mundo, que há mundo, mas  a existência deste deveria ser justificada pelo sujeito pensante a partir de razões indubitáveis. Mas, se tudo o que sei com certeza apodítica é que existo como ente pensante e todo resto pode bem não existir, como escapar do solipsismo?

Posso então estar vivendo uma ilusão na qual tudo o que creio ser verdadeiro é, na realidade, falso? Contudo, se sei que erro, sei também que acerto. Não posso saber que dei uma resposta errada sem saber qual a resposta certa ou, pelo menos, saber algo sobre o que deveria ser a resposta verdadeira.  O erro é devedor da verdade e, por conseguinte, a pressupõe. Daí que afirmar que tudo é ilusão é afirmar que o próprio critério da verdade e a própria noção da ilusão são ilusórios. Seria possível afirmar com sentido a negação hiperbólica de tudo ?

Não obstante, a questão da existência do mundo externo tornou-se parte integrante da filosofia e influenciou a literatura e diversos outros ramos da cultura. E como foi dito acima, é certo que a literatura de Dick se insere nessa tradição. Um de seus romances mais interessantes, o premiado The Man in the High Castle, de 1962, trata exatamente de uma realidade alternativa na qual o Eixo venceu a segunda guerra e dividiu entre si os EUA e o resto do mundo. 

O falso e a ilusão se apresentam por toda a extensão da trama: o comerciante que quer parecer ser mais do que realmente é, o falsificador que produz pretensas peças históricas em escala industrial, os japoneses que imitam perfeitamente outras culturas e escondem habilmente seus sentimentos e emoções, o judeu que se esconde sob um nome falso para escapar aos nazistas, o agente alemão que chega sob disfarce aos EUA para encontrar-se com um general japonês disfarçado de turista, a mulher que acha que está no controle de sua relação com um jovem caminhoneiro herói de guerra, a trama enganosa que levará o mundo a uma nova guerra mundial, a representação comercial japonesa usada como disfarce de uma operação militar e, por fim, o escritor que descreve em um romance um mundo no qual o Eixo perdeu a guerra.

Em meio a tantas ilusões e disfarces, diversos personagens tentam manter seu senso de orientação e de realidade nesse mundo utilizando-se para isso do I Ching, oráculo milenar chinês. Ao final do livro, é justamente o I Ching que revelará a realidade objetiva que mostrará a todos - e também ao leitor - que aquilo que eles tomavam como certo e verdadeiro era também uma ilusão.

A realidade a que todos se acostumaram a considerar como efetiva mostra-se falsa. Contudo, ao mesmo tempo, em um só golpe, a verdade é revelada. Conhece-se o erro ao se conhecer a verdade. Em outros termos, é o Tao que revela a realidade. É somente à luz do absoluto que se conhece o relativo. 

Não foi por um apelo ao ilimitado, cuja idéia não poderia ter sido produzida por um ente pensante passível de engano e, portanto, limitado, que Descartes pretendeu sair do solipsismo do eu e, por fim, alcançar a certeza da realidade e da natureza do mundo externo?

O ilimitado surge como a fonte do limitado e que, por isso, pode revelar a real natureza deste. Só se conhece aquilo que se ultrapassa, aquilo do qual se conhecem os limites que o circunscrevem. Como uma estrada na qual se caminha e da qual só se divisa a extensão quando os olhos alcançam seu termo. Daí que a resposta para a realidade se encontra naquilo que o I Ching revela, naquilo que se encontra no eixo vertical da realidade ultrapassando todas as limitações, mutações e relatividades da horizontalidade.

Dessa forma, o livro de Dick parece indicar onde a realidade repousa e sob a luz do quê ela pode ser divisada. Sub specie aeternitatis.