sábado, 3 de maio de 2008

Berdiaev, Liberdade e Bem Absoluto


Visão de Deus - William Blake


Berdiaeff afirma que o bem não pode ser imposto de fora para o homem, mas sim acolhido num ato de vontade livre que pressupõe inclusive a possibilidade da renúncia ao bem e a escolha destruidora do mal. É por querer ser escolhido livremente e não por imposição que, segundo Berdiaeff, Deus cria o homem livre. E é por isso que Deus não cria um mundo perfeito como gostaria Ivan Karamazov.


Mas Berdiaeff está enganado. Embora esteja certo em negar que o bem deva ser imposto, uma distinção importante lhe escapa. No mundo é difícil distinguir e conhecer o que é bom. Nem aquele que pretende impor o bem nem aquele a quem o bem é imposto podem ter certeza do caráter de bondade daquilo que é oferecido.


Entretanto, Deus não se impõe. Deus é reconhecido. Reconhece-se nele o ente absoluto e a fonte de tudo e, por conseguinte, o bem absoluto. Não há liberdade aqui simplesmente porque ela não é necessária. Não há escolha possível , pois Deus é, como dizia Abelardo, "onde os desejos serão satisfeitos antes mesmo de serem concebidos e a satisfação não será menor que o desejo".


A idéia de Berdiaeff de que Deus não quer se impor ao homem se torna insustentável uma vez que o bem absoluto não se impõe, mas é irresistivelmente reconhecido como tal. Uma vez diante Dele nada há que escolher.

Assim, é perfeitamente claro que Deus poderia criar os homens com plena e completa comunhão com Ele sem absolutamente nenhum prejuízo para a dignidade dos mesmos.

domingo, 13 de abril de 2008

Utopia and violence




" Do not allow your dreams of a beautiful world to lure you away from the claims of men who suffer here and now. Our fellow men have a claim to our help; no generation must be sacrificed for the sake of future generations, for the sake of an ideal of happiness that may never be realized. In brief, it is my thesis that human misery is the most urgent problem of a rational public policy and that happiness is not such a problem. The attainment of happiness should be left to our private endeavours. "

SIR KARL POPPER

sábado, 15 de março de 2008

Céus de Mishima




Com que então pertenço aos céus?
Não fosse assim, por que é que os céus
Me olhariam assim com seu eterno olhar azul,
Me chamando, e à minha mente, mais alto,
Sempre mais alto, sempre mais acima,
Me chamando sempre para o máximo,
Para alturas que homem algum imagina?
Por que, estudado o equilíbrio
E o vôo planejado até a última minúcia,
Até não haver margem para o infortúnio,
Por que, até aí, deve a ânsia de subir
Ser associada à insânia?
Nada nesta terra vai me ver satisfeito;
Novidades do mundo, logo monótonas;
Algo me chama lá em cima, para cima,
Cada vez mais perto da faísca do sol.
Por que me queimam estes raios da razão.
Por que me destroem estes raios?

Trecho do poema "Ícaro" de Yukio Mishima, traduzido por Paulo Leminski

quinta-feira, 6 de março de 2008

Da irresistibilidade divina

Shestov dizia que toda a função e objetivo da filosofia se resumia na busca pela Necessidade e na pregação de uma submissão servil à ela. No fim das contas, a idéia de verdade traz em si a marca do constrangimento.
Frente à verdade, todo e qualquer ser racional sente-se constrangido, obrigado à se curvar. Shestov talvez não tenha percebido, mas nada há de mais constrangedor do que Deus. Que rebeldia, que escolha, que liberdade pode se ter diante do Absoluto? Como Lúcifer pode cair, em favor de que outro pode ele se rebelar, se nada há além de Deus?
É somente na ignorância do Absoluto que se pode pecar, escolher, errar, padecer e, enfim, ter livre-arbítrio... Não se tergiversa diante do Único. Perde-se a si mesmo irresistivelmente Nele.

Da monotonia estéril

O que quero quando argumento? Qual meu objetivo quando, exposta a tese de meu interlocutor, passo a analisá-la, a confrontá-la com teses contrárias, a desfiar o rol de suas conseqüências? Que outra coisa senão o esclarecimento da própria questão e dos requisitos de sua solução? Algo mais se agita na profundidade.

Meu movimento de cerco, aracnídeo, tece com o objetivo de imobilizar. Não há nisso algo de vingativo? “Como pode ele ainda propor teoria? Como pode, despudoradamente expor uma intuição, ter o frescor inocente da confiança?” Então parto para converter o infiel para minha seita de impotência e de cansaço. Conduzo-o, insidiosamente, pelos caminhos da palavra à morte do mutismo.

Faço-o ver que sua confiança inocente é culpada de loucura. É viva demais, indecente. Há que se tornar lúcido, ou seja, morto. Meus argumentos são os instrumentos que uso para proibí-lo de ser outra coisa que não seja eu. No fundo, é o desejo de uma monotonia estéril. É o imperialismo dos impotentes.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Homenagem pessoal a Dom Odilão (continuação)

Sua didática no curso era admirável, sucinta e clara. As aulas eram permeadas pelo sabor da busca inteligente do conhecimento e da verdade, bem como por um clima de amizade respeitosa.

Antes das aulas, num banco de granito do lado da porta direita de entrada do mosteiro, Dom Odilão sentava-se, apoiado com as duas mãos em sua bengala, e recebia os alunos mais chegados para conversas livres sobre filosofia e espiritualidade.

Num desses dias, sentado ao seu lado, Dom Odilão fez-me um elogio que me marcou profundamente. Ele me disse que eu deveria sim me dedicar à filosofia e que um dia eu seria um grande filósofo. Não sei se sua profecia se realizará, se estou à altura dela, mas certamente suas palavras e sua generosidade foram decisivas para mim naquele momento de desorientação e cansaço.

Aquelas aulas renovaram em mim o ardor filosófico e marcaram indelevelmente minha vida intelectual posterior. Posso dizer, com orgulho e amor, que Dom Odilão foi meu mestre em filosofia e, se alguma virtude intelectual eu tenho, seja qual for, ela foi plantada naqueles cursos tanto pela sabedoria de Santo Tomás quanto pelo exemplo de Dom Odilão Moura.

Homenagem pessoal a Dom Odilão Moura OSB




Era o ano de 1998 e eu, recém saído da vida religiosa consagrada, achava-me num estado de tristeza e desorientação. Naquele ano difícil alguém me falou sobre um monge beneditino filósofo que dava cursos sobre Santo Tomás de Aquino.

Embora desde o meu ensino médio eu já houvesse tido os primeiros contatos com a filosofia e a teologia e tivesse estudado com afinco, por iniciativa própria, a Patrística e a Suma tomista nos meus anos de convento (reiteradas vezes desencorajado por meus superiores), ainda não havia estudado sob a orientação de um professor.

Então me deixei conduzir ao Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro para conhecer esse monge filósofo. Lembro-me de suas mãos perfumadas quando as beijei em sinal de respeito e de sua vivacidade.

Via-se nele uma força intelectual ímpar, um ardor pela verdade que se manifestava como rigor conceitual e espiritual. Mas acima de tudo, via-se a bondade enquanto vontade de compartilhar amorosamente, como um dom, as belezas e as verdades metafísicas mais profundas. Em suma, o desejo e o empenho em fazer o Criador conhecido e amado em sua admirável obra permeada de ordem e harmonia.

E ele, Dom Odilão Moura, ao saber de minhas predileções pela Sofia, imediatamente convidou-me para seu curso sobre As 24 Teses Fundamentais da Filosofia de Santo Tomás de Aquino, livro do dominicano Pe. Hugon que ele havia traduzido. Deu-me um exemplar do livro (o primeiro dos muitos livros com os quais me presenteou) e eu passei a freqüentar o curso.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Um homem sem Weltanschaunng



"Se no homem não vive o que é mais elevado e mais forte do que todas as circunstâncias externas, então naturalmente lhe basta uma constipação para que perca o equilíbrio, e todo o seu pessimismo ou otimismo, incluindo seus grandes e pequenos pensamentos, têm apenas o significado de sintomas - nada além. "

ANTON TCHEKHOV

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Amor e iluminação

O amor é a expressão de nosso desterro, de nosso exílio do Éden, de nossa separação (ao menos aparente) do absoluto. Pode-se amar alguém e algo sem desviar-se da busca essencial ? Não é à toa que Platão fala de uma pedagogia ascendente no Banquete, onde do amor aos jovens belos e de um jovem belo, se sobe para a beleza dos belos corpos, das belas almas e por fim se chega gradativamente à Beleza em si, pura e imutável.

O que Platão quer apontar com isso? Não será que o amor a algo ou alguém em particular pode se tornar um obstáculo para a realização e conhecimento plenos ? Pode, mas não necessariamente. Talvez a resposta esteja precisamente numa hierarquização justa de nosso amor. Algo que faz com que o mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas se revista de um tom novo revelando toda sua sabedoria. Buscar o absoluto sobre todas as coisas não é excluir-se de todas as coisas. É saber seu justo lugar, sua constituição, na hierarquia dos entes.

Tenho a impressão que essa justa hierarquização não seja um método, nem algo que se impõe a si como dever. Creio que seja, ela mesma, fruto de um contato, ainda que incompleto e imperfeito, com o transcendente. Algo como a astúcia que Platão identifica como uma das origens do amante e do filósofo. É algo que já somos. E a hierarquização justa vai nascendo como fruto dessas experiências.

Chamo isso de “ética iluminativa”, para indicar que ela não é uma normatização das ações, mas uma expressão da iluminação gradativa. A hierarquização justa é seu fruto e pode ser exemplificada pelo episódio da iluminação de Arjuna no Baghavad Gita. Antes da batalha contra seus parentes próximos, Arjuna questiona a validade daquela luta fratricida. A revelação de Krishnah, o condutor dos cavalos de seu carro, como a manifestação do absoluto, mostra a Arjuna a verdade suprema e, assim, o lugar de cada coisa no universo. Ele então não deixará de lutar ou de viver neste mundo entre as coisas deste mundo, mas ele estará entre elas iluminado, com uma justa hierarquização.

Não será que o amor não possa ser vivido também assim? Não será que o amor a alguém em particular não possa ser incluído numa justa hierarquia, na iluminação, sem que se torne obstáculo para o conhecimento de nossa verdadeira natureza?

Do amor

O amor aparece em Platão como falta, ausência e incompletude. Só ama aquele que sente-se incompleto. O filósofo ama a sabedoria justamente porque esta lhe é alheia. Se fosse sábio, não buscaria a sabedoria por já possuí-la. Entretanto, o filósofo não é o ignorante que não busca a sabedoria justamente porque a ignora. O filósofo, como Eros, é filho da penúria e da astúcia. Se não tem o que lhe faz falta, sabe no entanto o que lhe faz falta. Oscila sempre entre a pobreza e a opulência.

Em Aristóteles o cosmos tende à extaticidade do Motor Imóvel divino. Ele em nada interfere ou toma conhecimento. Ele é a causa final, o telos, o objetivo e a perfeição. E Aristóteles diz que o motor Imóvel move as coisas na qualidade de amado, ou seja, todas as coisas se movem por amor a ele, para alcançá-lo.

Se o amor é falta, como pode o completo, o sem-falta, amar? Como pode ele se compadecer? Bernardo de Clairvaux dizia que Deus não pode padecer, mas pode compadecer-se. Como, se compadecer-se é padecer junto?

O amor é uma das marcas distintivas do homem, pois é a expressão mesma de sua finitude e de sua incompletude. Só ama aquele que sente falta. Mas o amor a alguém em particular não é trair a busca principal do homem que é aquela pelo absoluto? O amor por alguém ou por algo neste mundo finito não é um sucedânio imperfeito, passageiro e ilusório daquilo que realmente sentimos falta: a completude absoluta, Deus?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Mahakaruna


Alguns posts atrás tratei da relação entre deus e os homens inaugurada pelo cristianismo. Como Voegelin bem assinala, as descobertas dos filósofos gregos apontavam para um relacionamento unilateral entre o homem e o transcendente. São os homens que buscam o transcendente na condição de amantes, ou seja, daqueles que sentem a falta, que têm necessidade, enquanto o divino é perfeito e impassível na sua condição de amado. Isso pode ser dito com segurança tanto de Platão quanto de Aristóteles.

Com o cristianismo vêm a noção do divino que se inclina para o homem por pura gratuidade e amor. Entretanto, ao ler o livro Filosofia e Consciência do filósofo brasileiro Sérgio L. de C. Fernandes, deparei-me com a história budista do iluminado Vipassi que, questionando-se se deveria ensinar seu Dhamma (doutrina), a princípio nega-se a fazê-lo mas que depois de considerar a massa da humanidade e seus sofrimentos volta atrás e passa a ensinar.

Escreve Fernandes: " Como aconteceu séculos mais tarde entre os cristãos, estamos aqui na origem da filosofia oriental, no século VI AC, não como 'amizade' à Sabedoria, mas como Sabedoria perturbada pela Compaixão. Sendo a Sabedoria, por definição, imperturbável, sua perturbação pela compaixão - como, no cristianismo, pelo Amor - é um misterium tremendum."
A isto os budistas chamam Mahakaruna, a grande compaixão. Eis um ponto de contato interessante para ser estudado e explorado. Como pode o Imperturbável perturbar-se por compaixão dos sofrimentos dos homens?




A herança grega e o cientista

No ocidente, as coisas particulares e passageiras só importam enquanto instâncias, exemplares, daquilo que é geral e imutável, objeto próprio da mente humana.

Mesmo o cientista moderno somente se interessa pelo que é observado na medida em que isto pode lhe fornecer conhecimento do que é pra sempre inobservável: uma lei universal. Uma gota d`água particular só é interessante porque seu comportamento é uma instância (um exemplo, uma amostra) de um comportamento universal de todas as gotas do passado do presente e do futuro.

O que está à disposição da observação é a gota d`água aqui e agora que me diz de um comportamento que creio ser universal (de todas as gotas), pois jamais poderei vê-lo realizar-se em todas as suas instâncias particulares que são numericamente indefinidas, quiçá infinitas. Ao fim, o cientista se sente justificado para falar de “a gota d`água” e dizer que toda e qualquer gota d`água apresentará o mesmo comportamento em condições determinadas.

É claro que no caso do cientista o universal é encontrado graças à idéia de que a mera observação de instâncias passadas de um fenômeno permite a inferência de um comportamento universal e necessário. Como bem apontaram Al Ghazali, David Hume e Karl Popper isso é logicamente injustificado, pois da conexão constante na experiência não se infere o universal e necessário.

Mas o que interessa aqui é o traço fundamental que essa tentativa revela, ou seja, a busca pela Necessidade, pelo imutável, já apontada por Shestov.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Herança grega

Shestov dizia que o começo e a função máxima da filosofia residia na descoberta da Necessidade e de sua exaltação por meio da resignação à sua inexorabilidade. A Necessidade é aquilo que é e não pode deixar de ser, aquilo que não muda nem pela ação do tempo nem pelos rogos humanos. A Necessidade é aquilo que permanece o mesmo, idêntico a si mesmo, extático.

É um traço essencial do pensamento do ocidente a busca por um conhecimento necessário, ou seja, de um conhecimento que vá além de qualquer dúvida, que constranja qualquer consciência, que não seja afetado pelas vicissitudes do tempo que destrói todas as coisas.

A herança de Parmênides, Heráclito, Platão e Aristóteles é a da busca pelo conhecimento último, extático e imutável. Tudo o que nos aparece aos sentidos passa e muda, enquanto nossa mente busca aquilo que não passa e não muda. Como dizia Jacques Maritain, a inteligência se decepciona com esse mundo de coisas passageiras.

Assim, o ocidente começa com a convicção de que o objeto próprio da mente humana é o extático e o imutável, aquilo que por fim, deve ser encontrado além das fronteiras das manifestações temporais deste mundo, além do comumente percebido, além das vontades, inclinações particulares, dos rogos e das súplicas. Por outras palavras, as desses próprios filósofos, o objeto próprio da mente humana é o divino.

sábado, 26 de janeiro de 2008

As fontes do ocidente

Não se pode entender o que chamamos de ocidente sem antes entender suas duas fontes primordiais: a herança grega e a herança cristã. Em outras palavras, é preciso ouvir Platão e Cristo para entender o que somos. É inescapável que sejamos todos, num sentido ou noutro, gregos e cristãos. Mesmo os que se opõem sentem o peso e reconhecem o valor dessa origem e dessa herança para a formação do ocidente.

Então não se trata mais de uma mera questão de ser contra ou a favor e sim de uma questão de, antes de qualquer julgamento, entender o que somos. Isso não é tarefa fácil, uma vez que existem interpretações, movimentos, escolas e correntes de pensamento que, embora originadas dessa mesma fonte greco-cristã, apresentam uma diversidade quase infinita em suas estruturas internas e em suas idéias básicas.

Talvez seja o trabalho de uma vida inteira e o provável é que fique inacabado. Mas não há, para o filósofo, outro caminho senão esse. E a realização desse trabalho é parte imprescindível do conselho socrático de conhecer-se a si mesmo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Não concordo, mas...

Quem se propõe a discutir racionalmente um tema qualquer admite de antemão que a contribuição do seu interlocutor é vital para a descoberta da verdade e que é possível que a verdade se revele do lado de seu interlocutor. Ou seja, uma das condições necessárias para a racionalidade de uma discussão é a admissão preliminar de que meu interlocutor pode estar certo e eu errado.

A outra é uma disposição de ordem ética que se manifesta de duas formas. A primeira é uma disposição de alma para a busca da verdade enquanto tal. O que deve reger a discussão é o desejo de atingir a verdade e nada mais além dela. A segunda forma, como uma consequência da primeira, é o compromisso de usar na discussão formas lícitas de argumentação. Em outras palavras, é o compromisso com a honestidade intelectual. Podemos errar usando argumentos inválidos sem o perceber. É a intenção de usar argumentos inválidos para ludibriar que faz de um erro um sofisma.

Ora, se meu interlocutor pode estar certo, então ele pode também discordar de mim. Mas qual será o valor dessa discordância? Se eu proponho uma explicação para resolver uma questão, meu interlocutor pode não aceitá-la por uma gama de motivos bem diversos entre si. Talvez seja porque ele ache que minhas premissas são falsas, ou que minhas inferências são inválidas, ou mesmo ambos os casos.

Mas para que ele possa discordar de mim e para que eu leve em consideração sua discordância ele deve me dizer suas razões e para isso ele deve conhecer o status quaestionis daquilo que estamos discutindo. Ou seja, ele deve conhecer o que já foi dito sobre a matéria em discussão. É claro que não há uma medida clara para o grau de conhecimento do status quaestionis de uma determinada matéria. Não há um ponto ideal que inequivocamente habilite uma pessoa a discutir com propriedade um assunto.

Mas há bons começos. Um deles é, sem dúvida, conhecer o que os pensadores clássicos disseram sobre a matéria, como também verificar o que seus críticos apontaram como seus pontos fracos para avaliar melhor as posições desses autores. Conhecer também o que novos autores (e seus críticos) escreveram.

Isso tudo leva tempo e exige dedicação. Mas até que parte significante desse trabalho seja feito, a concordância ou a discordância não terão nenhum valor. É claro que meu interlocutor tem o direito de discordar de mim. Mas como todo direito tem como contrapartida um dever, os benefícios do direito só podem se efetivar se os deveres também tiverem se efetivado. Se isso não acontecer, a discordância de meu interlocutor é um ato vazio, talvez fruto de disposições psicológicas ou propensões de ordem estética, mas certamente nada que deva ser levado a sério.

Graça e História

Pensando nos temas propostos em meus últimos posts tenho a impressão de que poderíamos interpretar a tentativa de criar na Terra o paraíso por meios meramente humanos como uma das faces da rejeição da graça dentro do cristianismo.

A graça é um movimento de lá para cá, ou seja, de Deus para o homem. Este então não tem nenhum mérito, recebe sem merecer o dom da revelação e da vida eterna. Mas isso deixa o homem um tanto desorientado, uma vez que está acostumado, no paganismo, a negociar seu bem-estar terreno com potências metafísicas volúveis através do cumprimento de votos e de preceitos.

Em Jesus se inicia uma nova relação, de liberdade e de amor mútuo entre Deus e o homem. A salvação é gratuita e o Reino do Céus está dentro daqueles que ouvem a voz do rabi Jesus, a face humana de Deus cujo reino não é deste mundo. Recado claro: se é verdade que aquele que está em Cristo pode provar antecipadamente (embora em parte e como num espelho turvo) a beleza da criação redivinizada, é ainda mais verdade que o reino de Deus virá no fim dos tempos, ou seja, quando a história se consumar. Não haverá paraíso terreno, histórico, mas o revestimento do que é perecível pelo que é imperecível no fim da história

Contudo, os homens preferem negociar, se rebaixar às autoridades que aceitar a liberdade da graça, como apontou Dostoievski. A proibição, a tutoria, a menoridade e as tentativas de construção do mundo perfeito são então consideradas mais palpáveis e seguras do que o desafio de aceitar que o transcendente está para lá da historicidade, que não podemos negociar com ele por meio de barganhas materiais ou morais e nem mesmo alcançá-lo por nossos próprios esforços.

Então um traço comum une o fariseu que se acha justificado pela prática rigorosa da Lei e dos preceitos e os revolucionários materialistas e utópicos que pretendem secularizar e realizar na história o paraíso: ambos tentam comprar sua segurança por seus próprios meios, controlar o incontrolável, manipular os valores e o transcendente.

Com o cristianismo o ocidente aprende que o transcendente só pode ser alcançado por meio da aceitação, por meio do acolhimento de uma iniciativa que parte de lá para cá. E nisso o homem não tem mérito. É graça.

domingo, 30 de dezembro de 2007

SPE SALVI

"Se, diante do sofrimento deste mundo, o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz nem é capaz de fazer é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira. Não é por acaso que dessa premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça".

BENTO XVI

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

O Paraíso com os meios da Queda

Em http://oleniski.blogspot.com/2007/10/tenso-religiosa.html e http://oleniski.blogspot.com/2007/10/tenso-religiosa-ii.html tratei da tensão essencial que está no âmago da religiosidade, a tensão entre o caráter atemporal do mundo divino e o caráter temporal do mundo humano.

A religiosidade surge do fato de que nossa existência temporal somente tem sentido e importância a partir de uma dimensão transcendente e atemporal que ultrapassa qualquer consciência individual. Assim, este mundo é uma parte ínfima de uma verdade ainda a ser descortinada.

A teologia ortodoxa afirma (contra o amartiocentrismo de Tomás de Aquino) que a Encarnação do Verbo, o nascimento do Messias, é a realização da divinização da natureza por iniciativa exclusiva de Deus. Ou seja, Deus se torna homem, encarna-se, torna-se temporal, para que a criação temporal seja tornada divina. O mundo divino absorve o mundo dos homens. Realiza-se a junção entre o transcendente e o imanente.

A tensão religiosa é resolvida então por Deus e em Deus. Não é o homem que constrói uma ponte entre essas dimensões, mas é Deus que toma a iniciativa. É graça e não trabalho humano. Como dizia São João da Cruz, "se é verdade que o homem procura Deus, é mais verdade ainda que Deus procura o homem."

A civilização ocidental, pós-Idade Média até nossos dias, se caracteriza pelo processo inverso. Dostoievski, Nietzsche, Cioran, Voegelin entre outros (com semelhanças e diferenças) perceberam que o caminho ocidental marcava-se pela tentativa de fazer coincidir a cidade dos homens com a cidade de Deus, fazer o imanente, o temporal engolir o atemporal e o transcendente.

Ou seja, o ocidente tentou realizar o paraíso aqui mesmo na Terra com os meios terrestres. Seja a idéia do progresso científico-tecnológico do iluminismo e de seus filhos cientificistas, seja as idéias de sociedades pacíficas, igualitárias e utópicas do anarquismo, seja a sociedade sem classes do socialismo-comunismo ou a raça ariana nazista, todas querem fazer o paraíso à força. Contem-se os corpos...

A unidade e a felicidade trazidas ao mundo por meio da força e do engenho humano, eis o que se tentou realizar. Entretanto, os valores transcendem os indivíduos e estes só o podem encarná-los limitadamente.Tentar fazer com que os indivíduos os encarnem perfeitamente, por força humana somente, é não compreender suas naturezas (a dos homens e a dos valores).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Criative Elements in Science



"There is a creative element in every reasoning: this is most strongly manifested in explanation. [...] The generalization 'every S is P' may be interpreted either as a set of singular descriptions or as the relationship 'if something is S, then it is P'. If a generalization is a set of singular judgements, it covers not only those cases which have been investigated, but unknown cases as well. By assuming that the unknown cases behave like the known ones, we do not reproduce facts that are empirically given, but we create new judgements on the model of judgements about known cases.

If a generalization expresses a relationship, it introduces a factor that is alien to experience. Since Hume's time we have been permitted to say only that we perceive a coincidence or a sequence of events, but not a relationships between them. Thus a judgement about relationship does non reproduce facts that are empirically given, but again is a manifestation of man's creative thought"

"[...] which scientific judgements are pure reproductions of facts? For if generalizations, laws, and hypotheses, and hence all the theories of the empirical sciences and the entire sphere of the a priori sciences are the result of the creative work of the human mind, then there are probably few judgements in science that are purely reproductive.

The answer to this question appears to be easy. Only a singular statement about a fact which is directly given in experience can be a purely reproductive judgement, for instance: 'a pine grows here', 'this magnetic needle now deviates (from its previous position)', 'in this room there are two chairs'. But whoever investigates these judgements more closely will perhaps find creative elements even in them. The words 'pine', 'magnetic needle', and 'two' stand for concepts, and hence concealed labour of spirit through them. All the facts formulated in words are, primitively it may be, interpreted by me. A 'crude fact', untouched by the human mind, seems to be a limiting concept."

JAN LUKASIEWICZ

sábado, 8 de dezembro de 2007

Outros pensamentos sobre a História Sem Fim

"Há pessoas que não podem ir a Fantasia , disse o Sr. Koreander, e há pessoas que podem, mas ficam lá para sempre. Porém, há outros que vão a Fantasia e regressam. Como você, Bastian. E são esses que devolvem a saúde aos dois mundos."


É muito fácil perder-se no torvelhinho dos desejos que Fantasia realiza. Mais fácil ainda é perder-se em ilusões de poder absoluto. Muitos se perderam justamente aí. Ao tornarem-se ditadores, perderam a lembrança de sua vida humana. Como poderiam tornar-se ilimitadamente poderosos em Fantasia sem perder sua condição de homens, sua inerente limitação humana? Tornar-se outro totalmente não implica o abandono do passado que será esquecido como se não houvesse existido?

Na Cidade dos Imperadores Esquecidos, Bastian está a um passo de perder-se definitivamente. Moveu guerra contra os seres de Fantasia que não se submeteram às suas vontades (nem tudo em Fantasia está sob nosso comando) e agora, sozinho vê-se numa cidade cujos habitantes nada mais são do que zumbis estúpidos que não mais podem desejar depois de desejarem ser os reis e senhores de Fantasia. Quiseram identificar-se com a alma de Fantasia, a Imperatriz Criança.

Ao fazerem isso, enlouqueceram. Esqueceram suas vidas anteriores, e com isso, perderam sua própria natureza humana. A via de auto-conhecimento que o AURIN indica em sua inscrição se tornou para eles motivo de destruição. Os desejos são traiçoeiros, nos levam a direções diversas. Há que saber usá-los para a Grande Busca.