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terça-feira, 7 de junho de 2016

"Ame Agaru" e a inadequação da virtude

"E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma só ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não há de lançar mão dela, e tirá-la?" (Mateus 12,11)

Ame Agaru ("Após a Chuva"-1999), roteiro de Akira Kurosawa e filmado após sua morte, conta uma história simples: um ronin, Ihei Misawa, e sua esposa são detidos em uma hospedaria por uma forte chuva que tornou impossível a travessia de um rio no caminho de sua viagem. A hospedaria é simples, pobre e habitada por gente de baixa extração social.

Vendo a pobreza do lugar, Misawa organiza um grande banquete a fim de alegrar seus habitantes. Como não tem renda e nem emprego, dedica-se a lutar por dinheiro. Sua esposa, no entanto, o obrigou a prometer nunca mais arriscar-se nesses duelos. 

Certo dia, o tempo já melhorado, sai sozinho para passear e treinar na floresta e, inadvertidamente, vê-se diante de um duelo entre jovens samurais de um chefe local. Habilmente, ele interfere na luta e desarma os oponentes. Nesse ínterim, é visto pelo chefe local, o Senhor Nagai Izuminokami Shigeaki.

Impressionado com sua destreza, Shigeaki convida Misawa para ser seu mestre-de-armas. Este reluta, pois nunca conseguira firmar-se no serviço de nenhum senhor. Por fim, Misawa vai ao castelo de Shigeaki, onde é muito bem recebido e reverenciado. 

Não obstante, quando Shigeaki anuncia seus planos para Misawa, seus outros servidores exigem uma demonstração pública do talento de Misawa como espadachim, pois essa era a tradição. Contrariado, Shigeaki aceita a exigência. Ocorre que o ronin facilmente derrota dois dos espadachins de Shigeaki no combate com bokutos (espadas de madeira).

Como ninguém se apresentasse para duelar com Misawa, o próprio Shigeaki tomou uma lança de verdade e foi ao encontro de Misawa. Este, contudo, no afã do combate, derruba Shigeaki na água na frente de todos os deus subordinados. Misawa pede sinceras desculpas, não obtendo mais do que aumentar a raiva de Shigeaki que se ofende com a bondade e a gentileza do ronin.

Desolado, Misawa volta para a hospedaria sabendo que estragara tudo de novo. No caminho de volta, um grupo de subordinados de Shigeaki, ofendidos com Misawa, tentam matá-lo. Este os adverte que não prossigam com seu intento, pois ele  facilmente se deixava levar pelo impulso violento do combate e pedia o controle.

Eles não lhe dão ouvidos e são facilmente derrotados e feridos, sendo um deles morto pela espada de um de seus próprios companheiros. Nesse momento, Misawa sabe que seu destino está selado. Ele não será mais mestre-de-armas do castelo de Shigeaki.

Nesse ínterim, o tempo firma-se e o rio volta a seu volume normal. Misawa e sua esposa preparam-se para partir. O ronin ainda acalenta alguma esperança de ser contratado, mas logo ela é desfeita pela chegada de subordinados do chefe Shigeaki que o informam que, a despeito de seus grandes e evidentes talento e habilidade, ele não será chefe-de-armas porque dedicou-se a combates por dinheiro, algo desonroso.

A esposa de Misawa intervém e defende o marido dizendo que o único motivo pelo qual ele deedicava-se a esses combates era o desejo de ajudar as pessoas. O que importa não é o que se faz, mas razão pela qual se faz algo. Se assim Misawa ajuda os miseráveis e os desamparados, por qual razão as convenções devem ser seguidas?

Esse é o cerne de Ame Agaru. O costume pode obnubilar a visão, impedir que se reconheça que há uma lei mais profunda que os costumes externos da comunidade e à qual a alma humana deve obedecer, ainda que sob o preço da desonra e do desprezo públicos.

É porque Misawa é bom que ele é malsucedido socialmente. Enquanto os outros guiam-se por tradições caducas que não refletem ou enobrecem o espírito, Misawa busca a vida virtuosa que se esconde por trás dos atos aparentemente escandalosos ou desonrosos. A virtude não está no cumprimento cego de normas externas vazias e sim na ordenação da alma segundo valores inegociáveis que transcendem os passageiros acordos e convenções humanas.

A virtude de Misawa é interpretada como arrogância pelo senhor Shigeaki. Este sente-se ofendido menos pela derrota no combate do que pela preocupação e gentileza demonstradas por Misawa após sua vitória. A pretensa humilhação pública é seu único horizonte moral. Ele não consegue enxergar que ali em Misawa manifesta-se bondade e respeito legítimos e não a mera adulação exterior de seus subordinados.

Em sua juventude, Misawa, levado pela ambição de chegar a Edo, viajara aplicando um golpe em diversos dojos por onde passara. Ele entrava no dojo e, sem nenhum desejo sincero de vencer, desafiava o sensei para um combate. Antes que o adversário pudesse desferir o primeiro golpe, Misawa rendia-se dizendo-se derrotado. O sensei,então, ficava favoravelmente inclinado com relação a Misawa e o chamava à sua mesa e, por vezes, dava-lhe dinheiro.

Certa vez, contudo, diante de um grande mestre espadachim, Tsuji Gettan, Misawa estava prestes a render-se, como de costume, quando foi surpreendido pela rendição de seu nobre adversário. Este explicou a Misawa que, mesmo tendo lutado com muitos espadachins, não soubera o que fazer diante de alguém tão calmo e sem nenhum sinal de desejo de vencer.

Tsuji Gettan toma Misawa como discípulo e ensina-lhe tudo o que sabe. Está aí a origem de sua técnica imbatível. Misawa torna-se servo de um senhor, mas nada dá certo e ele volta à estrada. o mesmo acontece com mais dois senhores posteriormente. Misawa parece não servir para nada, como ele mesmo confessa.

Apesar disso, Misawa encontra um bom uso para suas habilidades. Elas servem aos pobres e necessitados. Ele não ambiciona vencer combates e duelos. Na verdade, Misawa não se encaixa em nenhuma das expectativas daqueles que o cercam. Mesmo sua gentileza parece deslocada e exagerada.

O rio caudaloso que interrompe a viagem de Misawa e de sua esposa representa o fluxo incessante dos assuntos mundanos que, por vezes, impedem a passagem e o seguimento do caminho verdadeiro. É um obstáculo acompanhado de uma forte tentação pela mundanidade e pelo sucesso exterior. É um nó que deve ser desatado por uma iluminação interior.

Essa iluminação se dá na figura da esposa de Misawa que, diante dos emissários de Shigeaki, ainda na hospedaria, finalmente compreende os motivos do esposo para continuar a duelar por dinheiro a despeito de sua promessa de não fazê-lo. Tendo compreendido, a esposa libera-o de seu juramento e diz a ele para duelar sempre que for preciso, se for para ajudar os pobres e os necessitados.

Misawa e sua esposa só podem atravessar o rio quando conformam-se com sua condição e compreendem as implicações da opção pela bondade e pelo caminho verdadeiro. A estrada agora está aberta e a recompensa não tardará.

Informado por seus servos dos reais motivos dos duelos por dinheiro de Misawa, Shigeaki percebe seu erro de julgamento e parte ao encalço de Misawa. Este e a esposa, porém, já estavam fora do alcance de Shigeaki. O homem cego pelos costumes não alcança o homem da virtude.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

"Trono Manchado de Sangue": ambição, usurpação e o triunfo do mal

"Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas." (Lucas 22:53)

O casal homem-mulher é símbolo do homem tomado como unidade substancial, como inteireza que unifica e dá sentido às potências distintas, mas não separadas, da alma. A mulher representa a parte nutritivo-apetitiva e o homem representa a parte intelectiva. A ordenação homem-mulher reflete a ordenação sadia das potências humanas: o intelecto governando a escolha dos bens apetecíveis.

No Éden, Adão é tentado não pela serpente, mas por Eva. Esta, ao receber a fruta da serpente, representa simbolicamente o apetite humano que se inclina àquilo que considera um bem. A fruta é símbolo de um bem correspondente àquela porção mais básica e menos humana da alma. Não à toa é uma serpente a tentadora. É o animal, o apetite, que dita a dinâmica dos atos. A mulher, a parte apetitiva, abaixa-se ao nível do animal ao conceber em si o desejo por bens tão pedestres.

Contudo, em si mesmos, os bens mais pedestres não são maus. Tornam-se maus quando usurpam o lugar dos superiores. É o que acontece quando Eva apresenta a fruta a Adão. O princípio intelectivo não mantém a ordenação sadia das potências, mas abaixa-se para provar o bem imediato e pedestre, esquecendo o summum bonum.

A proibição divina manifesta a hierarquia das coisas. A árvore no centro do mundo ascende simbolicamente como uma escada aos céus. Ao escolher seus frutos e não seu Criador, o homem escolhe os bens pedestres ao invés do único bem verdadeiro.  Por isso o homem passa a conhecer o bem e o mal. Não porque um dependa do outro, mas porque o mal só aparece no recuo do bem. O homem perfeitamente ordenado não conhece o mal pois tudo nele é bom. O mal só se apresenta como ausência da perfeição. O mal é perda.

O equilíbrio perdido é dificilmente recuperável e o destino dos homens é viver fora do Éden, fora da perfeição harmoniosa de sua natureza, contudo sempre anelando pelo dia do retorno. Cada homem, então, é um Éden desfeito, tendo em si um Adão e uma Eva desterrados, ansiosos pela conjugação perfeita de suas potências.

O horizonte simbólico de Kumonosu-jo (Trono Manchado de Sangue), filme clássico do grande diretor japonês Akira Kurosawa, é também formado pelo casal - Washizu (Macbeth) e Lady Asaji (Lady Macbeth) - , pelo desejo proibido, pela usurpação e pela desgraça que dele se segue. Baseado em Macbeth, de William Shakespeare, a trama sombria do filme segue as linhas gerais da peça trágica do bardo inglês.

Taketoki Washizu (interpretado pelo fantástico Toshiro Mifune) é um nobre guerreiro corajoso e leal que conduz os exércitos de seu senhor Kuniharu Tsuzuki (rei Duncan) à vitória sobre seus inimigos, revertendo uma derrota quase certa. Ao final da batalha, ele parte com seu fiel amigo Yoshiteru Miki para apresentar-se a seu senhor.

No caminho, ambos são surpreendidos por uma tempestade e, perdidos, acabam por encontrar uma choupana onde uma velha fiandeira os recebe com saudações as mais surpreendentes. A Washizu ela diz que ele será o senhor do castelo do Norte e, por fim, senhor do Castelo da Teia de Aranha, onde agora reina seu senhor, Tsuzuki. A Miki a anciã declara que ele será senhor do primeiro castelo e que seu filho será senhor do Castelo da Teia de Aranha. 

Ao ser ameaçada por Washizu, a velha desaparece tal qual um espírito.  Os guerreiros retomam seu caminho pensativos e, chegados ao castelo de seu senhor, por ele são calorosamente recebidos. Como recompensa, Tsuzuki nomeia Washizu senhor do castelo do norte e Miki senhor do primeiro castelo. Ambos dão-se conta que a velha misteriosa havia dito a verdade.

A velha fiandeira que prediz o futuro traz em si algo das três Moirae - Lachesis, Athropos e Clotho -, deusas que fiavam, mediam e cortavam o fio da vida humana na mitologia grega. Elas sabem o destino dos homens, por isso podem proclamá-lo. Na fala da velha, ver-se-á ao final, há a ambiguidade tradicional das profecias: o que é predito realiza-se de uma forma inesperada, frustrando as expectativas e as interpretações daqueles sobre os quais elas versam.

O que a velha espectral profetiza põe em movimento a roda dos acontecimentos funestos apresentados na trama. É ela, no entanto, a causa das desgraças de Washizu? Este não estaria condenado a buscar a realização daquela profecia simplesmente pelo fato de a haver dela tomado conhecimento?

Washizu já tivera antes em seu íntimo o desejo de tornar-se rei, sem dúvida. Não poderia ser diferente em se tratando de um guerreiro nobre. Mesmo assim, do desejo ao crime há um grande abismo. Ainda mais se o caminho que leva ao trono implica na quebra de leis sagradas como as da lealdade e da hospitalidade.

Humanamente, nada o obriga a cometer tão horrendo crime. Ele foi plenamente honrado por Tsuzuki com bens largamente condizentes com sua bravura na guerra. Nada lhe foi tirado. Não há uma Bríseis e nenhum Agamemnon para a fúria de Aquiles. Nenhum motivo justificaria um assassínio covarde como o que Washizu irá cometer.

A velha etérea dá voz ao desejo íntimo do coração de Washizu. Ela, de certa forma, age como a serpente a formular claramente o que o casal edênico já desejava. Toda tentação é tentação porque corresponde a alguma disposição apetitiva já presente no tentado. Washizu quer ser o senhor do Castelo da Teia de Aranha.

Mas nada disso implica que Tsuzuki deva ser assassinato. Esse é o ponto crucial da tragédia. É aqui que Washizu mostra seu verdadeiro caráter. Sua reação a dois componentes novos na situação determina os rumos da trama e o destino de sua alma.

Em primeiro lugar, uma oportunidade apresenta-se como que fortuitamente. Tsuzuki, em viagem, irá hospedar-se no castelo de Washizu. O guerreiro compreende facilmente que pode chegar ao trono simplesmente matando seu senhor durante a noite. Ele tem consciência clara da gravidade de tal ato. Hesita.

Então entra o segundo componente, as palavras de sua esposa, Lady Asaji. A mulher cobra-lhe a atitude de "verdadeiro homem", insinua que ele é covarde, apresenta-lhe todo o esquema do assassinato, humilha-o com seu desprezo, instila a desconfiança contra Tsuzuki em seu íntimo, alimenta a sua ambição.

Washizu, fraco, cede. Lady Asaji já usurpara o seu lugar e Washizu capitulara ante as palavras da esposa. O crime se dá como o planejado. Asaji embebeda as sentinelas e Washizu penetra livremente nos aposentos de Tsuzuki e o mata. O alarme é soado por Asaji e Washizu, fingindo comoção diante dos outros hóspedes, mata as sentinelas adormecidas antes que pudessem dizer qualquer coisa.

A trama da usurpação do trono por Washizu reflete exteriormente a usurpação do mal sobre a virtude no interior das almas de Washizu e de Lady Asaji.  Se tomados como uma unidade, o guerreiro e sua esposa simbolizam o homem cuja ordenação das potências da alma desfez-se. Tragado pelo desejo, pela ambição, todas as regras mais fundamentais são quebradas pelo homem desordenado.

O castelo é a árvore do bem e do mal. É o eixo do mundo. A usurpação é exatamente a tentativa de conquistar o bem supremo identificando-o com os bens pedestres. Washizu toma o trono que não lhe pertence e assim instala simbolicamente no centro do mundo seus próprios desejos. É ele agora que define o bem e o mal. Washizu não se submete à hierarquia das coisas, mas, ao contrário, revolta-se contra ela e a subverte.

Visto por esse prisma, Washizu não é menos que demoníaco. Que é o demônio senão um anjo que desviou seu rosto da contemplação divina para a contemplação de seus próprios desejos? Tsuzuki, seu senhor, representa a virtude e o direito. Ele é justo e recompensa generosamente aqueles que lhe são leais. Washizu provou dessa generosidade. Porém, isso não é suficiente. Ele quer o lugar de Tsuzuki, mesmo não possuindo a envergadura moral para sentar-se no trono. "Better to reign in Hell, than to serve in Heaven", diz o Lúcifer de Milton.

Washizu reina e o horror instala-se. A profecia sobre o filho de Miki tornar-se um dia rei atormenta-o e Washizu ordena secretamente a morte de seu antigo amigo, sem contudo conseguir assassinar o filho. Este foge para junto do filho de Tsuzuki e seus homens no exílio.

O mal que Washizu realizou começa a exigir vingança. O fantasma de Miki atormenta-o durante um banquete. A consciência dá sinais de impor-se pelo remorso. A tragédia abate-se sobre ele: Lady Asaji engravida logo em seguida, mas a criança nasce morta. Não haverá herdeiro do Grande Senhor Washizu.

Unidos em torno do filho de Tsuzuki, seus inimigos iniciam uma guerra de reconquista e tomam os castelos de Washizu, restando-lhe somente o Castelo da Teia de Aranha. Onde buscar auxílio senão nas forças que profetizaram sua chegada ao poder? Washizu consulta a velha etérea e esta promete-lhe que nada deverá temer enquanto a floresta da Teia de Aranha não atacar o castelo de Washizu.

Os inimigos de Washizu acampam na floresta para atacar sua fortaleza. Ele nada teme. Confiante que está na profecia, revela-a a seus homens reunidos para o combate. Não obstante, sinais de desgraça acontecem. Pássaros entram na fortaleza em debandada. Lady Asaji sucumbe ao remorso e à dor pela perda de seu filho e enlouquece. O desfecho está próximo.

Por fim, ao alvorecer, uma sentinela apavorada lhe diz que a floresta avança contra a fortaleza. Washizu, desesperado, contempla pela torre o movimento das árvores. Seus inimigos cortaram-nas e usaram-nas como cobertura para seu avanço. Mais uma vez o sentido da profecia era ambíguo e obscuro. A profecia cumpriu-se exatamente como fora profetizada. Washizu ouviu o que queria ouvir.

Os soldados de Washizu, sabendo da profecia de sua derrocada, alvejam seu senhor com inúmeras flechas e o matam. O ciclo da violência e do crime encerra-se. Washizu, o assassino de seu senhor, é morto por seus homens. O destino do ambicioso e criminoso é a morte pelas mãos das próprias forças que ele conjurara.

sábado, 23 de janeiro de 2016

"Ran", caos, cegueira e decadência

“Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada, pela espada morrerão." (Mt 26,52) 

Ran (1985), de Akira Kurosawa, é um filme sobre a decadência, a cegueira e o caos que resulta de ambos. Sombrio como Trono Manchado de Sangue e também inspirado em uma tragédia de Shakespeare, o filme apresenta a queda e a desgraça de um lorde guerreiro ancião como consequências de suas próprias escolhas passadas e presentes.

A trama inicia-se após uma caça na qual toma parte o senhor guerreiro Hidetora Ichimonji, já ancião, seus três filhos, Taro, Jiro e Saburo, e dois de seus antigos inimigos, igualmente senhores guerreiros, Ayabe e Fujimaki. Ichimonji anuncia a inesperada decisão de renunciar ao comando de seu clã, embora mantendo seu título e as honras respectivas, passando-o a seu filho mais velho, Taro. Os outros dois filhos deverão, dali por diante, ajudar e apoiar o irmão.

Taro e Jiro concordam, mas Saburo percebe o perigo dessa decisão e insta o pai a voltar atrás. Segundo Saburo, a divisão e a destruição seriam as consequências de tal desarrazoada medida. Ao mesmo tempo, Tango, fiel conselheiro, concorda com Saburo e suplica a Ichimonji que reconsidere. 

O chefe ancião, ao invés de ouvir o filho, expulsa-o de seus domínios bem como a seu antigo conselheiro, Tango. Ichimonji logo percebe que seu status não se manterá intacto, pois Taro - instigado pela esposa Kaede, filha de um antigo senhor da guerra morto por Ichimonji -  obriga o pai a assinar um documento no qual abdica de todos os seus direitos. 

Ichimonji parte do castelo de seu filho e busca abrigo no castelo de Jiro. Este, porém, temendo desagradar o irmão, não o recebe devidamente e o ancião parte ofendido e sem rumo com seu séquito de concubinas, seu bobo e seus trinta guerreiros de escolta. Logo em seguida fica sabendo que Taro o havia banido e que ninguém poderia recebê-lo sem indispôr-se com o novo chefe do clã.

O velho guerreiro então dirige-se ao terceiro castelo de seus antigos domínios e o toma para si. O infortúnio de Ichimonji, entretanto, torna-se maior, pois as forças conjugadas de Taro e de Jiro atacam o castelo, massacram suas concubinas e seus guerreiros e o expulsam de lá. Mais uma vez, o ancião deve vagar sem rumo, agora somente na companhia de seu bobo e de seu antigo conselheiro banido que retornara ao mestre.

A desgraça não cai somente sobre Ichimonji, Taro é traiçoeiramente morto por um dos homens de Jiro durante a confusão do sítio do castelo. Jiro torna-se então o novo senhor do clã Ichimonji. Desafortunadamente, o segundo filho do velho guerreiro é fraco e logo cai sob a nefasta influência da viúva de seu irmão, Kaede. Esta o faz repudiar e prometer a cabeça de Sue, a sua legítima esposa.

Sue, tal qual Kaede, é filha de um senhor da guerra morto pelo patriarca Ichimonji. Ao contrário de Kaede, contudo, Sue não odeia o velho, não ambiciona vingar-se do clã Ichimonji e busca consolo e transcendência nos pacíficos rituais budistas.

Enquanto isso, o ancião, desamparado e desabrigado, colapsa mentalmente por conta dos infortúnios que sobre ele se abateram e é conduzido por seu bobo e Tango até as ruínas de uma velho castelo em busca de abrigo. Lá encontram um jovem cego, Tsurumaru. Este reconhece o velho como o antigo senhor Ichimonji que o cegara quando garoto. Tsurumaru é irmão e Sue e aquele castelo pertenceu a seu pai, morto por Ichimonji.

Saburo, exilado nas terras de Fujimaki, retorna pacificamente para buscar seu pai, apoiado de longe pelas forças Fujimaki e de Ayabe. Jiro, instigado por Kaede, move guerra a seu irmão e é derrotado e morto pela coalizão das forças dos antigos inimigos de Ichimonji. Saburo encontra o pai, mas é logo morto por remanescentes das tropas de Jiro. Ichimonji não suporta mais esse revés e morre sobre o cadáver do filho que exilou.

Por toda a obra imperam a decadência e a cegueira. Em primeiro lugar, o ancião, símbolo da sabedoria, é o mais iludido de todos e sua fraqueza é sintoma da decadência dos tempos. O que esperar de um tempo em que mesmo os idosos são tão incapazes de enxergar a realidade? Ichimonji não é capaz de perceber a verdade diante de seus olhos. 

Ele não percebe que é Saburo, o impulsivo e inconveniente, quem realmente o ama e não os ambiciosos Taro e Jiro, exteriormente solícitos e obedientes. Tudo decide-se naquele momento fatídico em que Ichimonji não foi capaz de ver a realidade por baixo das aparências. A aparente insolência de Saburo era, na verdade, conhecimento da realidade e amor filial. A aparente obediência de seus irmão era, no fundo, bajulação e dissimulação.

Taro e Jiro, por sua vez, são tão cegos quanto o pai, pois não vêem as intenções reais de Kaede e, fracos, deixam-se iludir pelos ardis de uma mulher cuja única motivação é a destruição do clã Ichimonji. Ela consegue o que quer, mas ao preço de sua própria vida. Sua cegueira vingativa nasce dos atos passados de Ichimonji. 

O mesmo destino é reservado a Sue, morta por ordens de Kaede. Aparentemente, não há recompensa para a virtude de Sue além da vida sem ódio e da prática transfiguradora dos ritos sagrados. Kaede busca sua própria ruína por conta de sua revolta e de seu desejo de vingança. Sue é tragada pelo caos que a cerca, mesmo buscando o caminho da compaixão. Ambas são vítimas do desequilíbrio criado pelos Ichimonji.

A inescapabilidade das consequências dos erros passados parece explicar o destino de Ichimonji. O patriarca, ainda na tenra juventude, no afã de construir seu domínio, espalha dor e caos. Kaede, Sue e Tsurumaru têm suas vidas destruídas por ele. O caso de Tsurumaru é simbólico. Ichimanji poupou sua vida, mas cegou-o. 

Tsurumaru é cego corporalmente. Ichimonji é cego no espírito. O paralelo é interessante porque a tortura física imposta a Tsurumaru simboliza e exterioriza a própria cegueira de Ichimonji. Há hubris na gênese do caos que se abate sobre ele. De certo modo, aquilo tudo não é fortuito. O círculo está simplesmente completando-se. Há uma lógica trágica operando no desenrolar dos eventos.

Ichimonji é incapaz de discernir corretamente o que tem diante de si. Até seu bobo sabe o que acontece e ousa dizer-lhe sem temor. Mas a perplexidade diante da gravidade dos fatos não o ajuda a entender o que se passa, mas o lança nos braços da loucura. Não há tempo para a sua redenção plena, pois Saburo morre antes que possa desculpar-se propriamente. Isto é, há um curto momento de retorno à lucidez e depois sobrevêm nova desgraça e, por fim, a morte.

O bobo desespera-se e censura Buda e os deuses por aparentemente divertirem-se, do alto de suas moradas espirituais, com as desventuras humanas. Tango, o sábio conselheiro de Ichimonji, retruca que os deuses não se divertem com tal espetáculo patético, mas sim lamentam e entristecem-se com o fato de que os homens preferem a guerra à paz, o horror à felicidade.

Ran (caos) é um conto sombrio sobre triunfo do mal. Há esperança? Em uma das últimas cenas, Tsurumaru, o cego, carrega consigo um rolo e o deixa cair do alto das ruínas de seu antigo castelo. Este desenrola-se na queda e revela ser uma imagem dourada e resplandecente de Buda, a mesma diante da qual a irmã de Tsurumaru, Sue, buscou consolo, redenção e libertação do ódio por Ichimonji.