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terça-feira, 31 de maio de 2011

Breve análise da simbologia dos deuses de H.P. Lovecraft



Não é difícil perceber que H.P. Lovecraft é um desesperado. Como Maurice Lévy bem aponta, o escritor de contos fantásticos se sente à vontade somente num mundo onde a maravilha e o espanto ainda estão presentes e não no mundo mecanizado, tecnológico e frio criado pela ciência moderna.

Já mostrei em outro post como para Lovecraft o conhecimento leva ao desespero e à loucura e como seu tema central gira em torno do fascínio fatal e intrinsecamente destruidor e decepcionante da busca intelectual. Seus personagens são sempre estudiosos envolvidos em pesquisas de naturezas diversas que, para sua desgraça, alcançam um vislumbre ainda diminuto do absoluto horror do lugar do homem no universo e da natureza das forças que o regem.

Alguém poderia afirmar que Lovecraft fosse fundamentalmente uma natureza místico-religiosa e que seus cultos imaginários, deuses aprisionados e estudiosos desgraçados representam e revelam uma busca espiritual fracassada da qual o que resta é o sonho irrealizável de maravilhas e portentos.

Lovecraft parece confirmar esse diagnóstico quando confessa que só se interessa por aquilo que sugere a presença de "maravilhas inacreditáveis". Mas talvez essa não seja a história toda. Em diversas culturas e tradições há a simbólica das águas superiores e das águas inferiores. Nas primeiras se encontra a possibilidade de uma união com um princípio superior a toda e qualquer diferença ou determinação. Nelas há a coincidentia oppositorum própria do divino, que se manifesta como arcabouço único e atemporal de todo ser limitado e transitório.

Nas águas inferiores há a possibilidade de uma imersão que se opera pela negação da individualidade num todo que tem ares caóticos e que contempla uma indistinção que é a da mera não-entidade, da dissolução alquímica do enxofre, da perda total daquilo que se é.

Enquanto nas águas superiores a individulidade é integrada plenamente a partir de um princípio supra-individual que funda metafisicamente toda entidade e que, por isso, pode estar acima das determinações sem negá-las ou destruí-las, nas águas inferiores a individualidade é tragada pela indistinção daquilo que só é como mera possibilidade não-efetivada.

O conflito entre essas dimensões pode ser plenamente percebido no símbolo dos deuses e/ou guerreiros solares que combatem serpentes, dragões ou touros. Marduk matando Tiamat, a serpente marinha que é, por vezes, identificada com as próprias águas inferiores; Rá, a divindade solar, desce todo dia às águas inferiores e, Seth, seu aspecto beligerante, mata a grande serpente Apophis; Hércules mata a Hidra de Lerna; Jorge, o Capadócio enfrenta e mata o dragão; Mithra domina e mata o touro, etc...

Em todos esses símbolos (como demonstrou Mircea Eliade em suas obras) apresenta-se a luta constante entre a ordem e o caos, entre o determinante e o determinável, entre a forma e a matéria, entre atualização limitadora e a possibilidade infinita. É o herói/deus solar que traz a determinação que torna possível o mundo, o cosmos. Enquanto possibilidade infinita, a serpente/dragão/touro é indócil, ameaçador porque não tem ainda regra, ordem e limites. Pode ser qualquer coisa, mas só será algo quando for dominada pela força do herói/deus solar que lhe impõe uma conformação determinada.

Dominada, a serpente gera o mundo com tudo o que ele contém. Assim, a serpente é também um símbolo feminino, de geração e de gestação. O que se gesta ainda não é, virá a ser. Contudo, devido a seu caráter de indistinção, a serpente/dragão/mulher/águas inferiores é, ao mesmo tempo, sinal de dissolução, porque tudo o que é, é limitado, é uno e deixa de ser justamente quando perde sua unicidade. Ou melhor, a coisa só é enquanto é limitada e a perda da unidade é a perda de seus limites próprios e o mergulho na indistinção.

Desse ponto de vista, as águas inferiores são símbolo de dissolução e da perda do ser. E os deuses de Lovecraft são deuses das águas inferiores. Cthulhu, o mais conhecido dos Antigos, é um deus exilado das estrelas, ou seja, é um expulso dos infinitos superiores e confinado às profundezas das águas inferiores. Só se comunica por sonhos, na esfera de uma realidade incorpórea, febril e fantasmática.

Os sonhos são reflexos pálidos e desconexos da ordem testemunhada na vigília, apontando simbolicamente para um plano inferior e imitativo da realidade. Os sonhos estão num nível abaixo da consciência total da própria individualidade, apontam para sedimentos psíquicos não racionais e não ordenados, rebeldes às regras da realidade.

Cthulhu vive no fundo dos mares, onde a luz não alcança. É um deus abissal, confinado à indistinção das trevas submarinas. A simbólica das águas profundas e da luz é evidente. Cthulhu é o dragão/serpente intocado pelo poder do deus/herói solar. Seu próprio corpo é apresentado em O Chamado de Cthulhu como algo que tem ares de indistinção. Sua cidade, R'lyeh, confirma essa impressão na medida em que sua estrutura arquitetônica tem toques titânicos.

O infinito matemático, quantitativo, é uma das únicas possibilidades de expressão do infinito conhecidas pela cultura moderna largamente influenciada pelas opções teórico-ontológicas da ciência. Por ser uma mera soma de unidades, elas mesmas limitadas, essa expressão não pode certamente representar adequadamente o infinito que não admite qualquer limite sob qualquer aspecto. Lovecraft usa frequentemente a impressão de infinitude matemática para expressar a grandiosidade dos Antigos, como no caso de Cthulhu, seja para expressar a solidão das vastidões cósmicas na qual o homem some como um ponto que submerge no infinito.

Assim, a magnitude da arquitetura da cidade de R'lyeh repete a simbólica que alcança o efeito da indistinção pela grandeza espacial-matemática das dimensões da cidade perdida. A antiguidade dos deuses aponta para essa mesma direção. Eles eram antes do homem, de éons tão distantes que parecem remontar à indiferenciação primordial.

Por outro lado, a arquitetura da cidade perdida desobedece mesmo às mais fundamentais regras da geometria e da matemática. Outros contos de Lovecraft , como Os Sonhos da Casa das Bruxas, também apresentam esses paradoxos como constitutivos da dimensão sobrenatural.

Aliás, seria melhor dizer infranatural ao invés de sobrenatural. Se o supranatural não nega a ordem - possibilitando sua realização na qualidade de seu fundamento - o infranatural é a acosmia, a negação do cosmos, da ordem e da natureza. Não é à toa que no topo do panteão lovecraftiano esteja Azathoth, o deus estúpido e idiota que deve permanecer dormindo para que não destrua todo o universo.

Lovecraft parece aí reconhecer que para o mundo se manter, o caos deve ser contido e que seu deus supremo é uma negação absoluta de todo e qualquer nível de ordem. É uma negação da própria vida e uma expressão do desejo de se perder numa indistinção dissolvente. Essa dissolução pode vir, por exemplo, de forma menos dramática na transformação do Shoggoth a qual os habitantes de Innsmouth se submetem de bom grado.

Além de viverem para sempre - mais uma vez o símbolo da infinitude meramente matemática -, eles se transformam em criaturas não-humanas, anfíbios híbridos que retornam para o mar para viver com Dagon e Cthulhu. Seres humanos que perdem seu próprio, ou seja, sua humanidade para se tornarem seres indefiníveis, sem categoria, cuja própria existência já é uma subversão da ordem natural. Eles se lançam ao mar, às àguas inferiores para viver nas profundezas abissais dos oceanos. Outra vez o símbolo da indistinção dissolvente.

Aberrações têm o papel simbólico de representar aquilo que resiste à formação, aos limites, ou seja, ao ser algo. Aristóteles já formulava sua teratologia em termos de resistência da matéria à forma. Em termos simbólicos, o monstro, a aberração, é a vitória da serpente sobre o herói/deus solar. É algo cujo ser é ambíguo, não cabendo em uma classe, não realizando plenamente nenhuma natureza. Ser é ser instância e a aberração não instancia nada plenamente.

A mesma ambiguidade se encontra em Yog-Sothoth, a Porta e a Chave. Ele não está no tempo e no espaço, mas em "lugar" entre ambos. É a porta por onde Antigos passaram e por onde passarão de novo. Como ele é a porta e o guardião da porta, seu status é o mesmo do limite. O limite marca o fim da coisa, sua conformação, mas ele mesmo não é nada. A porta não é a casa nem a rua, está entre os dois. Poder-se-ia considerar que a porta marca a entrada da rua tanto quanto a entrada da casa.

Talvez aí se anuncie uma aproximação débil e tímida com a coincidentia oppositorum, mas ela não se completa porque o símbolo escolhido por Lovecraft remete ao não-ser, ao contrário de um princípio supra-individual que não nega as determinações das coisas das quais é o fundamento. O fracasso é confirmado por uma descrição de Yog-Sothoth como um "conglomerado de globos faiscantes", que remete diretamente ao borbulhar de um líquido fervente no qual as bolhas não apresentam nenhuma permanência ou ordem. De novo, acosmia.

Diante de tantas negações da ordem, não será surpresa saber que o "porta-voz" de um desses deuses malditos tem como epíteto o nome de "caos rastejante". Nyarlathotep, de longe o deus mais próximo dos homens, e por isso mesmo o mais horripilante, reafirma a acosmia em seu próprio nome. É o caos, a indistinção dissolvente. Mas é também rastejante, ou seja, preso à terra, outro símbolo equivalente às àguas inferiores.

Ele comunica a desordem e espalha a destruição. Seu perfil sinistro se coaduna perfeitamente com Azathoth, o deus idiota "cujo nome não se deve pronunciar". Note-se que pronunciar é, para diversas tradições, efetivar, tornar real aquilo que é dito. Como se pode tornar real o que é a negação da ordem e do real?

Os estudiosos que entram em contato com tais seres (?) têm como recompensa a destruição física ou mental. Ou são eliminados do ser pela morte ou são mergulhados na dissolução da loucura. Não há escapatória. Eles representam a ordem que se dissolve ante a desordem primordial. São heróis solares invertidos. Perdem a luta contra a serpente/dragão.

Lovecraft demonstra um desejo inequívoco de imersão dissolvente e seus deuses malignos refletem sua incapacidade de abordar o divino a não ser numa perspectiva destruidora do cosmos. Incapaz de afirmar um princípio transcendente supra-individual e assolado pelo isolamento, ele só concebe o infinito em categorias que têm na aniquilação de toda a diferença e na dissolução no difuso caótico seu único resultado.

A obra lovecraftiana seria então um tortuoso elogio das águas inferiores e de profundezas dissolventes que testemunham abismos que estão muito além da prosaica e superficial interpretação psicológica que insiste em reduzir todos os símbolos a meros esquemas psíquicos.

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domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Nome da Rosa: Jorge de Burgos contra Aristóteles


"Cada livro daquele homem destruiu uma parte da sabedoria que a cristandade acumulara no crescer dos séculos. Os padres disseram aquilo que era preciso saber sobre a potência do Verbo, e bastou que Boécio comentasse o Filósofo para que o mistério divino do Verbo se transformasse na paródia humana das categorias e do silogismo. O livro do Gênese diz o que é preciso saber sobre a formação do cosmos, e bastou que se descobrissem os livros físicos do Filósofo, para que o universo fosse repensado em termos de matéria surda e viscosa, e para que o árabe Averróes quase convencesse a todos da eternidade do mundo. Sabíamos tudo sobre os nomes divinos, e o dominicano sepultado por Abbone - seduzido pelo Filósofo - os nomeou de novo seguindo as sendas orgulhosas da razão natural. Desse modo, o cosmos , que para o Areopagita se manifestava a quem soubesse olhar para cima a cascata luminosa da causa primeira exemplar, tornou-se uma reserva de indícios terrestres dos quais se remonta para nomear uma abstrata eficiência. Primeiro olhávamos para o céu, dignando de um olhar agastado a lama da matéria, agora olhamos para a terra, e acreditamos no céu pelo testemunho da terra. Cada uma das palavras do Filósofo, sobre as quais já agora juram também os santos e os pontífices, viraram de cabeça para baixo a imagem de Deus."

VENERÁVEL JORGE DE BURGOS, O Nome da Rosa *


A fala do monge ancião venerável Jorge de Burgos, personagem fictício do famoso romance O Nome da Rosa de Umberto Eco faz alusão a um dos grandes debates da Idade Média: o lugar da filosofia no seio do Cristianismo.

A trama do livro se passa na primeira metade do século XIV, numa época onde os estudos filosóficos já eram uma atividade mais do que consolidada na vida da Igreja ocidental. Na verdade, desde seus inícios, o cristianismo travou contato com a herança filosófica grega, chegando mesmo a utilizar-se de seus termos para melhor transmitir o conteúdo da fé.

Qual o papel que o saber pagão deveria ter na vida cristã permaneceu, porém, uma questão em aberto por toda a Idade Média. Havia os que, seguindo o exemplo de Tertuliano, rejeitavam toda e qualquer especulação filosófica como desnecessária e, por vezes, prejudicial àqueles que já tinham aceitado a revelação divina na pessoa de Cristo.

Outros havia que a utilizavam para melhor transmitir os conteúdos complexos dos dogmas, restringindo desse modo o erro no entendimento dos mesmos sem, contudo, comprometerem-se com a defesa de um sistema filosófico qualquer. Outros ainda defendiam a submissão da filosofia à Revelação, da qual deveriam ser retiradas todas as premissas das investigações dignas desse nome.

Como asseverava Étienne Gilson, é o frade mendicante italiano Tomás de Aquino que concede ao empreendimento filosófico bases independentes da Revelação e sustenta que as conclusões deduzidas logicamente de premissas evidentes, hauridas da experiência sensível comum, jamais podem realmente estar em contradição com aquilo que é revelado por Deus. Em outras palavras, duas verdades jamais se contradizem.

Por esse motivo, qualquer conclusão que seja fruto dos poderes naturais da razão humana e que contradiga direta ou indiretamente os conteúdos revelados deve estar errada. O erro, porém, não é corrigido pelas Escrituras, a partir da adoção de suas afirmações sobrenaturais como premissas. Ele deve ser corrigido por meios racionais e naturais, em um reexame das premissas de onde foram deduzidas as conclusões errôneas.

O conflito com a Revelação indica uma falha cognitiva humana, mas não aponta em que ponto está a falha e nem provê as premissas corretas para corrigí-la.

A atitude tomista recebeu duras críticas de seus contemporâneos, principalmente dos agostinianos, que usavam acusá-la de introduzir o paganismo no cristianismo. Tomás, entretanto, jamais deixou de enfatizar a diferença entre aquilo que se pode saber por meio da razão natural e aquilo que só se pode saber por meio da revelação divina. Esta será sempre superior àquela.

Contudo, nem todos se convenceram dessa doutrina cautelosa do Aquinate. O século XIII foi a época da absorção do corpus filosófico e científico aristotélico traduzido ainda no século XII pelo esforço admirável de monges e frades como Wilhelm de Moerbeke. Nesses tempos, não foram poucos que se convenceram do perigo de uma contaminação da fé pelos silogismos do Estagirita.

É de 1277 a condenação de diversas teses da física de Aristóteles pelos mestres teólogos da Universidade de Paris em comunhão com o bispo Étienne Tempier. Essa condenação, já comentada aqui em post anterior, teve como motivação a defesa da liberdade divina frente às pretensões de certeza dos filósofos naturais.

O que Jorge de Burgos bem percebe é que a filosofia aristotélica, cujas bases são buscadas sempre na observação sensível cotidiana, opera uma curiosa inversão no caminho do pensamento. Pela consideração dos seres e de suas essências se chega ao motor imóvel eterno e imutável para o qual todas as coisas tendem como o amante busca o amado.

Ora, se a teologia apofática do mestre São Dionísio Areopagita resguardava o cristão do erro na concepção de Deus negando a possibilidade de afirmação de qualquer atributo ou nome à divindade, cuja supra-essência está além de toda essência e de todo o conceito, como poder-se-ia confiar num caminho que atraía a inteligência às realidades sensíveis?

E mais, Aristóteles considerava as coisas a partir de suas essências, suas formas substanciais, de onde provinham todas as suas potencialidades e onde, por conseguinte, se enraizavam causalmente todas as suas ações. Um modo como esse de considerar o mundo não afastava a ação divina? Se não a afastava completamente, não a limitava ao menos?

Muitos apontaram para a ausência nessa filosofia pagã da radical dependência ontológica das coisas com relação ao Criador. Para o cristão tudo o que há foi tirado do nada pela vontade livre e soberana de Deus. Por isso mesmo, as coisas não apresentam uma subsistência ontológica a não ser por meio da ação contínua de Deus.

No século XII o místico sufi Al Ghazali já havia defendido o absoluto ocasionalismo divino. Em outras palavras, nada há de subsistente nas coisas e quando se observa um corpo agindo sobre outro se observa na verdade a ação divina que une causa e efeito por sua livre e soberana intervenção e não pela suposta presença de essências ou naturezas intrínsecas nesses corpos.

Contra ele se levantaram tanto Averróes quanto o dominicano de Aquino, argumentando que se não houvesse naturezas intrínsecas nas coisas pelas quais elas agem, não haveria também nenhuma possibilidade de conhecimento real do mundo. Deus age no mundo diretamente através da excepcionalidade dos milagres nos quais capacita as coisas a apresentarem efeitos que vão além de suas capacidades naturais e ordinárias.

Jorge de Burgos via a inversão gnosiológica empreendida por Tomás e seus seguidores como uma perigosa inversão também na ordem ontológica e que esta teria como consequência o esquecimento da dependência dos seres criados com relação a Seu Criador.

Se os temores do venerável monge eram fundados ou não, é assunto para uma investigação robusta da filosofia e da teologia do Aquinate, o que não vai ser feito aqui neste momento. O que é certo, contudo, é que eles encontram eco em várias polêmicas e disputas da fascinante aventura intelectual que caracterizou a Idade Média.


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* O "Filósofo": Aristóteles; o "dominicano sepultado por Abbone": Tomás de Aquino.
A edição utilizada é da editora record e foi traduzida por Aurora F. Bernardini e Homero Freitas de Andrade.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Nome da Rosa: William de Baskerville e os limites da investigação


"Nunca duvidei da verdade dos signos, Adso, são a única coisa de que dispõe o homem para se orientar no mundo. O que eu não compreendi foi a relação entre os signos. Cheguei a Jorge através de um esquema apocalíptico que parecia reger todos os crimes, contudo era casual. Cheguei a Jorge procurando um autor de todos os crimes e descobrimos que cada crime tinha no fundo um autor diferente, ou então nenhum. Cheguei a Jorge seguindo o desígnio de uma mente perversa e raciocinante, e não havia desígnio algum, ou seja, Jorge mesmo fora dominado pelo próprio desígnio inicial e depois se iniciara uma cadeia de causas, e de concausas, e de causas em contradição entre si, que procederam por conta própria, criando relações que não dependiam de qualquer desígnio. Onde está toda a minha sabedoria? Comportei-me como um obstinado, seguindo um simulacro de ordem, quando devia bem saber que não há uma ordem no universo."

William de Baskerville, em O Nome da Rosa de Umberto Eco

As palavras do frade franciscano inglês William de Baskerville ao final do romance O Nome da Rosa, eivadas de decepção e desânimo, revelam uma questão teórica das mais importantes e que dá um certo tom desalentado à empresa detetivesca do protagonista. Esse tom parece ter sido totalmente esquecido na adaptação cinematográfica e em boa parte das críticas à obra.

A questão que põe William desconcertado é o fato de que, embora largamente adequada aos signos manifestos, aos fatos ocorridos, e a despeito de ao fim conduzir à descoberta das atividades criminosas do velho "venerável" Jorge de Burgos, a hipótese que guia o frade é totalmente errônea.

Sua teoria de uma mente que matava de acordo com um esquema apocalíptico, embora se coadunasse com as formas e com a ordem cronológica dos crimes, estava totalmente equivocada, pois esses mesmos crimes foram, na realidade, cometidos de forma aleatória totalmente independente do esquema geral imaginado por William.

A nevasca de Adelmo foi na verdade um suicídio. O sangue onde foi encontrado Venâncio foi uma idéia de Berengário para esconder o corpo que inadvertidamente encontrara. A morte de Berengário na água foi casual e estava ligada a seu costume de banhar-se com freqüência. A terceira parte do céu na morte de Severino foi uma coincidência determinada pelo fato de uma esfera armilar ser a coisa mais à mão de Malaquias que cometeu o crime por ciúme vulgar. E, por fim, os escorpiões de Malaquias não eram mais do que o reflexo de uma sugestão ameaçadora de Jorge de Burgos.

Em todos esses eventos o acaso desempenhou um papel preponderante, de modo que a concordância dos crimes com o esquema hipotético do frade inglês não revelava uma adequação real entre a teoria e os fatos, entre o explicans e o explicandum. E isso manifesta a verdade epistemológica de que qualquer conjunto de dados pode ser logicamente explicado de forma adequada por um número indefinido de teorias.

O maior desafio da razão teórica é reunir os diversos fatos dispersos no tempo e no espaço sob um conjunto finito de leis fundamentais. E não basta que se possa delas derivar logicamente os fatos; é necessário que essas leis fundamentais realmente correspondam à natureza dos fenômenos estudados.

A questão colocada claramente pela personagem cativante do franciscano William de Baskerville levanta dúvidas capitais acerca da possibilidade de "deduzir" verdades de fatos isolados, habilidade de que geralmente os detetives da literatura se valem para a resolução de seus mistérios.

A conclusão desalentadora de William, exposta pouco mais à frente no livro, é a de que as teorias, construções mentais de ordem que imaginamos e impomos ao mundo, no fundo nada mais são que redes, instrumentos que devem ser abandonados tão logo se alcance o que se almeja, uma vez que se descobre fatalmente que elas não eram em absoluto verdadeiras.

A revelação do erro, final desconcertante da busca do franciscano detetive, lança sobre toda a sua empreitada investigativa um certo tom de ironia e de fracasso. Contudo, o fracasso não é a palavra derradeira dessa história porque William, apesar de tudo, ainda carrega sob seus braços diversos livros raros salvos por ele das chamas enquanto abandona o mosteiro destruído.

Ele continua na empreitada do conhecimento. Como poderia não ser assim?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Dostoievski e a estratégia revolucionária



"-Por que tantos crimes, esses escândalos, essas misérias?
- A fim de abalar o Governo nas suas bases, a fim de apressar a decomposição da sociedade, a fim de desanimar a todos e inocular nos espíritos a desordem. Depois teríamos nos apoderado dessa sociedade caótica, doente, abandonada, cínica e cética, mas que aspira submeter-se a qualquer idéia diretriz; teríamos brandido o estandarte da revolta, apoiando-nos na rede de grupos de Cinco, que por seu lado agiriam promovendo a propaganda, estudando os pontos fracos do adversário e os meios práticos de o combater."

Liamchine, membro do grupo revolucionário de Cinco, em Os Demônios de FIODOR DOSTOIEVSKI


Toda a estratégia revolucionária, exposta por Dostoievski, de um fôlego só, na confissão deliberada da personagem do revolucionário Liamchine.

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Mais de Dostoievski sobre os revolucionários:

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dostoievski e o ascetismo demoníaco


"Em suma, tudo depende dos senhores e da convicção em que devem estar de que agiram bem - convicção da qual logo amanhã estarão definitivamente de posse, segundo o espero. É por isso, entre outras coisas, que estão reunidos e que, partilhando das mesmas idéias, formaram livremente uma organização a fim de se auxiliarem mutuamente e, sendo preciso, a fim de se vigiarem mutuamente. Foram chamados a reformar uma sociedade decrépita e apodrecida: esse pensamento lhes deve estimular constantemente a coragem. Os seus esforços devem sempre procurar fazer com que tudo desabe - tanto o Estado quanto a sua moral. Só nós ficaremos de pé, nós que desde muito estamos preparados para tomar posse do poder. Anexaremos os indivíduos mais inteligentes, e quanto aos imbecis, serão por nós cavalgados. Isso não os deve chocar. Teremos que reeducar a geração atual para a tornar digna da liberdade. Ainda restam milhares de Chatov. Organizar-nos-emos para dirigir o movimento: seria uma vergonha, da nossa parte, não nos apoderarmos do que praticamente se nos oferece."

Discurso de Piotr Stepanovitch Verkhovensky, líder do grupo revolucionário socialista, após o assassinato de Chatov em Os Demônios de FIODOR DOSTOIEVSKI

Esse discurso, sem dúvida, poderia ter saído dos lábios de Sergei Nechaiev, o revolucionário niilista russo que assassinou um dissidente em novembro de 1869 e inspirou Dostoievski na criação de Piotr Stepanovitch. Nechaiev foi também o autor do nefasto Catecismo Revolucionário onde preconizava que todos os fins, mesmos os mais torpes, são justos se conduzem à revolução.

No Catecismo, Nechaiev afirmava que o ser inteiro do revolucionário está "devorado por um único propósito, um único pensamento, uma única paixão - a revolução. De coração e de alma, não somente por palavras, mas por ações, ele cortou toda a ligação com a ordem social e com o mundo civilizado inteiro; com as leis, boas maneiras, convenções e moralidade desse mundo. Ele é seu impiedoso inimigo e continua a habitar nele com apenas um propósito: destruí-lo."

O revolucionário é um homem totalmente dedicado, para quem sentimentos como amor gratidão, misericórdia, amizade e honra devem ser afastados. E até mesmo ódio e vinganças pessoais devem ser imperiosamente afastadas em nome do sucesso da revolução e da destruição de toda a ordem vigente.

As inclinações pessoais e os desejos do revolucionário não podem jamais se sobrepor aos interesses da atividade revolucionária, sendo sua moral e regra de vida realizar tudo, por qualquer meio concebível, que contribua para a conquista de seu objetivo único. O revolucionário está morto para si mesmo para que a revolução viva.

Se Nechaiev não houvesse sido preso, o jovem dissidente morto por ele certamente teria sido só o primeiro. Piotr Stepanovitch, o Nechaiev dostoievskiano, por seu turno, tem consciência de que Chatov é somente o primeiro e que milhares deveriam futuramente ter o mesmo destino.

O Catecismo prosperou e fez inúmeros discípulos que se dedicaram com afinco a eliminar seus próprios Chatov onde quer que os encontrassem. As valas comuns, Gulags e campos de extermínio do século XX o testemunham com eloqüência muda.

É um dado incontestável declarado por todas as religiões tradicionais: o homem necessita de ascese. É de sua natureza mais profunda. Entretanto, é também fato conhecido a todas as religiões a possibilidade da ascese maléfica.

Uma leva o homem a morrer para si mesmo, a esvaziar-se, a tornar-se nada para alcançar o Todo, o Absoluto. A outra leva o homem a morrer para seus desejos imediatos, para concentrar-se inteiramente na busca de um ideal de poder e de destruição, fruto da insatisfação de um exílio ontológico confusamente discernido a partir de uma imagem invertida do céu.

Left hand path, ascese do demônio.

sábado, 29 de agosto de 2009

Dostoievski profeta


"Cada um pertence a todos e todos pertencem a cada um. Todos os homens são escravos e iguais na escravidão. (...) Antes de tudo, rebaixa-se o nível da instrução, das ciências e dos talentos. O nível elevado da ciência e do talento só se obtém graças a inteligências superiores, - portanto nada de inteligências superiores. Homens de talento apoderam-se sempre do poder e tornam-se déspotas. E não podem agir de outra maneira; sempre fizeram mais mal que bem. É mister baní-los ou matá-los. Cícero terá a língua cortada, Copérnico os olhos furados, Shakespeare será lapidado. Isso é que é o chigaliovismo. (...) Não há necessidade de instrução, chega de ciência! Os materiais de que já dispomos nos bastarão durante mil anos; o que é importante estabelecer é a obediência. A sede de instrução já é uma sede aristocrática. Mal é permitida a instalação da família e do amor, imediatamente nasce o desejo de propriedade. Haveremos de matar esse desejo: desenvolveremos a embriaguez, a calúnia, a delação; mergulharemos o homem numa devassidão inaudita, destruiremos no ovo qualquer gênio que se esteja formando. Todos serão reduzidos ao denominador comum: igualdade absoluta."

Verkhovensky, em Os Demônios (1871) de FIODOR DOSTOIEVSKI

Em Os Demônios Dostoievski faz um diagnóstico preciso das idéias e motivações dos grupos radicais russos do final do século XIX. Inspirado no caso real do assassínio de um estudante por Niechaiev, líder de um desses grupos, o mestre russo faz desfilar ante o leitor a plêiade aterrorizante dos tipos que compunham aqueles movimentos e das idéias que, como demônios, os habitavam.

Pela boca de Chigaliov, o teórico do grupo, Dostoievski enuncia os objetivos e os métodos que seriam usados nas revoluções e ditaduras que iriam tomar a Rússia e boa parte do mundo no século seguinte.

Partindo da liberdade absoluta chega-se a servidão absoluta. Um décimo será livre além dos limites e manterá o resto em servidão sem limites. Eis a essência do chigaliovismo. Um rebanho tolo e sem vontade transformado pela mediocrização contínua.

Ódio pelo talento e pelo espírito, considerados como pretensões aristocráticas ofensivas ao igualitarismo do rebanho. Como podem haver inteligências superiores, talento e mérito? O igualitarismo extremo se configurará necessariamente numa negação da Natureza. E se esta insiste em criar diferenças, elas deverão ser devidamente anuladas por meio de uma nova organização social que sufoque o gênio e force a igualdade da mediocridade.

Ao invés de justiça, nivelamento e servidão.

E o assassínio de Chatov, o crime praticado por motivos políticos e, por isso mesmo, absolvido em nome da escatologia da "causa", assim como o crime perpetrado por Niechaiev, pressagia a massa quase infinda de cadáveres e de covas coletivas que assombraram o século XX.

Como disse John Gray, os czares eram culpados de muitos crimes. Mas o genocídio com o objetivo de aperfeiçoar a humanidade não era um deles. Esse é um projeto moderno. E Dostoievski parecia saber exatamente para onde ele conduziria.

Nada menos que profético.

sábado, 4 de abril de 2009

Lovecraft e o terror do conhecimento


"O homem deve se preparar para adquirir um conhecimento terrificante do Cosmos e do lugar que ele mesmo ocupa no turbilhão do tempo. É necessário pôr-se em alerta contra um perigo secreto bem determinado que, se não ameaça destruir a raça humana inteira, pode infligir aos seus representantes mais aventureiros horrores monstruosos e indefiníveis."

H.P. LOVECRAFT, The Shadow out of Time


Quem quer que já tenha lido boa parte dos contos fantásticos de H.P. Lovecraft irá notar um tema constante que atravessa suas obras: o terror advém do conhecimento. Em seus contos, de alguma forma, todos os estudiosos que se aventuram em conhecer as profundezas do real, sejam eles matemáticos, físicos, filósofos, antropólogos ou mesmo ocultistas e teósofos, encontram ao final de sua jornada somente horror e loucura.

Há em Lovecraft a consciência de que a atividade do conhecimento abre para os olhos humanos o abismo de sua pequenez cósmica e da indiferença essencial do universo para com ele. Alguns críticos já salientaram que as obras lovecraftianas têm um sabor de decepção com o rumo mecanicista e desespiritualizado da ciência moderna que culmina na afirmação de um mundo frio e indiferente.

Mas há algo mais que isso. Há o sentimento de que o conhecimento pode ser tão terrível que a loucura é a única alternativa misericordiosa frente ao horror. Se um dos mais poderosos deuses antigos, Azathoth (cujo nome não se deve pronunciar em voz alta), é um deus cego e idiota que deve continuar adormecido para não destruir todo o Cosmos e se seu preposto, Nyarlathotep, é maligno o suficiente para, tomando a forma humana, fornecer aos homens o poder de se auto-destruírem, então as forças que controlam o universo não são somente indiferentes.

Elas são más. São dotadas de uma vontade maligna, por vezes cega e por vezes intencional, mas sempre detestável e malévola num nível desconhecido ao ser humano. Blasfêmia é um termo usado amiúde por Lovecraft para descrever essas forças. Blasfemo é aquilo que, negando ou escarnecendo, vai contra tudo o que consideramos sagrado e certo. Essas forças, por sua própria existência e lugar no universo, escarnecem de nossas mais íntimas e ingênuas convicções sobre o bem e a harmonia cósmica.

O destino humano é então miserável e o conhecimento que leva a tal revelação é maldito em si mesmo. Não seria melhor ter permanecido na era dos mitos e da poesia, da qual Lovecraft tentas vezes manifesta nostalgia? A curiosidade do conhecimento se mostra como uma armadilha que lança seus artifícios insidiosos gradativamente e que, ao final, guarda somente engano e sofrimento.

Lovecraft parece não haver indicado qualquer solução para esse dilema a não ser, talvez, a rejeição implícita dessa curiosidade que deu azo ao conhecimento que traz nossa própria ruína. Talvez seja exagero classificar Lovecraft como irracionalista. Entretanto, ele é certamente um autor que, como diversos outros nos tempos recentes, através da literatura, lança dúvidas sombrias sobre as vantagens do conhecimento e se questiona se, sendo nosso lugar no mundo tão triste e insignificante, talvez fosse melhor não conhecê-lo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Marcel Proust



Marcel Proust é meu autor preferido e após ler o ciclo de Em Busca do Tempo Perdido, resolvi escrever um artigo sobre um episódio dessa obra. O artigo foi selecionado e publicado na Revista Eletrônica Arte e Existência e disponibilizo aqui o link:http://www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/existenciaearte/Edicoes/3_Edicao/Rogerio%20Oleniski%20LITERATURA%20E%20FILOSOFIA.pdf

sábado, 15 de março de 2008

Céus de Mishima




Com que então pertenço aos céus?
Não fosse assim, por que é que os céus
Me olhariam assim com seu eterno olhar azul,
Me chamando, e à minha mente, mais alto,
Sempre mais alto, sempre mais acima,
Me chamando sempre para o máximo,
Para alturas que homem algum imagina?
Por que, estudado o equilíbrio
E o vôo planejado até a última minúcia,
Até não haver margem para o infortúnio,
Por que, até aí, deve a ânsia de subir
Ser associada à insânia?
Nada nesta terra vai me ver satisfeito;
Novidades do mundo, logo monótonas;
Algo me chama lá em cima, para cima,
Cada vez mais perto da faísca do sol.
Por que me queimam estes raios da razão.
Por que me destroem estes raios?

Trecho do poema "Ícaro" de Yukio Mishima, traduzido por Paulo Leminski

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Um homem sem Weltanschaunng



"Se no homem não vive o que é mais elevado e mais forte do que todas as circunstâncias externas, então naturalmente lhe basta uma constipação para que perca o equilíbrio, e todo o seu pessimismo ou otimismo, incluindo seus grandes e pequenos pensamentos, têm apenas o significado de sintomas - nada além. "

ANTON TCHEKHOV

sábado, 8 de dezembro de 2007

Outros pensamentos sobre a História Sem Fim

"Há pessoas que não podem ir a Fantasia , disse o Sr. Koreander, e há pessoas que podem, mas ficam lá para sempre. Porém, há outros que vão a Fantasia e regressam. Como você, Bastian. E são esses que devolvem a saúde aos dois mundos."


É muito fácil perder-se no torvelhinho dos desejos que Fantasia realiza. Mais fácil ainda é perder-se em ilusões de poder absoluto. Muitos se perderam justamente aí. Ao tornarem-se ditadores, perderam a lembrança de sua vida humana. Como poderiam tornar-se ilimitadamente poderosos em Fantasia sem perder sua condição de homens, sua inerente limitação humana? Tornar-se outro totalmente não implica o abandono do passado que será esquecido como se não houvesse existido?

Na Cidade dos Imperadores Esquecidos, Bastian está a um passo de perder-se definitivamente. Moveu guerra contra os seres de Fantasia que não se submeteram às suas vontades (nem tudo em Fantasia está sob nosso comando) e agora, sozinho vê-se numa cidade cujos habitantes nada mais são do que zumbis estúpidos que não mais podem desejar depois de desejarem ser os reis e senhores de Fantasia. Quiseram identificar-se com a alma de Fantasia, a Imperatriz Criança.

Ao fazerem isso, enlouqueceram. Esqueceram suas vidas anteriores, e com isso, perderam sua própria natureza humana. A via de auto-conhecimento que o AURIN indica em sua inscrição se tornou para eles motivo de destruição. Os desejos são traiçoeiros, nos levam a direções diversas. Há que saber usá-los para a Grande Busca.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Em Fantasia..

Continuação do post anterior...

Os homens projetam em Fantasia seus anseios, desejos, carências, fomes, medos e sonhos. Se ela pode se tornar um caminho de conhecimento, também pode se tornar uma via de ensimesmamento e egoísmo. Bastian é assaltado por desejos de fazer o bem para os seres de Fantasia dando-lhes histórias, sentido. Mas também se sente inclinado ao desejo de reconhecimento e gratidão, de reverência e submissão.

Ser bom, mas ser conhecido e reverenciado por isso. Ser sábio, a ponto de humilhar os mais sábios e inteligentes, mas ser famoso por isso. Ser notório em Fantasia, uma vez que não o era no mundo dos homens.

Não é difícil perder-se em seus próprios desejos, já o advertia Graograman. Não será bom ter servos feitos de lata e ocos por dentro, que nada fazem além da vontade de seu mestre, como a feiticeira Xaíyde? Será que Bastian é como certos homens que só freqüentam Fantasia para se deleitarem com imagens de poder e controle absolutos? É ele assim tão comum? O Salvador de Fantasia vai estragar tudo desejando somente imperar egoisticamente?

E note que à medida em que Bastian se sente mais inclinado a tais desejos, mais ele se esquece da sua vida na terra dos homens, seu mundo-natal. Embrenhar-se em Fantasia tem seus riscos. Pode-se desejar nunca mais voltar. Há o risco de se perder duplamente. Perder-se no caminho de seus desejos e daí perder-se de si mesmo, cair presa de sonhos megalômanos.

Ao que parece, não é o suficiente salvar Fantasia, não deixar que seus habitantes, uma vez engolidos pelo Nada, se tornem ilusões e mentiras no mundo dos homens. É preciso saber estar em Fantasia.

Pensamentos sobre A História Sem Fim



Após dar um novo nome à Imperatriz-criança, salvando assim Fantasia do perigo de ser engolida pelo Nada, Bastian entra, ele mesmo, na História Sem Fim. Ele agora não é mais um leitor, mas ele vive em Fantasia. Assim, o novo nome, a nova função de Fantasia na vida dos homens é dado primeiro por uma decisão individual. É Bastian quem decide primeiro, em sua vida, o destino de Fantasia. Se ao menos um filho dos homens o fizer, então a ameaça pode ser afastada.

Uma vez feito isso, ele é admitido no mundo da História Sem Fim. Ele se encontra em Fantasia, mas mudado, segundo seu desejo de não ser mais um fracote gordo e desengonçado. Ele agora é forte e bonito. Em suma, ele é outro. Quem entra em Fantasia não permanece o mesmo. Molda-se segundo seus desejos. Aliás, Fantasia também se molda segundo seus desejos. Bastian sente então a alegria da criação livre, o desatar da imaginação.

Recebe de Graograman o AURIN (o símbolo de regência de Fantasia pertencente à Imperatriz criança) que lhe dá plenos poderes e que tem atrás a inscrição: "FAZE O QUE DESEJARES". Mas isto não significa que Bastian pode fazer arbitrariamente o que quiser. Ele deve percorrer a perigosa via de seus desejos em busca de sua Verdadeira Vontade. Então, a inscrição indica um meio para o auto-conhecimento. Para a descoberta do que somos de verdade, de qual é nosso mais verdadeiro desejo, e, por conseguinte, nosso maior valor.

Fantasia pode se tornar uma via de conhecimento de nosso eu mais profundo se, no turbilhão de nossos desejos, nos dedicamos a descoberta daquilo que realmente desejamos, aquilo que viemos buscar em Fantasia, aquilo de que é carente o mundo dos homens. E só se descobre isso desejando, até que nossa Verdadeira Vontade apareça, livre do peso esmagador da desordem dos desejos passageiros ou de valor inferior.

E essa parece ser a questão: valor. O que há em ti de mais importante, o ápice da pirâmide de teus valores? Acho que é essa a pergunta. E Fantasia, pode ser um caminho para isso. Deter-nos em Fantasia revela nossos desejos e nossos valores porque nela só buscamos o que, de algum modo, nossa alma anseia . E ao identificar em Fantasia o que ansiamos e, principalmente, o que ansiamos acima de tudo, descobrimos o nos vai na alma no seu mais profundo. É um socrático "conhece-te a ti mesmo" nos domínios de Fantasia.

...

Continua em:



domingo, 2 de dezembro de 2007



Essa foto me lembrou o stariéts Zózima d`Os Irmãos Karamazov de Dostoievski.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Michael Ende e a Arte

"El artista, pues, se halla inmerso en una polaridad -idea y sensorialidad- que ofrece una extrema tensión. Lo suprasensible tiene que ser idéntico a lo sensible. Por eso, lo que pretenden el artista y el poeta no es explicar el mundo sino presentar mundos."

MICHAEL ENDE

Carta de Ende sobre sua concepção de Arte, a função da fantasia e a freqüente acusação de que seu livro A História Sem Fim tenha sido influenciado por idéias do ocultista britânico Aleister Crowley:

http://www.solotxt.com/valverde/ende09.htm

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Filisteus e poetas



O poeta russo Joseph Brodsky frente ao juiz soviético quando de seu julgamento por "parasitismo" em 1964:

Juiz: Qual é a sua profissão?

Brodsky: Sou poeta.

Juiz: Quem o reconhece como poeta? Quem lhe deu autoridade para se intitular poeta?

Brodsky: Ninguém. Quem me deu autorização para fazer parte da raça humana?

Juiz: Estudou para isso?

Brodsky: Para que?

Juiz: Para ser poeta. Por que não continua os estudos numa escola onde podem prepará-lo, onde pode aprender?

Brodsky: Não acho que se possa aprender poesia.

Juiz: Como assim?

Brodsky: Acho que ela é um dom de Deus.

Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados e depois expulso da União Soviética em 1972 e recebeu o Nobel de Literatura em 1987.